sábado, 14 de março de 2009

Baú do Tempo

Introdução desnecessária

Essas são algumas escrivinhações sem propósito, mas que se fazem necessárias por minha alma sedenta de caminhos. Talvez aqui eu encontre algum ponto de onde eu não tenha, ainda, olhado minha alma.

Num dia como esse, onde o ar parece pouco demais para respirar a plenitude dos olhos, me sinto só. Sarcástica e ironicamente só...
Não quero que esse comentário renda olhares de compaixão de sua parte, leitor, pois essa solidão que me toma conta é produto meu, preciosamente meu.
Nos últimos tempos, que não julgo necessário datar, a solidão, que antes era refúgio de minha agitada sociedade, passou a ser cotidiana. E como todo cotidianismo, passou a incomodar minhas veias. Cada hora que passa sinto que sorrateiramente o tédio vai se apoderando de meus poucos suspiros.Ah, o tédio! Só ele é capaz de produzir devassidões e intolerâncias, visto que não há nada mais a fazer diante do tédio que praticar maldades insanas.
Olho para a janela (suja por todos os pensamentos vãos que tive) e tento entender o motivo de ainda não ter levantado. Vão-se lá umas três horas de luta com a preguiça, até conseguir atinar-me a levantar da cama.
Todos os pensamentos que me ocorrem nesse tempo de ócio me são preciosos, deles eu recorto minhas ilusões, que quase nunca chegam a tornarem-se fatos, mas sempre ficam arquivadas no subsolo de meus desejos.
O dia se mostra tão receptivo a pessoas cujos olhos são alegres, que acabo por ficar com náuseas. Arrasto meus pés até o destino de sempre. Sempre as mesmas pessoas, o mesmo banco... embora tenha mudado a cor recentemente, o verde das paredes acaba por me deixar inquieta, a busca de esperanças que não estão ao meu alcance de meu querer... O mesmo café, o mesmo olhar vazio, os mesmos "tudo bem?" sem propósito.
Há que se perguntar o porquê de minha religiosa ida a um lugar que já não me apraz...E em busca de alguma explicação me perco nos caminhos de minha memória...
No início eu era apenas uma incógnita volante, que não pertencia a uma matriz, mas transitava por todas. As palavras jorravam de minhas artérias, e eu as colocava para fora para que não me afogassem... Eram tantas e de irracionalidade desmedida, que por muito tempo me vi num mundo surreal. Tudo me parecia normal, até mesmo minha loucura anunciada.
Já deves estar bocejando, crendo que esta é apenas mais um narrativa fantástica, da qual muitas já entreteram tua ignorância. Mas não, caro estranho. Por mais infeliz que seja a realidade, esta não é uma narrativa poeana e maravilhosa.
Com o ir dos tempos, também se foram minhas palavras, meus companheiros de então e minha insanidade. Tornei-me então uma incógnita fixa, sempre a espreitar e recusar qualquer manifestação de proximidade. Tudo continuou o mesmo... Ao contrário de quando era apenas uma moldura na parede descascada, passei a ser uma tela colorida. Sempre notada como um animal de circo... Incomodava-me a posição de ser um mito, um objeto de estudo e admiração (ou repudia).
Formou-se aqui, uma personagem que acabou por fugir do meu alcance. Todos os meus medos, minhas angústias, minhas maldades mais obscuras, moldaram esta persona. Tão diferente de tudo e todos. Tão segura do alto de suas inseguranças. Tão paradoxal que chegava a encantar. Elogios lhe eram cotidianos, e mais uma vez a representação do todo dia lhe incomodava deveras.
Processou todos os seus conhecimentos em retóricas que lhe permitissem afugentar as pessoas. Destilava sabedoria com a mesma normalidade de quem pede pão de manhã. Sorria com desdém a todos que não preenchessem seus caprichos infundados. Trocou a bebida, mas o conteúdo era o mesmo: insatisfação...
Pois bem...Esse resumo mostra o quanto minhas faces se fragmentaram por esse período. Hoje me encontro no mesmo lugar, sem devaneios a busca de explicações. Apenas procurando paixões em cada olhar incompreensível, inatingível.
Em meu subsolo (recentemente descoberto) continuo escondendo minhas verdades. Talvez tão minuciosamente guardadas, que me é árduo escavá-las e levá-las ao topo.
Apesar de não lhe indagar, ou colocá-lo na parede a busca de opiniões, gostaria de lhe pedir que olhasse suas paredes, caro estranho. Olhe-as e veja se não há nenhuma passagem secreta para o seu subsolo. Caso o encontres, verás que maldades e utopias nos são semelhantes, e já não acharás enfadonho passar os olhos por estas linhas que escrevi em ato de desespero. Desespero em busca de uma identidade, que talvez tenha deixado seus estilhaços em tuas entranhas.
Se "eu é, realmente, um outro", somos todos o mesmo. O mesmo desejo de ser o infinito, que não busca tempos ou respostas, mas que apenas encerra-se em seu baú, contemplando o fim.
Patrícia Pirota 2005

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...