sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Meus ombros já não suportam o mundo...


Hoje li na revista Época (de outubro de 2007) um artigo sobre a ligação entre raiva e problemas do coração. Dentre os vários exemplos, a revista tomava como principal o de uma mãe americana, que em princípio foi condenada à prisão perpétua pela morte de seus dois filhos. Após anos de processo, a pena foi revista e a mãe, justamente liberta, mas, depois de tudo o que passou durante esse tempo, ela se tornou fragilizada, talvez até menos humana, se pensarmos que humano é aquele capaz de racionalizar, e, nas palavras de seu próprio médico, "morreu por causa de um coração partido". Durante muito tempo, coração partido era sinônimo de poemas de amor, hoje é cognato de esgotamento, da correria, do medo, do atual bichodemuitascabeças que é o estresse. O mundo ficou tão grande, mas tão grande, que Drummmond já não pode nos dizer que nossos "ombros suportam o mundo", porque, infelizmente, ele já não pesa mais como a singela mão de uma criança. Isso me faz pensar o quanto Drummond conseguiu sentir o nosso futuro, quase como uma previsão. Ou será que isso que chamamos de futuro é apenas um frustrado alongamento de um passado? É difícil ver que já não se pode mais olhar o horizonte, a não ser pela tela do computador. Que já não se pode mais caminhar calmamente, a não ser em uma esteira dentro de casa. Que não se pode mais conjugar o verbo confiar com tanta frequência. Que a vida se tornou uma batalha. O engraçado, é que quando comecei a escrever esse texto, eu ia falar do quanto certas coisas me irritam, como pessoas que passam quase que toda sua (in)existência reclamando da vida e das outras pessoas, formando então um maldito círculo vicioso. Ia falar também sobre como esses rompantes de raiva, segundo os senhores médicos, são cruciais para fulminar ataques cardíacos. Como deveríamos ser mais pacientes. Respirar mais, falar menos. Sorrir mais, resmungar menos. Viver mais, morrer menos.Ia falar também que todo dia tento não ver o mundo ao meu redor, procurando dentro de mim um mundo só meu, mas tomando o máximo de cuidado pra não "cutucar" uma personalidade esquizofrênica que, por acaso, possa estar dormindo dentro de mim, aí, já viu. Ia falar também de situações cotidianas, que me fazem querer arrancar os cabelos. Mas, sem avisar, Drummond me segredou ao ouvido coisas maiores, e que me fizeram esquecer da mesquinhez da qual é feita essa vida de amarguras. Então parei pra pensar na notícia que li sobre uma menina de cinco anos (pasmem!) que foi violentada e estuprada; ou então das várias garotas que foram encarceradas na mesma cela que homens; ou no "incidente" da Fonte Nova. Porque diabos eles insistem em chamar de "incidente" sendo que aquilo foi uma puta duma tragédia causada, mais uma vez, pela total indiferença dos responsáveis pelos órgãos públicos, pois não direi mais que esses cidadãos que não merecem, sequer, que eu me retire da minha casa para dizer "não vou dar meu voto para ninguém", também não merecem que eu me refira a eles como pessoas que fazem política. Pois a boa e velha política está enterrada, junto com os velhos filósofos e a boa cultura. Mas enfim...Quase que me perco, nesse mar de sensações no qual mergulho toda vez que penso nisso. E este "nisso" quer dizer tudo o que se passa diante da minha janela, da sua tv, do nosso lado na rua. E ao pensar em tudo isso, minha implicância fica pequena, e já não fico mais aborrecida com as pessoas. Fico é tomada por uma tristeza sem tamanho, o que, talvez, não deixe de ser também um "coração partido". E só pra fazer jus àquele que esteve ao meu lado (ou que sempre está) enquanto meus dedos batiam os pregos de minhas idéias, vai o poema de Drummond do qual falei no 2° parágrafo:


Os ombros suportam o mundo (do livro Alguma Poesia)

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás
Ficaste sozinho, a luz apagou-se
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

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