terça-feira, 30 de setembro de 2008

"Uma caixa"

"Uma caixa. Um espaço vazio que possui tampa e no qual você pode guardar tudo. Nele talvez caibam todos os seus sonhos. Seus desejos. Suas frustrações. Suas palavras. Seus medos. Suas misérias. Seus sucessos. Suas lágrimas. Sua realidade. Seu suor. Suas noites não dormidas. Seus sonos. Seus muitos pares de sapatos. Seus espelhos. Seu coração. Sua alma.
A tal caixa dei o nome de Vida."
Para muitos a vida é apenas uma palavra, que passa pela janela. Que pega carona nos ônibus lotados de manhã. Que lhe lembra de que há contas a pagar. Para tantos outros talvez ela seja um estado de espírito. Ou então um estado de aceitação.
É necessário se estar vivo para aprender? Ou é necessário que a vida deixe de existir, em algum ponto, em algum momento, para que aprendamos?
"Minha vida é uma caixa. Escolhi assim, afinal, a cada segundo em que o tempo escorre belo e grotesco de minhas mãos, tenho que fazer uma escolha."
Será que a vida é uma escolha? Será que preciso mesmo escolher estar viva? Ou isto apenas me acontece ao abrir os olhos pela manhã e ver que tudo continua ali, do mesmo jeito que deixei? Ou a vida é apenas uma ilusão, que nos contaram no meio das muitas histórias de dormir?
"Minha caixa é grande. Algumas partes coloridas,vivas. Outras em preto e branco mesmo."
Viver é apenas uma doação? Vivemos por quem? Para nós? Para outros? Para saudar o universo que espera que continuemos sua desevolução?
A partir de qual ínfimo momento deixamos a palavra de lado e passamos a conjugar o verbo? A vida fica ali quietinha, sentada de castigo, até que empunhemos o tal do "viver" e saiamos porta a fora com o pulmão cheio de ar para gritar aos quatro ventos que não se está além.
"Acho que hoje percebi um furo em minha caixa. Não sei o que pode passar por ali. Para fora, talvez eu perca alguma coisa. Para dentro, talvez eu ganhe o que nunca tive."
Caixas. Palavras. Verbos. Nada disso existiria se eu não tivesse aberto meus olhos hoje pela manhã e sentido o ar entrar. Talvez se ontem eu tivesse decidido não dormir por apenas 8 horas, mas por mais tempo do que qualquer maquininha possa contar.
Mas não há que se encontrar paz fora da vida. Mesmo que seja necessária uma escolha. Que ela seja a de continuar guardando tudo em uma caixa.

Abril/2007

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

The Cleaners ( "Open your eyes and your heart, look around")


Essa não é a primeira vez que falo do The Cleaners , e espero (muito muito mesmo) que não seja a última! Embora eu tenha esse meu jeito rocknrollviolentstormmodeon de ser, eu não consigo me conter quando ouço The Cleaners. Me torno uma brisa calma e suave, assim como as músicas deles chegam aos meus (já cansados, admito...) tímpanos... Eu poderia compará-los a outras bandas, com relação à proximidade do som ou ao conteúdo das letras; mas não é a partir de comparações que vejo o The Cleaners; como eles próprios disseram no myspace, "para a música ser música, ela deve ser natural, sem regras, sem preocupações se irá ou não vender, apenas ser tocada, ouvida e apreciada". Talvez seja isso que torne o The Cleaners tão bom de escutar; a não- pretensão acaba tomando o lugar de escalas e notas e contratempos; e isso faz com que Rodrigo, Joseph, Rodrigo e Duka falem através de seus instrumentos; e a voz dos quatro é tão harmoniosa e limpa que seria impossível pensar em um nome mais perfeito...
Abaixo alguns "esboços" sobre as músicas disponíveis no Myspace. Leia e me faça o favor de ir até lá! Vale muito a pena; é como se o mundo parasse e você ficasse ali, com os olhos fechados, sentindo o vento bater no seu rosto e todos os pensamentos ruins indo embora...

Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que ouvi "To grow old" ; e lembro exatamente da sensação que tive, até porque é a mesma que tenho agora, quando a ouço novamente. Essa música é daquelas que, mesmo que se passem anos, ao ouvi-la você consegue sentir os mesmos suspiros, a mesma sensação de que o tempo pára quando ela invade seus ouvidos. A letra e a melodia (tão raro de se poder usar a palavra melodia nas músicas de hoje, que me sinto feliz de poder usá-la com propriedade) de "To grow old" são como um início de namoro adolescente, quando você vai descobrindo aos poucos que as mãos se encaixam, que os sorrisos se tocam, e que os olhos se transformam em palavras. Uma pena que a música acabe (assim como os namoros de adolescente); mas eu sempre aperto o botão mágico de tocar de novo, e é como se fosse a primeira vez...

"The Unhappiness of Smile Plant" é uma delícia! As guitarras certinhas de Zé e Rodrigo, numa distorção melódica linda. A voz de Rodrigo doce e suave, como que suspirando ... A bateria de Duka bem compassada, marcando a cadência. O baixo do Rodrigo calmo, mas presente, como que pra fechar o ritmo. Além do que a letra é super bem escrita, e melancólica na medida certa.

"Love yourself" começa com um diálogo entre as guitarras que me faz ter vontade de levantar da cadeira e sair passeando e cantarolando "come on, open your hearts"... A bateria é muito bem marcada, sem agressividade, na medida certa. O baixo dá a "liga" entre as guitarras (aliás, o solo é ótimo!) e a bateria; e o vocal fecha tudo com a marca do The Cleaners: ser rockn roll sem ser inaudível. Ser alternativo sem ser chato. Ser original sem ser pretensioso.

Eu amo a "Coffee and Laughs"! O início é tão bom, mas tão bom, que sempre volto ao começo umas duas vezes antes de ouvir a música toda. A letra é linda! Emocional sem ser piegas. Aliás, uma das coisas que os caras fazem bem é usar o inglês como língua principal. As frases todas se encaixam perfeitamente, sem serem forçadas, mostrando que não é porque nosso vernáculo é o português que não podemos ser tão bons em outras línguas. E o The Cleaners consegue ser bom.

Anyway ... Melhor do que ler, é ir até lá e deixar que a arte do The Cleaners envolva o seu ar.
Ps: abaixo uma entrevista feita com os caras, que também está diponível no Myspace.


sete - entrevista#1 - the cleaners from sete músicas on Vimeo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Medo do escuro

(Ps:leia ouvindo Fake Plastic Trees, do Radiohead, mas mantenha os objetos cortantes beeem longe)

