quinta-feira, 30 de abril de 2009

Antes de qualquer sol... [Before Sunrise/Before Sunset]


Tenho algo pra confessar a vocês, pessoas queridas que acompanham meu blog. Eu estou apaixonada! Sabe quando você fica com os olhos brilhando, com a sensação de que até o instante presente sua vida não havia sido completa, e que de agora em diante tudo faz muito mais sentido? Pois é assim que me sinto neste momento, depois de ter assistido, numa sentada só, Antes do pôr-do-sol e Antes do amanhecer. Me sinto absolutamente apaixonada pelos filmes. [Calma minha gente! Ainda não transformei o príncipe em Shrek... Tudo a seu tempo, nem tão tão distante...].
Esse é outro filme clássico com o qual eu ficava flertando cada vez que ia à locadora. Mas, começo a acreditar que até para os filmes há um momento certo nessa vida. Pois bem, ontem resolvi que ia assistir os dois "Before" de uma vez. E, logo depois de tê-los assistido, eu só conseguia pensar "Patrícia, sua estrupícia! [Geez!Meu nome ainda rima com estrupícia! Elaiá!] Por que diabos você não assistiu isso antes?!".
Imagino que alguns de vocês já devam ter assistido, visto que o Before Sunrise foi lançado em 1995, e o Before Sunset em 2004. Mas se, como eu, ainda não tiveram essa experiência indescritível, corram lá e assistam! Os filmes são lindos! O roteiro é absurdamente bem escrito. E os atores são tão naturais que passam a impressão de estarmos presenciando aquelas cenas de verdade, ali, do ladinho deles, e não através da tela.
Eu confesso que nunca havia assistido porque tenho uma certa rejeição a filmes românticos. Como já disse por aqui, não sou a mais princesinhadadisney que gosta de finais felizes. Além do que, com o passar dos anos, me tornei ainda mais cínica em relação ao "e foram felizes para sempre". Sendo assim, filmes de romancecorderosa passam longe da minha tela.
Maaaas, foi exatamente por isso que ambos os filmes me ganharam. Eles não falam sobre um amor idealizado, onde é fato que o casalzinho vai terminar junto no final. Não é cheio de clichês. Em ambos os Before há o amor real. Aquele de todo dia, com direito a desilusões e peculiaridades do cotidiano. Aquele amor que acorda com bafo e cara amassada. Que não está sempre sorridente. Que tem suas divergências. E, talvez por isso, seja mais palpável. Mais fácil de acreditar que exista.
Os diálogos [feitos em conjunto entre o diretor e os atores] são impagáveis! Em muitos momentos parecia que as palavras de Celine estavam saindo de minha boca, e não da dela. Sabe aquela sensação de "Nossa! Era exatamente isso que eu iria dizer!"? Pois essa sensação me acompanhou ao longo dos dois filmes. Assim como as risadas, os olhos brilhando, a expectativa, o reconhecimento, e a boa e velha catarse.
É impressionante como o casal de atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, formam um casal de carne e osso, daqueles que a gente vê saracoteando pelas ruas. E como são lindos! Ô inferno! Ethan Hawke novinho é uma delícia! Dá vontade de levar pra casa! [Sorry guys! Mas eu sou mulher, e não poderia deixar de fazer um comentário desse!] E a Julie Delpy é tão espontânea, tem o sorriso tão aberto, que parece aquelas nossas amigas de bem com a vida, que não se dão conta do quanto são bonitas, sabe [E vai ser bonita assim nosquintosdosinfernos!].
Fazia tempo que eu não assistia um filme assim, tão gostoso. Aliás, um não, dois! Daqueles que não cansam. Daqueles em que você vai andando junto com os personagens pelas ruas. Daqueles em que o espectador é convidado a fazer parte da história...
Taí a dica pra mais um feriadão [Êta país que gosta de um feriado!]. Garanto que depois dessas películas, o amanhecer e o entardecer já não serão mais os mesmos. Hoje já olhei pro nascer do sol de um jeito diferente. Com a esperança de um dia também sentir esse amor real, por entre as ruas e os parques. Com o desejo de não ter um fim amargo, embora tenha um coração de gengibre. Com a sensação de que, sob qualquer sol, sempre é possível recomeçar...E com a vontade de fazer com que meus dias sejam mais significativos, e não "apenas mais um dia". Afinal de contas, existem momentos que merecem ser vividos com toda a intensidade que somos capazes de viver. Momentos que podem não voltar mais. E pessoas que merecem ser apreciadas calmamente, pois, como diria a Celine, "you can never replace anyone, 'cause everyone is made of beautiful and specific details"... E, uma vez que essa pessoa pegar o trem no sentido contrário do nosso, só nos restarão as lembranças do que se passou. E antes nos sentirmos preenchidos pela saudade, do que vazios pela sensação de não termos vivido o suficiente.

Companhia Musical: The Cranberries

Ps: Minha gente! Estou numa faceirice só! A Lidiane, lá do Bicha Fêmea [um blog super bacana, que merece visitinhas várias] me convidou [e me deu a honra] pra participar do "quadro" Bicha Fêmea Convidada. Agora só falta a dona aqui pensar em um post à altura. Logo ele sai. 'Brigadíssima Lidiane!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Mas é claro que o sol vai voltar...

Minha gente! Primeiro quero agradecer o carinho e os desejos de melhora. Não sei se foram as energias positivas enviadas por vocês, as incontáveis horas deitada na rede, os litros de chá de hortelã, a overdose de remédios, o colo virtual da dona mãe ou a ligação inesperada de um bonito de quem eu gosto por demais, mas hoje acordei uma beleza! A garganta já não dói tanto mais, uma das narinas já desentupiu, o que quer dizer que já não preciso mais respirar pela boca, o corpo não parece mais ter levado uma surra, só umas palmadas. E até faz sol em Curitiba! A temperatura ainda está baixa, mas o sol está ali, bonitão.
Por via das dúvidas, vou dar uma palavrinha com um médico, apesar de eu não gostar muito de médicos. Você chega lá saudável e sempre sai com uma doença de brinde, isso é fato. Pra falar a verdade, não lembro bem da última vez que estive em um consultório por motivo de doença. Meu organismo é bem resistente, talvez por ser curtido em álcool. Ou, o que faria mais sentido, porque tenho uma alimentação bacana, com frutas, verduras, cereais integrais, muita água, proteína na medida certa, pouca carne vermelha e quase nada de doces. Pode parecer balela, mas ter uma alimentação saudável faz uma diferença do cão. Não fosse ela, era capaz de eu ficar doente , e imprestável, mais vezes ao ano.
Ainda estou trabalhando minha mente pra deixar de ser sedentária, embora eu defenda com todas as forças que essa vida de amélia corresponde ao esforço feito em academia. Imagina limpar a casa, lavar louça, lavar a roupa na mão, toda semana. E eu não sou daquelas que limpa só onde "o padre passa" não! Tenho uma certa doença por limpeza e organização. Então a faxina aqui é das bravas, com direito a sal grosso e tudo. Mas sei que ia ser bom dar uma caminhadinha maior do que ir até a vendinha comprar cigarro. E essa semana começo a pensar em ir caminhar no Bosque de Portugal aqui perto da casinha. Pra quem é de Curitiba e não conhece, vale uma visita. O Bosque é bem bonito, e a cada 10 [ou serão 5?!] metros tem umas plaquinhas em azulejos portugueses [que eu amo!] com frases e poemas de escritores de língua portuguesa. Além de caminhar, aproveita-se pra colocar a leitura em dia, olha que beleza!
Bom, estou viva. E é possível que seja graças ao carinho de muitos de vocês e a minha teimosia, já que vaso ruim não quebra. Ainda continuo louca pelo colo da mãe e do pai, porque, apesar de ser quase uma balzaquiana, é só no colo dos meus velhos que eu me sinto uma criança, e isso faz um bem danado pra alma.
E apesar das nuvens cinzas, o sol voltou. E ele sempre volta, é só a gente não desistir de olhar pela janela. Apesar de todo o trabalho, das preocupações, das contas a pagar, da tristeza, da solidão, da saudade, apesar de todo o mau humor, há sempre uma janela. E é sempre bom dar uma olhadinha por ela, e nos alegrarmos pelo fato de o sol brilhar sobre nossas cabeças. Afinal de contas, de que adianta ter olhos se não somos capazes de ver a beleza da vida, né não?

Companhia Musical: Nascer e Florescer - Velha Guarda da Portela ["Sei que reclamas em vão, porque não tens a compreensão que o mundo é bom para quem sabe viver e se conforma com o que deus lhe dá. A nossa vida é nascer e florescer, para mais tarde morrer"]

terça-feira, 28 de abril de 2009

Eu quero a minha mãe!!!

