terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões" (Caetano Veloso)

Cá estou eu para falar sobre a Senhora Reforma Ortográfica. Não poderia deixar de escrever sobre ela por, ao menos, dois motivos: 1. Sou apaixonada por palavras; 2. Sou formada em Letras. Devo admitir que vai ser preciso muita, mas muita água pra me fazer engolir essa reforma. Desde os primeiros rumores venho tentando me adaptar à transformação de nossas palavras. E depois de saber quais seriam as mutilações, confesso que ficou bem mais difícil...
Pra quê diabos despedir o trema?! Ele sempre foi tão útil, tão engraçado, tão expressivo! Qual será a graça de meu frequente a partir de agora?! E o quê dizer do assassinato do acento agudo nas paroxítonas terminadas em ditongo?! Minha ideia nunca mais será tão genial!
Eu sei, e compreendo, que de tempos em tempos a língua precisa de reformas. Como uma casa, que sempre necessita de pequenos acertos, uma pintura aqui, uma cimento ali; tudo pra deixá-la mais atual, mais confortável, e mais bonita. E embora ache bem mais glamouroso escrever phamácia, entendo que farmácia é mais prático, mais vivo. Sim, nossa língua é viva, mutante; só que ela sempre fez sentido, sempre representou um código organizador de nossas mutações comunicativas. Agora, o Senhores Imortais que me perdõem, mas essa reforma não está fazendo sentido algum!
Como amante, estudiosa e professora de língua portuguesa, sempre fiz o possível [e devo acrescentar, na maioria das vezes o impossível] para dar sentido, dar vida a cada regra, a cada exceção. Nunca quis que meus alunos engolissem nosso tortuoso conjunto gramático a seco. Afinal de contas, o sentido não existe para ser decorado, e sim compreendido!
Sempre me virei pra mostrar o porquê de uma oração ser carinhosamente chamada de oração subordinada substantiva objetiva indireta. Ora bolas! Acha que é fácil ensinar pra um adolescente de 15 anos o quê diabos e pra quê demônios serve isso?! Não, definitivamente não é! Mas é isso que venho tentando há 10 anos. O que me deixa possessa é o fato dos Senhores Acadêmicos não pensarem nisso antes de decidirem brincar de boggle com a língua! Como é que eles vão me explicar o fim do pobre acento circunflexo de leem [decapitado sem dó nem piedade]?!
A triste verdade é que não irão explicar nada... Como sempre, entrarão em contradição, e tudo acabará em chá. E nós, meros mortais, seremos obrigados a ver os pobres acentos, sinais e hífens serem devorados, um a um, pelos grandes imortais durante seu chá das 5...
Devo admiração e respeito a muitos membros da ABL. No entanto, tenho direito de questionar uma atitude que foi tomada sem o meu consentimento [e nem o seu]. Não me incomoda tanto a reforma em si, mas a falta de explicação. Se a língua é nossa, também deveríamos ter sido consultados antes de cortes tão profundos, que demorarão pra fechar e ainda deixarão cicatrizes. Nossa língua, assim como nossa democracia, foi tomada pela política moderna, uma devoradora de opiniões coletivas. E assim acabamos como órfãos, ora de leis, ora de tremas. E se continuarmos, antropofagicamente, engolindo tudo o que nos oferecem, terminaremos como uma tribo sem identidade e sem palavras.

12 comentários:

  1. Também não gostei dessas mudanças. Desconfiguraram boa parte de nossa cultura com ela. Para que equiparar a língua de todos que falam português, sendo que eles, por viver em países diferentes, conseqüentemente (não consigo deixar o trema de lado...) têm culturas diferentes?
    Eu escrevia tudo direitinho, mas acho que agora vou ter que me reacostumar. Ainda tem muita coisa que não sei como ficou. E tenho certeza que a primeira aula de Português do cursinho pré-vestibular será sobre isso!
    :) --> melhor rir do que chorar...