Sabe quando você acorda (ou continua acordado...enfim...você entendeu né!) com aquela angústia absurda, e com o passado teimando em ficar assoprando no seu ouvido? Pois é...Estou assim... Nem posso dizer que acordei assim, até porque já são três da manhã. E nem que vou dormir assim, porque definitivamente não vou dormir...
Mas estou assim...Fuçando meus subsolos, tentando achar alguma coisa que olhe pra mim e diga "Não esquenta não! Você tem muitas coisas boas do que se orgulhar!". Tá...Ahã...
Não quero que essa escrivinhação tome um rumo depressivo(ps: até porque se isso acontecer, danou-se!Acabaram meus valiuns...), mas quero compartilhar com você sobre nosso passado.
"Mas eu não tenho nada a ver com o SEU passado!", você pode estar gritando e quase fechando a tela, mas peraí! Você também viu a Xuxa (por si só um bom motivo pra anos de terapia), usou cabelo Xororó (terapia até a próxima encarnação!) e comeu Lolo e Chiclets(ufa!por esse não vamos a terapia...mas pela quantidade que eu comi, dá-lhe dentista!).
"Tá!E o que que tudo isso tem a ver com o título?". Bom...Um bom artista sempre coloca os títulos diametralmente opostos a sua obra (ps:caso você não tenha entendido, significa nada a ver com o que foi criado tá)... Mas na verdade, eu acho que eu tava falando sobre o passado né? Ou era sobre a angústia?
Ah!Enfim... O que na verdade tomou conta de mim hoje foi o medo do escuro (arrá!pra ninguém dizer que não tem nada a ver com o título!Vai que você tá lendo isso numa segunda...Aí já viu né...Mau humor na certa!) (ps:hoje é segunda!!!argh!). O medo de mexer no escuro do meu passado...
Tantas coisas que foram deixadas pra trás(e que eu jurava que ficassem todas embaixo da cama, pra sempre...), e que parece que perderam o valor. Aqui eu não falo só dos discos do Menudo, dos gibis da Disney, e dos Legos (ps:quem nunca perdeu uma peça de Lego que atire o primeiro Playmobil!). Falo também de um pouco de nós...Sim, eu sei que isso faz parte da formação da personalidade e blábláblá...Mas, onde diabos foi parar aquele sorriso bobo quando eu via uma borboleta amarela? (ps:por falar nisso, se alguém encontrar uma borboleta amarela, diz que estou com saudades!Elas nunca mais apareceram...). Ou então aquelas bochechas vermelhas quando alguém me elogiava? E os príncipes encantados então?! (lálálá...tudo bem, nessa admito que forcei...mas se até a trouxa da Cinderela tinha um, porque eu não podia querer também?!).
Pois é...Acho que minha memória anda super lotada, e que acabei por deletar alguns arquivos sem querer, ou nem prestar atenção...
Mas...O que me faz parar pra pensar nisso, é que o tal do Seu Tempo sem-vergonha tá andando muito apressadinho ultimamente... Ainda lembro de quando o chato do Galvão gritou "é tetra!", e esse mês o Brasil já tá tentando o Hexa!(ps:pra você que é nerd anti-social, tetra e hexa são apenas prefixos de derivados de carbonos cíclicos; afinal, se você ainda não sabe o que raios é o tal "hexa", deve viver dentro de um laboratório pesquisando benzenos),(ps2: pra você que é social, não tente entender o que eu disse aos anti...isso não é coisa de gente normal tá...).
Hoje um aluno me perguntou o que significava "nostalgia". Dei a definição clássica de dicionário (afinal de contas sou uma professora de português né!), mas agora acho que deveria dizer outra coisa. Deveria ter dito que nostalgia é você fechar os olhos e lembrar do seu bambolê, e jurar que ele está agora na sua cintura. Ou então lembrar daqueles arranhões de subir na árvore pra pegar goiaba(embora eu nunca tenha subido em árvore pra pegar goiaba!pois é...primeiro porque nunca gostei de goiaba.segundo porque eu era gordinha demais pra subir em árvores...). Ou lembrar com saudade da farinha e da tinta que jogaram na sua cabeça no dia da matrícula na faculdade(malditos veteranos!).
Taí...A palavra certa é saudade...Talvez hoje eu esteja com saudade. Dizem que saudade dói. Mas em mim ela reverbera.
E quando ela cai em mim, lembro do escuro do meu futuro. Que, assim como o passado, tá escondido em algum canto. Mais um retrato em branco e preto da minha vida.
Estou com medo de sonhar acordada, mas até que ia ser bom acordar com um ursinho carinhoso nos braços, aquele cheirinho de novo inundando meus pulmões (que naquela época não tinham nenhum pinguinho de monóxido de carbono, pobrezinhos) e todas as páginas do meu diário branquinhas, prontas pra guardarem minhas recordações.
Por falar nisso, onde raios será que eu enfiei meus diários?!

Patrícia Pirota julho/2006

Da série: Resgatando o blog perdido...

Dia desses me deu saudades do meu outro blog. Lembro-me de tê-lo deixado para trás e vir, liberta (ou ao menos pensando estar liberta), iniciar mais um. Fui ler alguns textos antigos, e resolvi postá-los por aqui, meio que como um "resgate nostálgico"...
Talvez seja porque meu aniversário se aproxima, ou porque aquele "eu-lírico" que escrevia por mim foi-se embora mesmo...
Enfim...Que se inicie mais uma nova fase, mas sempre lembrando das antigas =]
Ou, como afirmou brilhantemente o apocalíptico Adorno, "o salto para o futuro, passando por cima do presente, aterrisa no passado" (1996, p.42).