Morar sozinho é muito bom. Tem milhões de vantagens como não precisar dar bom dia pra ninguém [especialmente pra urtigona aqui, que só vira uma pessoa comunicável depois da terceira xícara de café], poder andar de calcinha pela casa [embora em Curitiba isso seja dificultado pelo frio de congelar os ossos], poder fazer seus próprios horários sem incomodar ninguém, não ter que discutir com ninguém quem é que fez aquela ligação que está na lista e que ninguém assume, poder deixar a casa exatamente do jeito que você quer, ouvir a música que quiser no volume que achar melhor. Enfim, são essas e outras tantas as vantagens de se ter uma casa só pra si e pra suas manias. Mas, como tudo nessa vida tem uma parte ruim, isso não poderia ficar de fora.
Eu estou desenvolvendo uma gripe há mais ou menos uma semana. No início era só uma tossezinha aqui, uma dor de cabeça ali, nada que me tirasse as habilidades humanas. Mas ontem a bichinha resolveu que ia me derrubar, e derrubou! Com o corpo tão dolorido que parecia que eu tinha levado uma surra, com ambas as narinas entupidas e tentando respirar pela boca, com a cabeça que parecia ter triplicado de peso, eu tentava sobreviver. Deitada na cama, e sem ter forças pra levantar pra pegar água, morrendo de sede e fome, minha única vontade era de que o mundo desabasse em minha cabeça. Ou então de gritar MÃE!!!
Ficar doente nunca é bom. A gente fica imprestável, e eu odeio ficar imprestável. Mas ficar doente quando se mora sozinho é infinitamente pior. Porque, embora sua única vontade seja a de ficar na cama até o céu decidir desabar sobre sua cabeça, não há ninguém pra te fazer uma sopa, nem pra buscar água quando você está sedenta de tentar respirar pela boca, ou então ir até a farmácia pra comprar remédios. Também não há ninguém pra ir pagar suas contas, que vencem hoje, nem pra lavar sua roupa que se acumula no cesto, nem pra fazer carinho em sua cabeça e dizer que logo vai passar.
E apesar de eu adorar morar sozinha, essa semana eu trocaria tudo pelo colo da minha mãe. Porque sim, eu sou uma mulher independete e blabláblá, mas nada substitui o colo da mãe e do pai. Pra quem eu vou fazer charme? Em qual ombro eu vou me enconstar quando não tiver forças pra parar em pé, como agora? Tenho que ser meu próprio ombro e meu próprio colo. Afinal de contas, fiz minha escolha e agora eu que me vire com ela...
Então, você que está lendo esse texto, e que é louco pra sair correndo da casa dos seus pais pra ter sua tão sonhada liberdade, fique ciente de que liberdade nada mais é do que a responsabilidade de cuidar de si e de tudo o que o cerca, sem a ajuda de ninguém. Não que eu esteja afirmando que se deve morar na casa dos pais pra sempre. Isso seria abdicar do direito de crescer. Mas é importante saber que nem tudo são flores. É importante dar valor enquanto ainda se tem a mãe por perto pra fazer sopa e cafuné. É importante dar valor pras conversas e risadas do pai. Porque quando eles estiverem longe, a saudade vai ser tão grande que vai ser capaz de machucar. E é importante estar preparado pra isso.
E, como não tem outro jeito, e eu não posso me dar o luxo de ficar na cama o dia todo, vou agora na farmácia. Depois pagar minhas contas. Depois lavar a roupa. E por fim acender uma vela pra cada santo pra que essa gripe encarne em outra pessoa. Enquanto isso, se você morar com papai e mamãe, corre lá e dá um abraço apertado neles e diga o quanto os ama, porque depois isso vai fazer uma falta do cão!

Companhia musical: Coldplay

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Presentinhos o/

Ser blogueira é tão bom! Além de eu ter um espaço pra poder falar sobre as coisas dessa vida, recebo visitas de pessoas queridas, e ainda ganho presentinhos! Essa semana recebi dois selinhos de duas blogueiras muito queridas. Muito obrigada meninas!!! Fico toda faceira quando ganho presentes, mesmo virtuais. Obrigada pelo carinho e por terem se lembrado de mim.
E vamos a eles!


Essa aqui do lado ganhei da Debbys, do blog Debbys Mello. O blog é bem bacana, com textos de uma menina de 20 anos sobre a vida. É sempre bom lembrar o quanto era bom ter essa idade. Vale a visita!
Regras deste selo: Esse é o Troféu do Amigo! Esses blogs são extremamente charmosos. Esses blogueiros têm o objetivo de se achar e serem amigos. Eles não estão interessados em se auto promover. Nossa esperança é que quando os laços desse troféu são cortados ainda mais amizades sejam propagadas. Entregue esse troféu para oito blogueiros(as) que devem escolher oito outros blogueiros(as) e incluir esse texto junto com seu troféu!!!
E o troféu vai para: Isa, do Arrumadíssimo; Karol, do A dona do mundo; Tailany, do Despindo Histórias; Hazel, do Casa Claridade; Nathalia, do Tudo o que eu queria te dizer; Renan, do A casa do pecado; Lidiane, do Bicha Fêmea; Gaby, do Cheiro de Canela.

Esse aqui ganhei da Karol, do A dona do mundo. Um blog cheio de alegria e carinho. Vale super a pena várias visitinhas pra dar uma espiada nas histórias dessa mãe que tem filhos lindos e uma alegria de viver impressionante!
REGRAS:
1 - O premiado deverá expor o selo no seu blog e atribuí-lo a 7 outros blogs que considere merecedores.
2 - O premiado deverá responder à seguinte pergunta: O que significa para si ser um Homo sapiens?

'Bora pros presenteados: Isa, do Arrumadíssimo; Tailany, do Despindo Histórias; Nathalia, do Tudo o que eu queria te dizer; Renan, do A casa do pecado; Lidiane, do Bicha Fêmea; Debbys, do Debbys Mello; Gaby, do Cheiro de Canela.

Agora a tarefinha: Ser homo sapiens é estar em constante evolução. É procurar o conhecimento a cada abrir e fechar de olhos. É tentar fazer dessa vida de cão a melhor possível. É poder deitar a cabeça no travesseiro e ter a sensação de dever cumprido. É ter o direito de errar, e a consciência de que é preciso aprender com os erros. É dar graças por estar vivo e não se conformar. É amar a vida e fazer dela nosso melhor trabalho...
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Pronto! Deveres cumpridos. Muito obrigada pelo carinho, minhas queridas! Obrigada pela lembrança e pela presença aqui no meu cafofo.
Espero que os ganhadores do selinho gostem. Os escolhi por serem blogs de pessoas bacanas, com as quais aprendo a cada post. Claro que todos os que passam seus olhos cansados por aqui merecem ser presenteados, mas tive que fazer escolhas. E fazer escolhas muitas vezes envolve deixar coisas boas de lado. Mas assim é a vida, né não...

sábado, 25 de abril de 2009

Peixe grande [Tim Burton] e libertação...

Acabei de assistir Peixe Grande, um filme do brilhante Tim Burton. E, em meio as lágrimas que ainda não secaram em meus olhos [afinal de contas, meninas más também choram, oras], devo confessar que esse é o filme mais bonito e inspirador que o Burton ousou fazer. O roteiro, a caracterização, os atores, a trilha sonora, todos nos convidam a deixar um pouco de nosso diaadia rotineiro e cinza de lado e olharmos para a tela com os olhos coloridos da ilusão.
Não há como falar sobre a história sem lhe tirar os sorrisos da descoberta. E quantas descobertas a cada fotograma. Quantos sorrisos a cada aventura. Quanto amor a cada uma das dafodills amarelas no jardim. Quanta vontade de correr pra vida, e abrir os braços pra novas histórias.
Durante o filme deixei meu lado racional offline, e fui apenas sentindo... Cada cor, cada palavra, cada folha caída, cada símbolo escondido, cada sentimento guardado. E no final, como se todos eles se reencontrassem numa festiva reunião, choveu sobre mim a tempestade do filme todo. E fui vertendo lágrimas mornas, não porque o filme seja triste, pelo contrário, ele celebra a alegria da vida. Talvez umas lágrimas fossem algumas de minhas histórias que acabei deixando empoeiradas no porão do passado. Talvez algumas lágrimas fossem alguns retalhos meus que esqueci guardados na velha caixa de costura da vida...
Há muito eu sabia da existência do filme. E toda vez que ia à locadora flertava com ele. Sabe quando você olha pra um filme, ele te dá aquela piscadinha, mas você ainda não tem certeza se o quer levar pra passear? Era isso que sempre acontecia. Mas parece que hoje foi meu dia de levar o Peixe Grande pra um passeio dentro de mim, dentro de minhas águas. E se eu fosse você, também o levaria. Mas não tente prendê-lo a expectativas demais, afinal de contas "the biggest fish on the river only gets that way for never been caught"...
E talvez assim também sejam nossas melhores histórias, nossos melhores momentos, nossos melhores sorrisos, nossas mais queridas palavras, nossas mais significativas lágrimas. Eles o são assim por não terem sido presos, por os termos deixados libertos em nossa vida, dando a eles a chave para voltarem quando quisessem, e ficarem, se assim lhes parecesse melhor.
Muitas vezes é necessário apenas estar aberto pra novas possibilidades. Sem tantos julgamentos. Sem tanta racionalidade. Sem tantas paredes que nos escondam. Sem tantos sons que abafem nossa própria voz. Sem medo de contarmos a nós mesmos nossa própria história sem parecermos bobos. Sem receio de reconhecermos velhos medos e antigas esperanças no espelho.
Afinal de contas, somos ou não somos um belo de um peixe grande?!

Companhia musical: O mundo é assim - Velha Guarda da Portela ["O mundo passa por mim todos os dias, enquanto eu passo pelo mundo uma vez..."]

[Bonito, muito, muito obrigada pela preciosa dica. Essa valeu um ano de abraços!]

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O lado humano da internet [Obrigadíssima Isa!]

Há muito que a internet deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica pra se tornar um espaço de interação social. Dentro do mundo infinito da web, as pessoas dão sua opinião, lêem as opiniões alheias, se informam , se divertem, se comunicam. Ainda mais depois da criação de espaços feitos exatamente pra isso, como os blogs, as redes sociais e o messenger. Cada dia mais e mais pessoas que, não fossem esses cabinhos mágicos jamais teriam sequer sabido uma da existência da outra, se encontram e criam laços. Laços que podem, inclusive, se tornar pra vida toda.
Eu já fiz inúmeros amigos na internet. Alguns dos quais se tornaram pessoas importante por demais em minha vida. São incontáveis as horas em que sorri, me diverti, desabafei, chorei, e discuti no messenger. E tantas outras que passei trocando opiniões em fóruns do orkut. E mais uma porrada transformando minha alma em palavras no blogger.
Algumas pessoas podem estar pensando "What a nerd! Get a life!". Mas muito da minha vida é construída aqui, em frente dessa tela. Eu passo, no mínimo, 10 horas diárias sentada em frente de computador. Seja pra estudar/trabalhar, me informar, pesquisar e interagir socialmente. É através desse blog que me expresso. Através do msn que mato a saudade da mãe e converso com pessoas queridas. Através do orkut que descubro coisas bacanas.
Construí muitos relacionamentos na internet que hoje me são indispensáveis. E chega a me dar uma saudade imensa quando passo mais de alguns dias sem falar com eles. Há pessoas que são meus "vizinhos" de blog e messenger que me conhecem muito mais do que meus vizinhos do prédio. E, como a cada dia que passa, o mundo meio que nos obriga a ficarmos presos em nossas próprias casas [afinal de contas, é só dar uma boa olhada lá fora que dá medo de sair ] [e agora com essa patuscada de não poder mais fumar em bares! Ou então a Lei Seca], é normal que passemos mais tempo aqui, onde eu e vocês estamos agora.
Meu blog é uma extensão de mim. É aqui que posso fazer com que minhas palavras criem eco. Aqui eu tenho a oportunidade de mostrar um pouco de mim, um pouco daquilo que me cerca. E uma das melhores sensações é ver que minhas palavras são refletidas e chegam até mais pessoas. Nunca tive a pretensão de fazer uma página com informações super necessárias, que fosse visitada por milhares de pessoas. Desde o início, queria apenas dar às minhas palavras um lugar pra passear, encontrar outras palavras, serem completadas por outras almas. Como diria Gullar, nós escrevemos para nos livramos de nossas próprias emoções, para nos libertarmos. E eu me sinto liberta cada vez que vejo que alguém compartilha comigo de minhas emoções. Cada vez que minhas cotidianidades ecoam nos olhos de outras pessoas. Escrevo para me libertar...

