quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Fogo!!! (Extra)

Extra!!! Extra!!!
Agora a pouco, estava eu sentada em minha cama contemplando minha cafeteira nova, toda moderninha (que é pra minha casa nova, mas isso merece outro post), quando ouço uns gritos. Na minha vizinhança isso é normal, afinal de contas, logo ao lado tem um prédio cheio de adolescentes e um boteco logo embaixo. Ao ir fumar um cigarro na janela, percebo que os gritos não eram os de sempre, e, ao olhar pra cima, vejo uma fumaça negra infinita. E logo em seguida um clarão. E logo em seguida a sirene do caminhão de bombeiros.
É meus caros, estava acontecendo um incêndio no prédio ao lado do ao lado do meu. Meu primeiro incêndio. Descemos (eu+Cacau+mais os vizinhos), um pouco pela curiosidade inerente a todo brasileiro que se preze, um pouco pelo medo. Ao chegar em frente ao prédio, me deparei com algo que, por só ter visto em filmes, até hoje não me era tão real: o telhado do prédio em chamas, e chamas tão altas e tão fortes que era como se a natureza estivesse mostrando a língua e urrando "I win!".
Era terrível ver o desespero no rosto das pessoas! E ao mesmo tempo eu comecei a pensar que isso pode acontecer a qualquer um; a mim, a você, ao vizinho do lado... Minha angústia aumentava na proporção em que eu via dezenas de bombeiros parados porque não havia água no caminhão. PUTAQUEOPARIU! Pra que diabos serve um caminhão de bombeiros sem a porra da água?! E enquanto eles va-ga-ro-sa-men-te decidiam o que fazer, o fogo, em contrapartida, numa velocidade acelerada, devorava a estrutura do prédio, e logo, do teto passou para o andar de baixo.
Eu mal conseguia piscar, de tão vidrada que fiquei ao presenciar o trabalho humano sendo devorado pelas labaredas. E, ao mesmo tempo que a dança das salamandras me pareceu linda, fiquei pensando na dona da lojinha que fica no térreo do prédio e na senhora que mora no andar de cima. Essas pessoas colocaram as cabeças no travesseiro essa noite, agradecidas por mais um dia que haviam vivido; só não sabiam elas, que o dia ainda não havia acabado...
Pode parecer materialista demais, mas fiquei imaginando que, tudo aquilo que elas construiíam, todas as suas lembranças, toda a matéria que lhes expressava a alma, foi engolida pelo fogo e se tornou cinza. E ao ver a imagem da mulher que mora(va) no andar de cima, andando de um lado ao outro da rua, vestida apenas com seu pijama e suas lágrimas, não pude deixar de pensar no que a angustiava mais... Se era o fato de sua vida quase ter sido levada pelas chamas, ou por todos os seus pertences não mais existirem.
E então meu lado cínico resolveu dar as caras. Se ao dormir você resolve não vestir roupa nenhuma (o que eu acho difícil no frio de Curitiba coldcity), o que diabos você faz ao perceber que sua casa está, literalmente, pegando fogo? Então fiquei imaginando a reação que eu teria... O que eu "salvaria" do fogo? Será que eu conseguiria sair, sabendo que metade de mim ficaria pra trás? É claro que é radical pensar assim, mas hoje cheguei à conclusão de que já não sei mais ser sem ter... E acredito que a maioria esmagadora de nós é assim. O que seria de mim sem meus livros, minhas roupas, meu computador, meus sapatos, minha família, meus amigos?! Seria apenas um pedaço dessa colcha de retalhos que construo a cada acordar...
Afinal de contas, somos aquilo que temos e temos aquilo que somos...
E me parece que o poema "Metade", de Osvaldo Montenegro, cai como uma luva para terminar essas minhas palavras carregadas de angústia, alívio, tristeza, e alegria... Porque, no final de contas, somos todos repletos de metades...

Metade (Osvaldo Montenegro)
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

[Playlist: o barulho dos caminhões de bombeiro]

2 comentários:

  1. Puxa, difícil isso. E concordo com você, é difícil ser sem ter.

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  2. Ih patty
    pergunta difícil... o q eu salvaria... é tal coisa... "não tenho td q amo, mas amo td q tenho"... por mim levaria td comigo.. kd talher... kd toalha... mas penso nos meus livros... nos meus detalhes... difícil, não?
    Mudaste? Moras aonde ahora?
    besos

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