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tropa de Elite


Há mais ou menos duas horas atrás, eu não sabia quase nada sobre o filme Tropa de Elite. Me recusei a ler qualquer coisa, ou então a assistir o filme nesse quase um ano depois do lançamento. Pois bem, há meia hora atrás, depois de os créditos darem o filme como acabado, Tropa de Elite estava, definitivamente, infiltrado em minhas veias. Não sabia o que era sentir tanta adrenalina correndo em meu sangue desde meu querido Poderoso Chefão. Sei que já é meio tarde pra falar sobre o filme; mas essa é minha espécie de catarse...Talvez eu não consiga "sepultar" esse arrepio que ainda me corre, e essa sensação de vermelho nos olhos, mas ao menos, não vou pedir pra sair sem mais nem menos...
Primeiro preciso confessar minha, sem fundamento e pedante, necessidade de cultura que não seja de massa (como se isso ainda fosse possível!). Muitas vezes eu me pego sendo uma discípula de Adorno, criticando a indústria cultural, sem notar que nossos tempos são outros, e que as discussões pedem outras visões...Em parte devo esse novo aprendizado ao mestrado (e a minha, sempre incrível, orientadora), a outra parte devo a vida, que está sempre me ensinando que o caminho nunca é linear...
Mas, voltando ao motivo deste post. O filme, enquanto cinema (que já é uma discussão meio caduca, mas vá lá), é muito bem feito. Os quesitos como fotografia e direção de arte foram primorosamente executados (se é que cabe essa palavra aqui) pela equipe de direção. Sem contar no roteiro, que é ótimo! Bem amarrado, sequenciado, bem escrito. E a citação ao mestre Foucault, e todo seu engendramento das microorganizações de poder (quem puder ler "Vigiar e Punir", leia! É lindo!). Só não gostei da qualidade do áudio, que, como na maioria dos filmes nacionais, peca.
Por falar em filmes nacionais, sempre tive outro "problema" com relação a eles; não gosto dessa necessidade de se afirmar a brasilidade, na qual a maioria das obras de nosso cinema envereda. Essa característica de estereotipar, de escancarar uma "possível realidade brasileira". E isso eu não vi em Tropa de Elite. Vi sim um recorte da realidade, muito bem ambientado, e muito bem trabalhado. Claro que há os palavrões (execrados por parte do público), característica mor de nossa sétima arte; mas dentro do universo de Tropa de Elite, acho que eles cabem, e não são usados como forma de agressão, mas como complemento da linguagem.
O que mais me fez laurear o filme foi a atuação de Wagner Moura. Tanto que, assim que entrei no msn, minha "frase de pára-choque" se tornou "Quando crescer, eu quero ser o Capitão Nascimento!". Com o perdão da palavra, mas PUTAQUEOPARIU! Há muito tempo que eu não via um personagem tão bem trabalhado, tão absurdamente próximo da realidade e ao mesmo tempo tão ficcional; tão genuíno, talvez essa seja a palavra. Os últimos atores que me fizeram sentir isso (essa dor correndo nas veias, essa violência fazendo parte de mim), foram os "padrinhos" Brando+Pacino+De Niro...
É um filme incrível! E agora sinto vontade de não ter levado um ano pra saber disso...Mas, acho que, talvez, há um ano atrás, eu não estivesse pronta. Talvez eu não pudesse ter "cumprido a missão" e tivesse "pedido pra sair". Enfim...Tropa de Elite ganhou uma fã tardia. E eu ganhei adrenalina suficiente pras próximas semanas...

PS: informações técnicas sobre o filme, gentilmente cedidas por http://www.adorocinema.com.br/filmes/tropa-de-elite/tropa-de-elite.asp

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A dois bruxos, com amor...