E por falar em amizade e ecos, preciso falar sobre um gesto que me deixou emocionada e completamente grata. A Isabela Kastrup, do Arrumadíssimo, fez um post sobre mim e minhas palavras. [Eu já falei do Arrumadíssimo por aqui, e volto a dizer que é lindo! Merece visitas diárias e atenciosas]. Um post com tanto carinho, tanta consideração, que eu, geralmente um furacão de palavras, me vi atônita. Isa, obrigada minha querida! Muito, muito mesmo. Pela presença diária aqui no meu espaço, pela nova amizade já tão significativa e pelo carinho.

Aproveito pra agradecer às pessoas que me dão um pouco do seu tão corrido e atribulado tempo. Ao lerem meus textos e comentarem, você fazem cada palavra minha viver. Porque é só nos olhos do leitor que o texto cria vida. Pela preseça e pelo carinho, por darem vida às minhas palavras, meu muito, muito obrigada!

Companhia musical: Frank Sinatra

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Salve São Jorge!

É sabido nesse mundodemeudeus que eu tenho o coração de gengibre. Que eu não sou nem de longe a última das românticas. Que eu prefiro encher a cara com meus amigos do que passear de mãozinhas dadas no shopping [Velho! Prefiro ter um filho VIADO do que um filho que se arrasta a passos de tartaruga no shopping!]. Que eu nunca falei de namorado por esses lados da internet. Daí tem gente que acaba achando que eu sou uma freira [É claro que quem não me conhece que me compre!], ou então uma super vadia. Pois bem, não sou nenhuma das duas. Aliás, como cantaria Maria Rita, "minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta".
Já tive alguns namorados "sérios" [haja aspas nesse sérios!], com os quais fiquei a quantia de admiráveis 2 meses. Nenhum desses ilustres cidadãos guarda boas recordações da minha ilustre pessoa. E eu não consigo entender o porquê. Eu sempre fui muito sincera, muito honesta [do jeito que papai ensinou]. Quando não dava mais, falava pro caboclo "olha filho, você vai me desculpar, mas não vai dar mais não!". Daí os manés começavam a chorar! Putaqueopariu bicho! Vai chorar nos quintosdosinfernos! Tudo bem, o cara gostava de mim e tal, agora vai dizer que 2 meses juntos é tempo o suficiente pra uma pessoa não viver mais sem a outra?! [Tá! Tá! Eu sei que rola todo o lance de alma gêmea e essas coisas. Mas pra ser gêmeo não precisa de dois?!] Dois meses não é nem uma estação inteira, cacete! Mas vai falar isso pro estrupício que espalhou fotos minhas pela cidade inteira [exatamente no estilo Amelie Poulain] na esperança de eu voltar pra ele! E sabe o que é pior?! O cara achar que aquilo ia me ganhar! Quá! [Isso já tem uns 2 anos. E se a criatura ler isso e começar a chorar, é bom pra aprender que a vida não é docinho não!].
Outra coisa que me irrita horrores é neguinho me querendo como prêmio. Só porque eu sou uma mocinha independente, que gosta de ficar sozinha na maior parte do tempo, tem mano que acha que tem o dever cívico de me conquistar e depois me dar o pé na bunda pra "vingar" os companheiros machos. Elaiá viu. Não sei o que se passa na cabeça desses seres. Mas sei o que passa na minha, e, com certeza, não é vontade de gastar nem 5 minutos com um tipinho desse.
Agora quer ver eu ficar puta, é um moçoilo começar a conversar comigo, inicialmente falando sobre coisas bacanas, e logo depois vir "soltando as asinhas", jurando que eu vou cair na rede! Geralmente eu me faço de desentendida, tento ser colega do cara, mas depois de um tempo, se o peão não se tocou que comigo só rola conversa sobre futebol, música e cachaça, adiós muchacho! Agora me digam, está escrito na minha testa "Eu preciso de um mala do cacete querendo me pegar"?! Agorinha olhei no espelho e juro que não vi.
Eu não estou no mercado, porra! [meus abraços já são de um moço bonito, by the way] Coé a dessa rapaziada?! Será que eu não posso mais conversar com ninguém do sexo masculino [salvo minhas queridas e raras exceções!] sem que o ser queira ser meu amorzinho?! Ora bolas!
Tem gente que diz que eu sou insensível demais. Que não me importo com o sentimento alheio. Que eu devia ser mais amorosa. E sabe o que eu digo pra essas pessoas: Váproinferno! Não é porque eu não sou docinha, lindinha e florzinha que eu não tenho sentimentos. Tenho sim. Eu só não sou "marriage material" [a não ser pra alguém exatamente unmarriage material como eu...]. Sinto borboletas sim! Me emociono quando o meu São Paulo ganha ou perde. Choro de saudades do colo da mãe e do pai. Sinto uma saudade do cão das pessoas que me são queridas. Digo pros meus amigos o quanto os amo. Sorrio pra quem merece meus sorrisos. Mas eu acho que eu tenho o direito de escolher as pessoas que merecem meu amor, minha atenção e meus sorrisos...
É claro que um dia eu quero que meus olhos brilhem. Que eu quero conseguir ficar mais de dois meses com um moçoilo. Que eu quero abraçar alguém até o mundo acabar. Que meu coração de gengibre goste de alguém. Mas não sou caso de caridade, uai! Não preciso que as pessoas queiram me salvar do reino escuro da solteirice. Um dia [nem tão tão distante] aparece um príncipe, eu o transformo em Shrek, e seremos felizes enquanto durar.
E como ando precisando de proteção, SALVE SÃO JORGE! Hoje é dia do santo guerreiro. Que ele me ajude a me livrar dos dragões que encontro pelo caminho!

E vocês, minha gente. Já passaram por essas aporrinhações? Me explica como faz pra eu me livrar dessa uruca, please!

Companhia musical: Anarchy in the UK - Sex Pistols


terça-feira, 21 de abril de 2009

Harmonia entre matéria e espírito [Com vocês a famosa rede!]

Depois que sai da casa de mamãe e criei meu próprio cantinho, tenho dado mais importância a minha casa que aos meus sapatos [apesar de eles terem um cantinho só pra eles também]. E, apesar de a maioria das pessoas que me conhecem não conseguir acreditar que sim! eu sou um ser que gosta de moda e decoração, fico toda faceira quando vejo novas idéias, compro novos sapatos ou então quando coloco um objeto novo na casinha.
Há aqueles que acham que só há dois tipos de pessoas: as intelectuais, que não se importam com o mundo material, vivendo presos a livros e filmes, e que por isso saem de casa sem se importar se a roupa que estão usando está limpa ou é de 30 anos atrás; e aquelas que são super estilosas, se importam com a aparência do corpo e da casa, e por isso são fúteis e não são capazes de compreender um livro de Machado de Assis. Eu acho essa divisão absolutamente absurda!
Não somos divididos em corpo e espírito. Somos ambos, ao mesmo tempo, numa harmonia. Não é porque uma pessoa se veste bem, se preocupa em ter o cabelo sempre penteado, gosta de ter objetos bacanas em sua casa, que ela vai ser considerada fútil. Assim como o fato de alguém escutar Beethoven e ler Dostoiévski não faz dessa pessoa uma alma sem corpo, um desalinho infinito.
Já foi a época em que gostar de produtos "de massa" era considerado inaceitável. Hoje vivemos em um mundo "de massa"! Nada mais é tão original ou revolucionário sozinho. A matéria só tem poder quando manipulada pelo espírito. Aquela camiseta do Rolling Stones só é significativa a partir do momento em que alguém a veste e diz: Olha, eu gosto tanto de Stones que estou vestindo o símbolo dos caras [Sim! Eu tenho uma camiseta do Stones. E sim, eu amo Stones].
Acho um saco esses pseudointelectuais que desmerecem as pessoas por estas lerem best sellers ou por passarem horas no salão. As pessoas têm que ler, ouvir, vestir e gastar seu tempo com aquilo que é importante pra elas. E ninguém é suficientemente melhor do que ninguém pra julgar isso. Aliás, são muito mais felizes as pessoas que olham mais pra si que pro outro.
Eu não sou a mais mulherzinha das mulheres. E depois de vários testes descobri que há muito mais testosterona do que progesterona no meu corpo. O que me faz ter características doces, como ser apaixonada por futebol, falar palavrões, viver barangando, consertar as coisas em casa, montar móveis sozinha. Mas a progesterona que me sobra me faz ser capaz de ser sensível [não no strictu sensu], de abrir os olhos pra beleza [seja ela de um pôr-do-sol, de uma bolsa bem feita, ou da cena final de Cães de Aluguel].
Sou sim uma nerd assumidíssima. Amo passar horas com o nariz enfiado nos livros; mas também adoro me vestir bem. Uma coisa não exclui a outra. Na verdade, elas se completam, fazendo de mim uma pessoa única, o meu próprio samba do crioulo doido. E acho que é isso que faz com que cada um de nós seja único: nossas misturas, nossos complementos.
E espero, veementemente, que um dia as criaturas parem de colocar rótulos umas nas outras, como se fossem garrafas de cerveja [ô vontade de beber!]. E passem a ver o brilho nos olhos além de enxergar apenas as diferenças.

