sábado, 22 de março de 2008

Longe de nossos pais...

Imagine que um dia você acorda e não está mais em sua cama. Olha para o lado e não vê a boba da sua irmã. Volta sua cabeça para o teto e não vê as estrelinhas que brilham no escuro, que deram um trabalho do inferno para serem colocadas. Você levanta e vê que sua mãe não está lavando roupa, ou reclamando da bagunça do quarto. Aliás, você percebe que não há mais quarto, e que seu pai não está mais deitado no sofá, até porque não há mais sofá. Não!Isso não é um pesadelo, ou então parte de um filme daqueles em que as pessoas trocam de identidade. Isso é o primeiro dia de uma nova vida, longe das asas da família.
Engraçado... Quando eu era mais nova (numa época nem tão distante assim), vivia imaginando como seria bom ter uma casa só minha, ter “independência” (sonho de todo aborrecente do início dos anos 90), arrumar as coisas do jeito que eu queria. Casar não estava nos meus planos, tampouco comprar uma bicicleta, porque detesto aquilo, mas morar sozinha sempre esteve...
Hoje estou olhando pra uma sala só minha, de uma janela só minha, e com uma solidão que é só minha também. Parece que ainda vejo o rostinho da minha irmã rindo da minha cara de boba. Ou então ouço as risadas italianas escandalosas de meu pai. Ou sinto o olhar de “aiaiai, o que é que essa menina vai fazer agora?!” da minha mãe. Mesmo tão longe, eles ainda estão aqui, bem pertinho.
Eu sei que a gente vive tentando disfarçar o amor, principalmente pela família, como se fosse proibido, ou fizesse com que a gente fosse menos interessante, menos “cool”. Sabe-se lá quem foi o idiota que começou tudo isso. Mas o fez muito mal feito. Não fique você aí, sentado nessa cadeirinha que seu pai comprou, pensando que é muito fácil viver longe de nossos pais. E não falo da parte de lavar, passar e cozinhar não! Isso dá pra tirar de letra! Eu falo é do vazio, da saudade, da vontade de dizer tudo o que nunca se teve coragem, porque sim! Nós somos covardes! E vivemos querendo esconder o que carregamos na alma!
Mas... Agora eu tenho que ir. Vou ter de deixar a saudade escondidinha aqui no canto, porque a roupa me chama, e, assim como minha mãe, ela não sossega enquanto não faço o que ela quer...

Patrícia Pirota set./07

Um comentário:

  1. Isso mesmo.
    É exatamente isso.
    E vc chega em casa e as coisas estão exatamente do mesmo jeito que vc deixou. De repente, um apartamentinho de 40 m2 parece tão grande e tão cheio de solidão e silêncio.
    Os seis primeiros meses são os mais complicados.
    Mas depois passa.
    Melhor, passar não passa, mas a gente se acostuma. Ótimo texto!

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