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  2. Eu concordo totalmente com você :x
    Se a lingua é nossa, eles deveriam ter nos consultado antes de fazer essa 'maldade' :\
    Aah, e sobre 'oração subordinada substantiva objetiva indireta', eu nunca entendi (: HEHE

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  3. Super gostei dos seus textos, tô aqui babando, parabéns!
    -
    Quanto a reforma ortográfica, eu prefiro acreditar que tudo muda, as vezes só nossa cabeça que não, mas é necessário nos adaptarmos, certo?!
    -
    Um beijo ;*

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  4. Clap, clap, clap, clap, clap [palmas]! Pati pra Imortal da ABL!!! Carol*.*

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  5. Pelo menos teremos 4 anos para tentarmos nos acosturmamos! (ou não!) xD

    P.S: Lembrei de vc me falando que somos sempre nossa melhor companhia ao escrever aquele post! ;)

    Bjo Pati!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Eu não me conformo com 'o novo português' ¬¬

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  8. Eu acho que essa reforma foi criada para favorecer a comunicação entre nós e outros países que falam nossa língua, mesmo porque foi uma reforma unificada, embora esses cortes nada tenham feito diferença boas em nossas vidas (pelo menos na minha) mesmo porque não lido com estrangeiros diariamente/diretamente/constatemente. Tanta coisa pra eles mudarem na língua, mudaram coisas um tanto que banais que vão me embananar mais na hora da temida redação do vestibular.
    -
    Ameeeeeeeeei seu blog, seus textos e tudo. Parabéns.
    E não é tão dificil assim colocar em nossas cabeças de 15 anos essas coisas complicadas da língua! :)
    Beijos.

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  9. Cara, eu bem que tentei entender, mas tá difícil... Agora mesmo, ao escrever um texto eu parei um instante pra lembrar se é colocado acento em certas palavras... Um saco. E pra quem ama as palavras é um porre! Vai ser tão difícil se acostumar... Pra quem devorou livros a vida inteira vai ser quase impossível.
    E vc, como sempre, escrevendo maravilhosamente bem!

    Beijo enorme, donaLua
    =*

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  10. "...Gosto de ser e de estar
    E quero me dedicar
    A criar confusões de prosódias
    E uma profusão de paródias
    Que encurtem dores
    E furtem cores como camaleões
    Gosto do Pessoa na pessoa
    Da rosa no Rosa..."

    A língua tá boa assim, pra que mudar?
    Antes devíamos nos preocupar em aprendê-la ao invés de reformá-la.

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  11. olá,

    também sou professora de Português e, antes de me interar sobre o assunto, pensava assim como vc, Patrícia. Achava até que era desnecessário o acordo e que era muito barulho para pouca mudança.

    Mas lendo mais acerca do assunto, percebi a grande importância do tão discutido acordo ortográfico.

    Você já pensou sobre o fato de que com este acordo deixamos de estar abaixo de Portugal quando se trata de Língua Oficial, pois o português de Portugal é considerado ofical,não o nosso, ou seja, o que quero dizer que a nossa ortografia não é reconhecida nos outros países lusófonos?

    Em outras palavras, a duplicidade ortográfica dificulta a difusão internacional do português, ou seja, as gramáticas, os dicionários e outros materiais linguísticos, produzidos numa ortografia não servem para os países que adotam outra e assim sucessivamente.

    "O que se espera na construção do espaço enunciativo lusófono é a comunidade dos iguais, que têm a mesma origem. Esse é o significado da afirmação de Caetano Veloso.

    "Minha pátria é minha língua
    E eu não tenho pátria: tenho mátria
    E quero frátria."

    Não se pode esquecer que pátria e pai são formados da mesma raiz. A eles estava ligada a potestas (Benveniste, 1969, p. 217-218). A lusofonia não será pátria, porque não será um espaço de poder ou de autoridade. Será mátria e será fátria, porque deve ser o espaço dos iguais, que têm a mesma origem. Se assim não for, ela não terá nenhum significado simbólico real, será um espaço do discurso vazio, de um jargão político sem sentido." (Fiorin, O ACORDO ORTOGRÁFICO: UMA QUESTÃO DE POLÍTICA LINGÜÍSTICA)


    Há outro motivos importantes. O que quero dizer é que, para a política linguística, o acordo é essencial.

    Só para esclarecer, sou super tradicionalista, amo a norma culta e não gosto de linguística, mas dessa vez tive que reconhecer que às vezes deixo o meu preconceito falar mais alto.

    Pense nisso.

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