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E depois de falar tanto da rede, abaixo uma foto da lindona ao lado do meu quadro do Pulp Fiction [que ganhei de presente de casa nova do Ricardo e do Felipe. Thanx meninos!]. Pra mostrar que sou uma mistura. Pra mostrar que a beleza se manifesta em frente de meus olhos cansados de diferentes formas. Pra mostrar que mesmo nesse mundo cão, ainda há espaço pra nos sentirmos confortáveis em nossa própria pele.



Companhia musical: Metade - Oswaldo Montenegro

domingo, 19 de abril de 2009

A grama do vizinho nem sempre é mais verdinha...

Desde quando mudei aqui pra casinha, tenho tido muitos e muitos contratempos. Desde a Dona Aranha [que parece ter virado Gremilin porque nunca para de aparecer] até o Sr. Mofo. Passando pelo fato de eu ser a única do prédio sem interfone até terem cortado minha luz porque os vizinhos espíritodeporco devolveram minhas correspondências ao Correio por não terem se dado conta de que havia um ser morando aqui.
Já houve dias em que sentei e chorei alto, de raiva, de decepção, de solidão. Meu apartamento é uma gambiarra só, porque fica nos fundos do prédio, e deve ter sido construído pra "aproveitar espaço"; um espaço mínimo, diga-se de passagem, já que o trem tem 2 metros de altura só [ou seja, arrumar namorado alto nem pensar!] [E coitado do senhor meu pai quando vier me visitar, vai sair cheio de calos na cabeça!]. Além de só metade ficar "pra cima" da calçada, quase um subsolo de Dostoiévski.
Mas a casinha tem uma varanda enorme e cheia de espaço. Tem os cômodos grandes. É perto de meus amigossalvadoresdapátria e de meus novos tios adotivos. O aluguel é super barato, levando em conta os preços astronômicos de Curitiba. E eu me sinto em casa aqui. Quando passo porta a dentro e me jogo na rede sinto como se estivesse protegida [e é claro que o Morteim e o querosene ficam ao meu lado, só pra aumentar a proteção].
Ao lado da casinha tem um apê que também foi construído pra aproveitar espaço. Só que ele é todo reformadinho, com o piso de azulejo, a pintura em dia e tem interfone. Sempre olhava pra ele e ficava querendo que o meu fosse daquele jeito também... Mas, depois que comecei a conversar com a vizinha [que é a única que sorri pra mim, além dos queridos velhinhos que moram no apartamento de cima] percebi que eu estava no céu. A casa da vizinha, além das aranhas características do prédio, é cheia de baratas e vez ou outra é visitada por ratos. Além disso, toda vez que chove horrores, a sala da pobre mulher fica inundada. E lá o mofo não é resultado de uma viagem, mas é semanal.
Depois que ela me contou tudo isso, jurei que nunca mais ia reclamar da minha casa! Mesmo hoje, quando fui limpar a cozinha e achei duas aranhas mortas, agradeci porque não eram ratos! E apesar de tudo, depois de ter pintado as paredes, arrumado os móveis e deixado ela com a minha cara, nem parece mais tão ruim... Além do que, aqui não entram nem baratas nem ratos. E estou começando a achar que vou ter que adotar as aranhas, porque elas me amam!
A gente nunca está contente. Sempre quer perder uns três quilos. Ter o cabelo mais sedoso. Ter uma casa melhor. Um emprego mais rentável. Um namorado mais bonito. Estamos sempre à busca de mais e melhores coisas pra nossa vida. E isso é bom! Nos impede de estagnar e ficarmos conformados. Devemos sempre querer o máximo que somos capazes de conseguir.
Mas muitas vezes é preciso que sejamos capazes de nos sentir felizes com pequenas coisas. De nos alegrar pelo fato de haver sol. Por podermos sorrir, apesar desse mundo filhodumaputa no qual vivemos. Não que devamos ser uma réplica da Pollyana [já disse por aqui que tenho medo de gente que sorri a vida inteira!]. Mas não custa nada dar uma chance pro nosso quintal. Afinal de contas, nem sempre a casa do vizinho é melhor que a nossa.

Ps: Isa, eu juro que essa semana posto fotos da rede =)

Companhia musical: Paulinho da Viola e Marisa Monte

Em tempo (post scriptum): Depois de escrever o post, recebi um e-mail me dizendo que meu artigo foi aceito pra um congresso que eu quero muuuuito participar. O que me deixou absurdamente feliz! Em contrapartida, meu time perdeu. E quem me conhece sabe que isso me afeta em proporções gigantescas. Mas, a alegria do congresso encobre um pouco da tristeza da derrota. E assim é a vida... Uma montanha russa cheia de altos e baixos. O bom é que sempre há aquele friozinho na barriga, nos mostrando que o que vale a pena mesmo é estar vivo.

Ps2: Parabéns aos torcedores e jogadores do Corínthians! Jogaram bem e mereceram ganhar.
Àqueles que pretendem me cornetar, lembrem-se que, enquanto nós erguíamos mais uma taça do brasileiro, vocês choravam pela ida pra Segundona. E lembrem-se também que esse blog é minha casa, e não terei pudor nenhum em mandá-los pra putaqueopariu caso me encham a paciência!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A sutil arte de fazer gambiarras.

Quem nunca foi autor de uma gambiarra que atire o primeiro plastiquinho de fechar pão! Pra quem não sabe, gambiarra é, de acordo com Boufleur,"uma intervenção alternativa, o que também poderíamos definir como uma técnica de re-apropriação material: uma maneira de usar ou constituir artefatos, através de uma atitude de diferenciação, improvisação, adaptação, ajuste, transformação ou adequação necessária sobre um recurso material disponível, muitas vezes com o objetivo de solucionar uma necessidade específica". Trocando em miúdos, é o jeitinho brasileiro de fazer as coisas.
Minha casa é absolutamente lotada de gambiarras. Um dos materiais que mais gosto é o tal do plastiquinho que vem no saquinho de pão de forma. Aquilo deve ter sido inventado pelo McGayver, de tão mil utilidades que é! Uso pra organizar os cabos do computador, os fios da tv, meus fones de ouvido, pra prender embalagens de comida abertas, pra encadernar papéis [só fazer uns furinhos e prender com o trem. Fica uma beleza de gambiarra!]. Sim, eu sei que existem organizadores japoneses pros fios do computador, e prendedores pra colocar nas embalagens. Mas pra quê diabos vou gastar dinheiro se o plastiquinho é de graça?
Outra gambiarra das grandes em minha casa é a rede que fica no meio da sala. Eu não tenho sofá, só um colchãozinho vagabundo no chão. E, ao invés de comprar um sofá que iria estragar daqui uns dois anos, emprestei uma rede dos meninos [linda! Amarela! Ganhada da Vó Zefa.] e coloquei de um lado ao outro da parede. Ficou linda! Combinou com a cor das letras do meu quadro do Pulp Fiction, é confortável, e ainda me faz lembrar um tantinho da casa dos pais.
Na cozinha, a grande gambiarra é minha mini-churrasqueira. Quando me mudei pra cá não tinha fogão. E casa nova é aquela coisa, gastos imprevistos [muitos!], e acabou não sobrando grana pra comprar um. Minha avó havia me dado uma mini-churrasqueiragrillwhatever e um forninho elétrico no ano passado. Nunca tinha usado. Mas daí, cansada de comer pão, resolvi que ia experimentar cozinhar no trem. E não é que deu certo, minha gente! Cozinho de tudo nela! E ainda tem o plus de que o consumo de energia é mínimo, porque a voltagem do aparelhinho é bem baixa.
Hoje fiz minha mais recente gambiarra. Eu amo plantas [paixão herdada da dona mãe] . E tinha pego umas mudinhas de manjericão e espada de São Jorge na rua e plantado em uma lata de tinta, pra fazer companhia pras outras plantinhas. Mas as coitadas estavam espremidinhas, e eu com uma preguiça enorme de comprar vasos individuais. Pois hoje olhei pra minha coleção de garrafas d'água e elas sorriram pra mim. Cortei as bichinhas, fiz uns furinhos embaixo, enfeitei com fita e voi lá! Três vasinhos novos.
Acho que fazer gambiarras é parte da natureza de quem mora sozinho. Afinal de contas, nem sempre se tem muita grana pra mandar consertar as coisas [ou se fica com dó de gastar o dinheiro da cerveja], ou então comprar coisas novas. Não custa nada olhar com os olhos da criatividade pra coisas que iriam pro lixo. Além de dar uma mão pro planeta, a gente fica até orgulhosa de usar a cachola pra coisas úteis...

E você, já fez alguma gambiarra?

Companhia musical: Velha Guarda da Portela

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Por trás das nuvens, agradecimentos e presentinhos.

Depois do último post me ausentei um tanto daqui. Resolvi passar a terça-feira sem entrar em contato com o cybermundo. Aproveitei pra fazer uma faxina na casa [que estava implorando de joelhos por isso!]. Passar horas deitada na minha rede amarela. Olhar pro céu. Tomar banho de chuva. Ficar em silêncio. Essas coisas que a gente vai adiando porque passa muito tempo em frente da tela.
E a tristeza passou. Depois de sentir o cheirinho bom de casa limpíssima; de ouvir o barulho da chuva; de ficar só em minha companhia... Revi alguns de meus hábitos que achei que deveriam ser mudados. É sempre bom dar uma repaginada em nossos dias. Mudar a disposição dos móveis. Ouvir aquele cd que está empoeirado. Arrumar os livros em uma ordem que não seja alfabética. Jogar fora [ou doar] roupas velhas. Mudar a ordem da rotina.
Hoje estou melancólica, mas não triste. Estou com vontade de me jogar na rede e assistir algum filme bobo da sessão da tarde. Afinal de contas, mereço um desconto depois de ter lavado 4 lençóis de casal brancos [Dormir em cama de casal é uma delícia! Mas lavar os lençóis dá um trabaaaalho! Ainda mais pra amélia aqui, que tem que lavar tudo na mão]. Mas, o mestrado me chama, me chama, me chama. E apesar do tempo cinza e frio que está rondando Curitiba, sinto que devo olhar por detrás das nuvens. Principalmente das minhas nuvens. E dar espaço pro sol entrar e tomar conta de mim.
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Por falar em sol, ganhei dois selinhos essa semana! E estou super faceira.