A um bruxo, com amor
(Carlos Drummond de Andrade)

"Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa
... a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar."

Uma pequena homenagem a dois grandes mestres: Drummond e Machado.
SALVE MAGISTERS!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A grandeza de um ano...

Hoje (1° de setembro de 2008) faz um ano que pisei pela primeira vez nas calçadas tortas de Curitiba. Há pouco, enquanto observava o pôr-do-sol, (que hoje está azul e rosa, calmo e melancólico como uma Bossa Nova) me lembrei daquele 1° de setembro, no qual a neblina e o frio me impediam de enxergar a próxima quadra. Pode parecer bobo, mas sinto como se o tempo destes dois dias indicassem meu estado de espírito. Naquele sábado eu chegava em Curitiba cheia de medos, de ansiedades, de rascunhos de sonhos. Meu futuro era como aquele céu, nublado, à espera de um novo dia.
Não posso negar que Curitiba City me recebeu de braços abertos. Apesar de seu ar frio, e da lenda das pessoas hostis, encontrei entre os paralelepípedos (além de muitas pedras) uma resposta no meio do caminho. Quando vim pra cá só pensava em mudar. Sabia que havia algo de errado em minha vida, e sabia que tinha que ir embora. Só não sabia o que estava errado, e nem como eu consertaria. E no fim das contas, depois do nevoeiro encontrei as respostas.
Depois de muito choro, de muita saudade, de muito "I want my mamy!", me sinto uma pessoa feliz. Feliz porque encontrei um caminho, porque consegui descobrir e consertar o que estava errado, porque consegui me encontrar comigo mesma.
Talvez eu tivesse encontrado todas as respostas no conforto da minha família (que é o que mais me faz falta, e, que no fundo, é o que mais me dá força); talvez eu não precisasse ter deixado grandes amigos pra trás; talvez eu não precisasse saber o que é solidão. Mas foram esses talvez que me fizeram crescer. Hoje, mais do que há um ano atrás, sei o que é crescer...
Claro que não fiz isso sozinha. Se não fosse a companhia do Thon e da Cacau. As ligações semanais de papai e mamãe e Gigi. As conversas no msn com os pedaços distantes. A insistência da Magali em me fazer sorrir. As cartas carinhosas recebidas, quando o Correio "gentilmente " não estava em greve. As viagens, mesmo que curtas, pra dar um abraço na família e reabastecer as forças. O sorriso da minha orientadora do mestrado. As conversas nerds e interessantíssimas com a galera do mestrado. Tudo isso foi essencial pra que eu crescesse, e para que hoje, um ano depois da chegada, eu possa dizer que não sou a mesma, que cresci e me sinto bem assim crescida.
Não foi fácil; e sei que o próximo ano também não será. Como sei que haverá mais perguntas e mais respostas pra procurar. Mas é assim que nos tornamos fortes. Como diria o genial Coringa (em Batman - O Cavaleiro das Trevas), "O que não nos mata ,nos torna mais estranhos". Naquele dia, há um ano atrás, quando eu via Campo Grande ficar pequena e distante, minha vontade de voltar era maior que a de continuar. Se não fosse a presença de meus pais, que vieram até aqui dar os primeiros passos comigo, numa cidade até então estranha, talvez eu não tivesse conseguido. E se não fosse sua presença constante, através de todos os meios de comunicação possíveis, talvez eu não tivesse caminhado tanto.
Mais uma vez tenho que citar Machado: "Vida é luta!Vida sem luta é um mar morto no meio do organismo universal!", pois desde que cheguei aqui, esse pedaço de genialidade do Bruxo do Cosme Velho me acompanha e me protege de tentar desistir.
Ao som de Beatles termino essa divagação. Que talvez não tenha relevância pra quem lê, mas que reflete a alma de quem escreve.


Ps: Seu Gilberto e Dona Maria (e maninhas), se não fosse por vocês eu não teria e não seria nada. Obrigada! Amo vocês!
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