O primeiro da Isabela Kastrup, que tem um blog lindo! O ARRUMADÍSSIMO. Dá gosto de ir lá! Se eu fosse vocês daria uma passadinha. Mas devo alertar que vicia, de tão bom que é!

O outro selinho ganhei do Jonnhy Blaze, que tem um blog bem bacana também.

Muito, muito obrigada meus queridos! É sempre bom saber que as nossas palavras por vezes encontram olhos que não são os nossos; e acabam sendo refletidas.
E aproveitando o momento "thanx", quero agradecer a galera que tem visitado e comentado no blog. Voltem sempre, participem, critiquem, tirem sarro da minha cara... No fim das contas, esse blog também é um pouco de vocês.

Companhia musical: Singin' in the rain - Gene Kelly

terça-feira, 14 de abril de 2009

Amor por futebol [Força Ceni!]

Meu dia não foi lá muito bom [tirando o episódio da minha rede linda, que vai ter um post só pra ela]. Segunda-feira é sempre um inferno. Ainda mais quando ela vem em forma de temporal e molha toda a roupa cheirosinha que eu tinha acabado de colocar no varal. E então, resignada a encerrar o dia, resolvi, antes de dormir, dar uma passadinha na página do São Paulo. Quem me conhece, ou lê meu blog há algum tempo, sabe que sou apaixonadíssima por futebol. E que o grande amor da minha vida é o São Paulo Futebol Clube. E muito do meu mau humor de hoje se deveu a derrota de ontem. Mas, pior do que a injusta derrota, foi ler a notícia que o Capitão Ceni teve uma contusão séria e ficará 6 meses fora dos gramados. Devo confessar que chorei. Não sei se de tristeza pelo incidente com o capitão, ou pela dor de não vê-lo jogar nos próximos meses.
Me lembro do primeiro jogo de Rogério, substituindo o velho Zetti. Me lembro de como ele conseguiu superar as comparações e se tornar uma lenda. Lembro dele erguendo a taça do Mundial em 2005. E as taças de todos os brasileiros de 2006 pra cá. Lembro de quase todos os gols que nosso goleiro artilheiro fez. Lembro de seu sorriso e orgulho ao dizer que ele não sairia do São Paulo, porque o São Paulo era sua casa.
Pras pessoas que não gostam de futebol, deve ser difícil entender todo esse amor, toda essa loucura pelo velho esporte bretão. Mas, como diria a sábia Clarice, "não se preocupe em entender; viver ultrapassa o entendimento". Futebol não se entende; se sente, se ama. Não fosse assim, como explicar 90 mil pessoas cantando em coro no Maracanã? Como explicar que essa que vos fala, sempre tão lógica e racional, sempre tão má, tenha chorado em todas as conquistas e derrotas de seu time?
Rogério Ceni é a cara do São Paulo. Sendo assim, é minha cara também. E será muito difícil não vê-lo ali, em campo, defendendo nossa camisa. E sei que pro capitão será tão difícl quanto pra nós. Mas sei que vai dar tudo certo. Tem que dar tudo certo. Afinal de contas, São Paulo sem Ceni é a mesma coisa de Mangueira sem Cartola; fica vazio, faltando um pedaço.
Agora vou dormir. Mais triste do que quando acordei. Mas ainda na esperança de que amanhã seja um dia melhor.

Companhia musical: Hino do São Paulo - Andreas Kisser

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Feira das Vaidades [Mira Nair]


"Feira das Vaidades" pode ser considerado um filme de opostos. De um lado, a nova queridinha de Hollywood, Reese Whinterspon, que deliciosamente conseguiu incorporar uma das grandes personagens da literatura britânica Rebbeca (Becky) Sharp. De outro, a diretora Mira Nair, bastante elogiada pela crítica cult por seus filmes anteriores.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de William Makepeace Thackeray, escrito no século XIX.
O livro já teve outras 6 adaptações para o cinema, e até o genial Kubrick já cogitou trabalhar com ele.
No enredo, Rebbeca (Becky) Sharp é uma mulher a frente de seu tempo. Filha de artistas (pai pintor e mãe cantora), Becky não teve uma vida muito confortável. E em busca de seus sonhos sociais, a personagem é capaz de lançar mão de todo seu charme, inteligência e poder de conquista.

A maioria das críticas existentes sobre o filme ressaltam o fato de a adaptação não ter sido fiel aos princípios utilizados por Thackeray no livro. Pudera! O livro tem mais de 900 páginas, e tranformá-lo em uma película de 140 minutos é um ato honroso de coragem.
Mira Nair utilizou a cultura indiana como pano de fundo colorido para o filme. Por se passar na velha europa, em que a hipocrisia era prato principal, e a frieza e o ambiente cinza europeu eram a sobremesa, "Feira das Vaidades", nos olhos de Nair, ganhou um colorido oriental que faz com que o filme fique estonteante.
Ao conseguir se libertar da casa em que vivia (aqui há alguns traços da conhecida gata borralheira), Becky começa sua luta por um lugar colorido na cinzenta sociedade britânica. Consegue então, um emprego como governanta na casa da família Crawley, que tem como chefe o estabanado Sir Pitt Crawley (Bob Hoskins).
O roteiro do filme por vezes se mostra apressado, deixando de explorar algumas minúcias que seriam muito bem vindas. Mas a produção é compensadora. O cenário, os costumes, a fotografia, fazem com que "Feira das Vaidades" seja uma pintura cinematográfica.
Becky Sharp não é apenas uma heroína pobretona que quer fazer parte da alta sociedade. Ela é uma mulher autosuficiente. Tanto quando precisa conseguir dinheiro para sustentar o marido Rawdon (James Purefoy), jogador inveterado, tanto quando precisa conquistar os olhares das enfadonhas e insalúbres senhoras da nobreza.
Embora sintamos falta de determinadas continuações no filme, principalmente aqueles que já leram o livro, há que se reconhecer que Nair fez um bom trabalho.
A "Becky" de Nair não é uma simples vilãzinha que passa por tudo e por todos para alcançar seus anseios. Mas sim um exemplo de mulher que desafinava da sociedade daquela época, e que pode facilmente ser comparada com as mulheres da nossa. Fortes, inteligentes e sempre a busca de seus desejos.
Assista. Ao menos para ficar embasbacado com a beleza que só a vaidade é capaz de produzir em nossas mentes.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

As Horas [Stephen Daldry]


"Não se pode ter paz fugindo da vida" (Virgínia Woolf)
Adaptado do livro homônimo de Michael Cunningham, "As Horas" é uma exceção à regra de que adaptações nunca chegarão aos pés de suas origens literárias. Em todo o filme tive a sensação de já ter presenciado aquelas cenas, com as mesmas cores, com o mesmo cheiro e com a mesma dor no coração que havia sentido no livro.
Dirigido por Stephen Daldry, e estrelado pelo trio de talentos Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore, o filme é daqueles que devem ser assistidos ao menos uma vez ao ano.
Tendo como base o livro Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, o filme narra um dia na vida de três mulheres de períodos diferentes, mas que têm suas vidas entrelaçadas.
Em 1923, vive Virgínia Woolf (Nicole Kidman), uma escritora que tem sua vida atormentada pela insanidade. Dona de uma mente maravilhosa e de uma personalidade forte, Virgínia se via limitada pelo seu maior bem: sua própria alma. Sua relação com Leonard (seu marido e companheiro) era de doação de ambos.Tanta e tamanha que Virgínia decide deixar sua vida esvair-se para que a de Leonard possa então respirar. Não há outra palavra senão "perfeita" para adjetivar a atuação de Nicole Kidman. Em todas as vezes em que ela apareceu na tela me parecia estar vendo a própria Virgínia. Não foi à toa que lhe deram com honra o Oscar de melhor atriz. A caracterização, a voz, os olhos, tudo nela respirava a insanidade apaixonante que só Virgínia Woolf seria capaz de transmitir.
Em 1949, vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida e já mãe de um menino, com um marido exemplar. Laura é um exemplo da luta contra aquilo que não se deseja mais. Ela transpira suas exitações. Quer o perfeito tanto quanto o rejeita. Laura Brown é uma mulher que decide viver, mas que prefere matar o que não lhe deixa escolhas. Julianne Moore está absurdamente bela. Não há como passar ileso por aquele rosto, sem ter a vontade de olhá-lo por quase toda a eternidade.
Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que está ocupada com a festa que dará em comemoração ao prêmio ganho por seu melhor amigo (Richard). Clarissa é uma personalidade perturbada, mas que tenta esconder com sorrisos tudo aquilo que sua alma já não aguenta mais carregar. Como diria Richard: "Sempre dando festas para encobrir o silêncio". Meryl Streep está perfeita, como só ela consegue ser. Sua atuação é tão real, tão significativa, que chega a transpor a tela e vir direto para nosso lado, trazendo consigo nossas dúvidas e imperfeições.
As Horas é a narrativa de um dia nosso. Um dia em que temos que fazer escolhas. Um dia em que as escolhas se fazem por nós.
Virgínia não é apenas uma mente atormentada, é todo o desespero de uma mulher que já não pode controlar a si mesma. É a luta por manter-se salva de si mesma. É a personificação de uma vida em que não se sabe o que se é, mas o que se gostaria de ser. É o desejo de ir para bem longe de onde se está, mesmo sabendo que talvez isso não seja o ideal.
Laura não é apenas uma esposa ideal. É a alegoria de uma mulher que sabe exatamente o que é, mas não sabe se isto é o melhor. Que luta contra si mesma. Que volta do meio do caminho e entende que o melhor é estar viva, e que mesmo que as escolhas não sejam boas para todo o mundo, é melhor que sejam feitas.
Clarissa não é apenas uma mulher frívola. É um vazio constante. É a dor de viver no passado. É o escuro de não querer enxergar que o presente é aquilo que a faz viva. É a personificação de muitas pessoas que fogem de si mesmas, e tentam resolver com flores a sua própria ausência.
Essas três mulheres não são apenas o perfil de como a sociedade pode massacrar uma alma. São a representação de como essa alma pode agir diante da sociedade.
Diante de nossa verdadeira realidade no espelho podemos sair para comprar flores, nos atirar nas águas ou deitar e dormir. O que importa não é se conseguimos, mas que o fizemos. Afinal, a cada segundo em que o tempo escorre belo e grotesco de nossas mãos precisamos fazer uma escolha. Que irá definir se encontraremos a paz ou deixaremos com que ela se vá.
Escolha assistir o filme. E fique como eu, deitado, enquanto os créditos passam, olhando para si mesmo e ouvindo ao fundo a sinfonia de Strauss. Enquanto isso não pense nas escolhas que já foram feitas, tampouco nas que você ainda tem por fazer. Deixe apenas que elas fiquem ao seu lado, esperando que sua hora chegue. Afinal, temos todas as horas...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os sonhadores [Bernardo Bertolucci]


O nome de Bertolucci já seria o suficiente pra afirmar que este é um ótimo filme. Responsável pela obra-prima "O último tango em paris" (1972), Bernardo é um diretor fascinante. E em "Os Sonhadores", seu amor e dedicação à sétima arte são visíveis e apaixonantes.
O tema central do filme é o próprio cinema, uma metalinguagem digna de admiração. O filme se passa no ano de 1968, na França. Uma época em que a revolução estudantil atingia seu auge, e onde os valores sociais estavam sendo postos à prova e revigorados.
Mas não é só do cinema, respirado a cada fotograma, que se compõe o filme. A paixão humana, a política e as discussões intelectuais também fazem parte desse jogo de advinhações.
Há quem diga que o filme é apenas um "tango" jovem e despreparado. Outros afirmam ser mera pornografia juvenil.
Eu me deleito com a forma passional com que Bertolucci conseguiu mostrar os desejos e as aspirações humanas.

Matthew (Michael Pitt) poderia ser visto como apenas mais um garoto americano que vai ter suas bases intelectuais na aclamada Paris. Um tanto quanto ingênuo e apolítico, Matthew é apaixonado por cinema, e frequenta com bastante fervor a Cinemateca Francesa. E é lá, numa das cenas mais plasticamente belas do filme, que ele conhece Isabelle (Eva Green). (Tenho que abrir um grande parenteses para falar da atuação dessa menina. Eva Green é dona de uma beleza grega. Diante das câmeras, suas expressões assumem dimensões inimagináveis. Seu olhar é tão sensual quanto sua paixão pelo cinema.Com certeza, uma das novas boas promessas para o cinema atual.)
Em meio a toda a polvorosa em que se encontrava a Cinemateca, [o filme tem início durante os protestos pela expulsão de Henri Langlois do comando da Cinemateca Francesa pelo recém-instituido Ministro da Cultura do governo De Gaulle, Andre Malraux] Matthew, Isabelle e Theo (Louis Garrel) se encontram uns nos outros.
Isabelle e Theo são irmãos, que alimentam uma incestuosidade abstrata. Por muitos, a forma com que Bertolucci pintou o relacionamento dos irmãos foi chocante, mas, no filme eles são como Apolo e Diana: metades complementares.
Convidado a passar uma temporada na casa dos irmãos, Matthew é introduzido num mundo a parte, uma ilha dos desejos. Lá, eles têm conversas acaloradas sobre literatura, artes e política ; ao mesmo tempo em que compartilham seus desejos tanto do corpo quanto da alma.
Uma das grandes alusões de Bertolucci a seu amor pelo cinema é a brincadeira feita pelas personagens, "qual é o filme?". Um deles "encena" uma pequena cena e o outro tem que advinhar de qual filme ela faz parte. Nesses momentos, podemos ver cenas de clássicos, sendo rememoradas por Bernardo.
É incrível como Bertolucci consegue poetizar o sexo. Mesmo sendo não-convencional o propósito, a maneira como foi retratado é passional e bela. Quando nos deparamos com cenas que, na mão de outros diretores poderiam ser apenas sexo animal, também encontramos identificação com nossos próprios desejos. Não só os desejos da carne, mas, os mais bem tratados por Bertolucci, os desejos da alma.
Assista. Mas não vá para a frente da tv com a alma suja de pensamentos vãos. Nem com a idéia de que é um filme sobre sexo barato.
Dispa-se de seus preconceitos tolos, afinal, mais dia ou todo dia, todos somos "vouyeres" da vida.

Onde estiver meu coração de gengibre...

Esta semana a maioria das pessoas do lado de cá do meriadiano de Greenwich comemora o período cristão da Páscoa [em especial os comerciantes de chocolate!]. Para os cristãos, a Páscoa é o período de luto pela morte de Cristo, e depois dos lendários três dias, a alegria por sua ressurreição. Eu não sou cristã, portanto, não tenho que comemorar a morte tampouco a não-morte de ninguém.
Muito antes de o cristianismo se tornar a principal religião do mundo [a ferro e fogo, diga-se de passagem], o período da páscoa já era comemorado pelos pagãos, mas com outros olhos. Numa época em que a humanidade convivia, de fato, com a natureza,as comemorações eram em torno de seus ciclos, de suas eternas mutações. As pessoas davam graças pelos períodos do ano em que podiam plantar e colher, tendo, assim, alimento físico e espiritual.
Eu não acredito em um deus preso entre quatro paredes, do qual eu só deva lembrar em datas comemorativas ou quando estou em apuros. Eu acredito no milagre da vida, que se mostra pra mim a cada nascer e pôr-do-sol. Eu acredito na energia dos raios da lua, na eterna transformação das estações. Assim como não acredito em privações para purificar o espírito [como jejuar e não poder comer isso ou aquilo], mas acredito na alegria de poder receber da terra meu sustento.
Por isso, nessa semana em que muitos vão comemorar o renascimento, eu vou comemorar a chegada de mais um outono, e dar graças por mais um ciclo que se inicia. Porque os meus deuses estão em qualquer lugar onde estiver meu coração de gengibre...

Ps: Isso não é uma crítica à crença das pessoas. É apenas uma forma de mostrar a minha crença. Se você é cristão, e se sente feliz fazendo o que acredita, deixo desde já minha admiração. Afinal de contas, devemos ser felizes com aquilo que acreditamos.

Companhia musical: Jorge da Capadócia - Jorge Ben.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

É proibido fumar!

Hoje, enquanto tomava minha xícara de café, fumava meu MarlboroVermelhoMaço e lia o jornal, me deparei mais uma vez com a filhadaputagem dos representantes do governo. Foi aprovada em São Paulo uma lei que proíbe o uso de tabaco em todos os ambientes fechados e comunitários, sendo que aqueles que descumprirem a lei deverão pagar multas entre R$220,0 a R$3 mi.
O assunto cigarro não é novo em meu blog, já que sou fumante inveterada. Mas, dessa vez, esse povo está passando dos limites! Já não chega colocar tarifação máxima nas carteiras de cigarro?! Daqui a alguns dias, o imposto sobre o cigarro chegará a 30%, pois o governo perdeu um de seus impostos automotivos, e resolveu que precisaria conseguir o dinheiro de suas viagens de outros bolsos. Já não chega as advertências medonhas atrás das carteiras de cigarro?! [Por que não colocam advertências nas caixinhas de McDonalds? Do tipo: Isso levará a uma morte silenciosa de suas artérias!]. Já não chega as pessoas olhando fumantes nas ruas e trantando-os como criminosos? Agora até o direito de "ir e vir" será tirado?!
Não me venham com essa balela de que é preciso "conscientizar" os fumantes. Todos nós somos muito bem conscientizados, sim senhor! Ou você acha que um fumante não sabe que cigarro provoca câncer? Ou então que amarela os dentes [Eu tenho espelho, cacete! Vejo meus dentes amarelos todos os dias nele!]? Sabemos de tudo isso, e só gostaríamos de não ser bodes expiatórios de mais maracutaias do governo. Por que esses cidadãos não legalizam a maconha e começam a cobrar impostos sobre ela?! Por que eles não diminuem seus próprios salários, que são exorbitantes?! Por que não começam a cobrar impostos das Igrejas?!
Eu estou cansada de desviar das fogueiras que andam montando para os fumantes. Sou uma fumante deveras educadinha. Não fumo em filas de ônibus; faço o possível pra não jogar bitucas na rua; não fumo em lugares em que eu seja a única fumante. Mas agora não vou poder fumar nem no boteco?! Ora bolas! Se eu for ao boteco e não puder fumar nem beber [graças à tal da Lei Seca], o quê diabos eu vou fazer lá?! Rezar um pai nosso e uma ave maria?! Ler a bíblia?! Brincar de cirandinha?! Ah!Vá pro inferno!
O governo deveria ficar agradecido pelo número de fumantes que contribui para suas contas no exterior! E, ao invés de criar leis como essa, deveria se preocupar mais com o saneamento básico, com a geração de empregos, com a melhoria da educação, com a violência. Isso sim mata, e a passos mais largos que o cigarro! Queria muito que eles percebessem que não é através da ditadura contra cidadãos que pagam impostos que eles vão fazer desse um país melhor. Mas sim através da melhoria de seus próprios atos. Porque, enquanto eu vou ser relegada a ficar em casa pra fumar, há incontáveis bandidos nas ruas que não nos deixam caminhar [e nem dormir] sossegados.
Não quero, de forma nenhuma, fazer apologia ao tabaco, que fique bem claro! Mas gostaria muito que minhas opiniões fossem respeitadas. Todos nós temos nossos vícios, sejam os mais inofensivos [um cigarrinho depois do almoço] até os mais junkies [a novela das 8 todo santo dia]. E eles fazem parte de nossas vidas. Agora, é justo que um indivíduo que não faz parte da minha vida, queira se intrometer nela? É justo que um político que vive no ar condicionado [quando está, of course] resolva tirar meu direito de fazer o que bem entender? Eu sei, não há justiça nesse país, pois se houvesse eu não seria obrigada a andar correndo na rua, sempre com medo de ser assaltada. Se houvesse justiça, professores ganhariam salários maiores que vereadores. Se houvesse justiça, não haveria tantas pessoas sem o mínimo de condições de vida, e tantas outras com mais condições do que um município inteiro.
Eu até havia cogitado a idéia de parar de fumar esses dias, mas agora, só de birra, não paro, não paro, não paro! Vou ficar igual a aquelas crianças que se jogam no chão e gritam quando a mãe não dá o doce que elas querem. Vou fazer questão de mandar pro inferno qualquer um que vier me falar que cigarro faz mal à saúde. Se é pra fazer guerra, here I'm!
E, só pra terminar de uma maneira menos revoltada, cito novamente o querido Quintana:
"Arte de Fumar
Desconfia dos que não fumam:
esses não têm vida interior, não tem sentimentos.
O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar"
Mário Quintana


Companhia musical: Seven Nation Army - White Stripes

Ovelhas Negras [Caio Fernando Abreu]


"Remexendo, e com alergia ao pó, de dezenas em pastas em frangalhos, nunca tive tão clara certeza de que criar é literalmente arrancar com esforço bruto algo informe do Kaos. Confesso que ambos me seduzem, o Kaos e o in ou disforme. Afinal, como Rita Lee, sempre dediquei um carinho todo especial pelas mais negras das ovelhas".

Assim Caio termina a introdução de seu livro "Ovelhas Negras", compilado em 1995, com contos que vão de1962 até 1995, um ano antes da morte do escritor.
Segundo Caio, o livro é uma espécie de "(...) autobiografia ficcional, uma seleta de textos que acabaram ficando de fora de livros individuais. Alguns, proibidos pela censura militarista; outros, por mim mesmo, que os condenei por obscenos, cruéis, jovens, herméticos, etc. Eram e são textos marginais, bastardos, deserdados. Ervas daninhas, talvez(...)".
Caio Fernando Abreu é, sem dúvida, um dos escritores mais contundentes e apaixonantes da sua geração. Seus contos são poesia cotidiana, recheada do fel que é sorvido pela ironia humana, pequenos pedaços de uma colcha de retalhos. Retalhos que juntos têm uma força inimaginável.
Os deste livro em especial são viscerais. Um verdadeiro tiro no peito. Daqueles que te fazem morrer bem devagarinho, lembrando de todos os momentos em que você queria ter vivido, mas se escondeu em sua máscara de cordeirinho.
"Parece incrível se estar vivo quando não se acredita em mais nada". O sentimento de perda nos livros desse autor sempre são profundos e doidamente presentes, e em "Ovelhas Negras" eles ganham um reforço especial. São esboços, de pensamentos talvez vãos, sujos pelas impurezas do não-branco das cidades.
Esses textos tiveram que ser deixados na gaveta de Caio por alguns bons anos, para que ficassem protegidos do lobo mau da crítica e incompreensão daqueles que não se bastam com um sorriso ao pôr-do-sol.
Embora seja deveras significativo, Caio ainda é desconhecido pela maioria. Apenas alguns relegados estão acostumados com suas palavras de aço e pluma.
Os textos de "Ovelhas Negras" são o contrasenso, o marginalismo, o nonsense da literatura de Caio. Todas as suas palavras ferem nossa alma, lembrando-nos que todos os dias são cinzentos se não olharmos pelo caleidoscópio da ilusão de ser.Vivo, lúcido, inconseqüente, imoral...humano.
Leia, e depois prepare-se para nunca mais deixar de lembrar dele em seus grandes e pequenos momentos. Onde as negras ovelhas não são as renegadas, mas as bem-vindas.

Companhia musical: Ovelha Negra - Rita Lee [Clichê, mas imprescindível]

terça-feira, 7 de abril de 2009

Delete depois de ler...

Já que havia dito no post anterior que segunda-feira é o dia dedicado a sutil arte da procrastinação, decidi fazer uma coisa que há tempos penso em fazer, mas sempre dá aquela preguiça [p.s.: já que hoje já é terça! Yey!]: apagar os recados do meu scrapbook no orkut. E então ocorre a pergunta "Por que diabos apagar?".
Essa semana pensei muito em meu passado. Revi meu fotolog [que em breve tambem será devidamente apagado]. Assisti uns episódios de Carrossel. Ouvi músicas dos anos 80 [É impressão minha ou quem nasceu no início dos anos 80 é saudosista por natureza?!]. Revi fotografias de quando era criança [devidamente surrupiadas da senhora minha mãe]. Enfim, fiz um check list do meu passado [só faltaram os diários, mas estes estão guardados a sete silvertapes na casa dos pais].
Ao olhar meus mais de 6000 recados no orkut, percebi que aquilo contava minha história. E em muitas páginas, partes que eu não gostaria de lembrar. Ou então partes tão boas que me dava tristeza de pensar que passaram. Fui lendo, rememorando [chorando ocasionalmente, confesso. Afinal de contas, meninas más também choram!] e apagando. E, influenciada pela citação de Quintana que postei há alguns dias, resolvi que quero viver meu presente.
Meu passado foi incrível! Dentre todas as fases da vida que ficarampra trás, não há uma que eu olhe e não diga: valeu a pena! [mesmo a fase em que eu era uma loser e passava o recreio escondida no banheiro, mas isso fica pra outro post]. E hoje, eu sou uma colcha de retalhos feita de todas essas fases que se foram, e costurada pelas pessoas que passaram pelo meu caminho. Há costuras que continuam sendo feitas, enquanto há outras que passaram por mim apenas para me ajudar com alguns retalhos, e seguiram seu caminho. E cá fiquei eu.
Quero viver meu presente, e pensar que ele será um retalho importante na colcha de retalhos futura. É claro que meu passado irá me acompanhar, afinal de contas, ele sou eu, ou eu sou ele. E que eu sempre vou olhar pras fotos antigas [Gente! Por que diabos essas fotos antigas tem que ser tãããão medonhas?!] e lembrar com saudades. Mas prefiro apagar meus rastros públicos de outrora. E continuar a caminhada nos tijolos nem sempre amarelos do presente.

E você, também dá um delete no seu passado vez ou outra?

Companhia musical: Perfil - Fábio Junior [Rá! Quem diria que eu escuto Fábio Junior?! Coisas dos anos 80, minha gente!] e Meu primeiro Amor -Perla [Lembra que eu falei dos anos 80?!]

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Segunda-feira maldita!

Segunda-feira. Tarde de outono em Curitiba. Eu, como todos os brasileiros de alma, tenho milhares de coisas pra fazer. Meu cesto de roupa suja sumiu, devido a quantidade de roupas que estão por cima dele. A cama ainda está desarrumada. O almoço tem que ser feito. Os textos do mestrado estão na mesa, me olhando com cara de abandonados. O esmalte de minhas unhas está pela metade. Há cartas de amigos que precisam ser escritas. E eu estou postando no blog [e há pouco estava fazendo um teste pra saber se meu cérebro é masculino ou feminino, mas isso é assunto pra outro post].
Por que diabos a gente é assim? Ou, mais precisamente, por que todo demônio de segunda-feira eu fico assim? Normalmente sou uma pessoa pra lá de sistemática. Tenho agendas espalhadas me lembrando de tudo o que tenho pra fazer [e sim! Eu vejo minhas agendas todo o dia]. Tenho horários e dias da semana marcados pra tudo. Nunca esqueço de levar o lixo pra fora. Sempre respondo e-mails assim que eles chegam. Mas na segunda-feira, não há santo nem demônio que me faça esquecer da sutil arte da procrastinação. Ainda bem que a música é "Every day is like sunday" e não "Everaday is like monday"!
Toda Segunda penso em descobrir por que raios ela é tão perseguidora. Se Murphy criou alguma lei sobre ela. Se há algum carma cósmico em sua geração. Ou se é pura filhadaputagem comigo. Mas daí na terça eu volto ao normal, e deixo pra lá. Será que fazemos parte da Geração Garfiled? Será que somos tão influenciados por cartoons ao ponto de tomarmos para nós os hábitos de um gato gordo e laranja? [Em tempo: Eu amo Garfield!]. Não sei. Só sei que a segunda é uma filhadaputa! É sempre na segunda que eu derrubo pó de café no chão. Ou que quebro alguma coisa. Ou que me recuso a fazer minhas obrigações. Ou que perco o ônibus. Ou que sinto vontade de surrar algum estrupício [mentira! Essa última é recorrente em todos os dias da semana].
Eu não tenho problemas com o domingo. Afinal de contas, é dia de futebol e de ver meu São Paulo ganhar [ou empatar, como ontem. Maaaas, estamos na frente das galinhas!]. No domingo eu fico preguiçosa, assumo, mas sorridente. Na segunda fico preguiçosa e mal humorada. E olha que eu nem tenho que acordar às 6 da matina pra trabalhar! Lembro quando tinha. Ócéus! Que inferno era acordar segunda de manhã e ir dar aula pra adolescentes tão sonolentos quanto eu! Até que inventei a hora da soneca. Deixava eles "descansarem os olhos" por 10 minutos. Uma baita invenção, já que depois da soneca, os bichinhos não podiam reclamar que estavam com sono...
Eu juro que já tentei amar a segunda-feira. Pra ver se mudava alguma coisa. Mas quá! Com essa vadia não tem nem amor nem ódio. É sempre o mesmo martírio. Hoje já tomei um litro de café. Já fumei incontáveis cigarros. Já ouvi Beethoven, Black Sabbath, Adoniran Barbosa. E nada de animar. No fim das contas, eu tenho duas opções: dormir até amanhã [se o Garfiled pode, oras!] ou ir lavar a roupa. Como depois de 1 litro de café eu não vou conseguir dormir, o jeito é ir lavar a roupa. Mas, quer apostar quanto que assim que eu estender a roupa bonitinha no varal vai começar a chover?! Elaiá...

E você, também tem problemas com a Segunda-feira?

Companhia "musical": o barulho infernal da obra no terreno ao lado [que, aliás, foi o meu despertador.]

domingo, 5 de abril de 2009

A arte do respeito

Desses meus mais de um quarto de século, passei 20 sendo estudante e 10 sendo professora. Me lembro com saudades da minha primeira professora, assim como da minha primeira turma de alunos. Ser aluna e professora sempre foi uma mistura pra mim, nunca consegui separar uma da outra, e meu respeito por ambos sempre foi o mesmo. E hoje, quando presencio essa guerra que se instalou, na qual professores agridem alunos, e alunos mandam professores para o hospital, me sinto muito triste e um pouco perdida. Ser professor não é apenas ficar de um lado diferente da sala de aula e deter a autoridade. Ser professor é saber compartilhar o conhecimento da vida. É respeitar aqueles olhinhos que, sonolentos, lhe dão atenção. Ser aluno não á apenas sentar entediado nas carteiras da sala de aula. É ter vontade de aprender tudo sempre. É construir seu conhecimento de vida por dentro e por fora do mundo da escola. Ser professor ou aluno é ser humano. É ter o direito de errar e o dever de reconhecer seu erro. Porque ambos compartilham grande parte de seus instantes, de seus sonhos, de suas vidas. Somos parte daqueles com os quais convivemos. Deixamos neles nossas impressões e ficamos com um pouco das deles. Numa troca infinita, onde a arte do respeito é a única coisa que garante se repousaremos tranquilamente no fim do dia, e teremos bons sonhos.

Especialmente destilado para o Tudo de Blog [Mais respeito aos professores? A juventude está perdendo os limites hoje em dia? Não há mais respeito nas relações desse tipo? Os professores, por sua vez, têm culpa nisso tudo? Eles abusam do poder e acabam atraindo esse tipo de comportamento?]

Companhia musical: Moon River - Frank Sinatra

Idade de ser feliz [Mário Quintana]

"Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa."


Achei essa citação do Quintana linda! E achei por bem compartilhá-la. Afinal de contas, presentes devem ser compartilhados...

sábado, 4 de abril de 2009

1001 Discos para ouvir antes de morrer


Eu amo música. Ouço desde o acordar até o adormecer. Posso até dizer que minha vida tem trilha sonora. E quando lançaram o livro "1001 Discos para ouvir antes de morrer" foi paixão à primeira vista. Também amo listas. Sejam elas de "pro/con", sejam de "to do", sejam de melhores livros, melhores filmes. E a lista desse livro é incrível! Claro que não agrada a todos, mas chega bem perto. E, qual não foi minha surpresa ao encontrar no blog NoBrasil a lista completa dos discos pra baixar. Ô alegria! E como alegria deve ser compartilhada, cá estou eu divulgando a página. Divirtam-se! Eu já comecei a odisséia, afinal de contas, são 1001 discos.... Só acho que o título do livro deveria ser "1001 discos para viver". AQUI o link pros dowloads [todos em easy share]. Enjoy! E coloque trilha sonora em sua vida também!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Brilho eterno de uma mente sem lembranças


"Muitos caras acham que eu sou um conceito, ou que eu os completo, ou que vou dar vida a eles. Mas sou só uma garota ferrada procurando pela minha paz de espírito". (Clementine em diálogo com Joel)

Premiado com o oscar de melhor roteiro original, Charlie Kaufman já seria um ótimo e singular motivo para assistir o filme. Responsável pelos roteiros de filmes inteligentes e controversos como "Adaptação" e "Quero ser John Malcovick", Kaufman é um roterista fora dos padrões. Muitos diriam insano. Outros (aqueles que sempre preferem ver finais felizes e a sequência nascer-crescer-morrer) exclamariam o velho e trágico "sem pé nem cabeça". Eu prefiro deixar como opinião as retiscências que ele sempre deixa em minha mente.
Poderíamos dizer que seu maior e melhor parque de diversões é a mente humana. Em "Quero ser John Malcovick", Charlie brincou com a teoria de que "eu é um outro", [há muito profetizada por Rimbaud]. Em "Brilho Eterno" ele brinca com o poder que nossas lembranças têm de comandar e transformar nossa vida.

Em um enredo não-linear, Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey) são um casal típico. A já conhecida lenda dos "opostos que se atraem". Mas em seu atrair, o casal acabou por distanciar-se a tal ponto que apenas uma limpeza geral no cérebro seria capaz de apagar "as pedras no caminho" que ambos deixaram um para o outro. E é exatamente isso que a impulsiva Clementine resolve fazer. Ela procura o Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson), cuja clínica é responsável por "apagar" as lembranças que já não são mais agradáveis e queridas.
Preciso abrir aqui um espaço para falar da atuação de Kate Winslet. Não é só o fato de ela ter sido indicada ao prêmio de melhor atriz que faz com que seja necessário abrir um parênteses para ela. Mas o fato de ela ter superado todos os meus preconceitos. Sim! Eu não gosto dela enquanto atriz, mas em "Brilho eterno" fui obrigada a aceitar que não haveria outra pessoa tão boa quanto para o papel. Winslet, de fato, assumiu a personalidade de Clementine. Uma garota tão cheia de vida, tão cheia de cor (afinal a personagem muda a cor do cabelo 4 vezes!), tão cheia de promessas, mas que no fundo é apenas mais uma alma querendo encontrar outra que a complete sem a excluir. O brilho nos olhos de Winslet é o mesmo que podemos ver em tantas outras mulheres a busca de todo mundo e de si mesmas ao mesmo tempo. Uma lembrança nas multidões.

Por falar em surpresas, Jim Carrey está irreconhecível! Sou fadada a admitir que ele também varreu meu preconceito com relação a ele pra debaixo do tapete. Nunca imaginei que ele pudesse fazer um papel tão sóbrio. Tão real. Tão...pouco exagerado! Joel é um cara normal, até demais. Tão sem surpresas, sem arroubos de emoções, que é difícil imaginar que Carrey conseguiria fazer com que isso fosse realmente real. Mas é. Tão insanamente como apenas um roteiro de Kaufman poderia conceber.

Depois de descobrir que Clementine o havia "deletado" de suas memórias, Joel decidi que fará o mesmo, afinal, porque diabos apenas ela teria o prazer da consciência tranquila ao dormir?!
E nesse mundo de ilusões, Stan (Mark Ruffalo), Mary (Kirsten Dunst) e Patrick (Elijah Wood), assistentes do Dr. Howard Mierzwiak na empresa "Lacuna Inc.", passam a noite com Joel para "passar uma borracha" em Clementine. E é nesse momento que as relações humanas são discutidas. Ao ver que tudo aquilo que viveu seria apagado, Joel já não tem mais certeza de que é isso que realmente quer. Tanto que começa uma divertida e surreal "caça" a suas lembranças. Um jogo de esconde-esconde entre ele e o Dr. Mierzwiak.
Mas, não seríamos assim mesmo todos nós, seres humanos que acordam com bafo e mau humor? Se brigamos com nosso "bem-amado", logo passamos a ser mal-amados querendo jogar todas as fotos no lixo (os mais dramáticos, as rasgariam). Mas se respirarmos calmamente, no segundo seguinte vamos nos lembrar de tantas risadas dadas ao pôr-do-sol, tantos suspiros e caras de bobos ao menor sinal de lembrança, e acabamos por guardar as fotos novamente, e sorrir, pensando que estamos vivos o bastante para sermos capazes de nos importar, de nos decepcionar e de recobrar as esperanças.
Joel entende que apesar de toda a desilusão, Clementine já fazia parte dele, e que se ele a apagasse, estaria apagando uma parte de si mesmo. Afinal, o que é o ser humano senão um reflexo e baú daquilo que viveu?! Daquilo a que foi, por vontade ou não, submetido?! Talvez pó e máquina.

Esse não é uma comédia-romântica de final feliz. É um suspiro da criatividade que ainda nos é ofertada no cinema atual, entre tantas mocinhas, vilãs e seus pares de sapatos e namorados. É uma dádiva aos cérebros que ainda se alegram em praticar o exercício de pensar.

Talvez, quando acabar o filme, você fique como eu, olhando para os créditos, com a sensação de que alguma coisa na sua mente foi alterada. Ou então você vai desligar a tv e concluir que precisa de pelo menos mais uma ou duas vezes para entender o filme. Mas de uma coisa você pode ter certeza, sua mente nunca mais será a mesma depois do passeio dado em uma montanha russa kaufmaniana.

Sua benção, Godfather.

Durante minha vida inteira tive heróis anônimos, daqueles sem uniformes super secretos ou dispostos a salvar o mundo no alto de seus super-poderes. Mãe, pai, professores, todos heróis do dia-a-dia... Mas, ao ter que escolher um herói notório, que todo mundo conheça, tive que vasculhar meu coração de gengibre, e, depois de muitas listas, encontrei Don Corleone. Primeiro Don Vito, aquele carcamano calmo e devotado à família, inclusive àquela família que não era de sangue. Depois Don Michael, forte, inteligente, maquiavélico, mas, acima de tudo, um homem de família.
Eles podem ter sido capazes de comandar assassinatos. Mas não há como não respeitá-los, e não admirar em Don Corleone seu amor pela família, e sua perspicácia em perceber que a vida é um jogo de xadrez , no qual o rei está sempre com sua cabeça a prêmio se não souber comandar e proteger seus peões e sua rainha...
E você, tem um herói?

Companhia musical: Trilha sonora de O Poderoso Chefão.

Especialmente destilado para o Tudo de Blog [Quem é seu heroi? E por quê? Eles existem?]
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