quinta-feira, 2 de abril de 2009

Brilho eterno de uma mente sem lembranças


"Muitos caras acham que eu sou um conceito, ou que eu os completo, ou que vou dar vida a eles. Mas sou só uma garota ferrada procurando pela minha paz de espírito". (Clementine em diálogo com Joel)

Premiado com o oscar de melhor roteiro original, Charlie Kaufman já seria um ótimo e singular motivo para assistir o filme. Responsável pelos roteiros de filmes inteligentes e controversos como "Adaptação" e "Quero ser John Malcovick", Kaufman é um roterista fora dos padrões. Muitos diriam insano. Outros (aqueles que sempre preferem ver finais felizes e a sequência nascer-crescer-morrer) exclamariam o velho e trágico "sem pé nem cabeça". Eu prefiro deixar como opinião as retiscências que ele sempre deixa em minha mente.
Poderíamos dizer que seu maior e melhor parque de diversões é a mente humana. Em "Quero ser John Malcovick", Charlie brincou com a teoria de que "eu é um outro", [há muito profetizada por Rimbaud]. Em "Brilho Eterno" ele brinca com o poder que nossas lembranças têm de comandar e transformar nossa vida.

Em um enredo não-linear, Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey) são um casal típico. A já conhecida lenda dos "opostos que se atraem". Mas em seu atrair, o casal acabou por distanciar-se a tal ponto que apenas uma limpeza geral no cérebro seria capaz de apagar "as pedras no caminho" que ambos deixaram um para o outro. E é exatamente isso que a impulsiva Clementine resolve fazer. Ela procura o Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson), cuja clínica é responsável por "apagar" as lembranças que já não são mais agradáveis e queridas.
Preciso abrir aqui um espaço para falar da atuação de Kate Winslet. Não é só o fato de ela ter sido indicada ao prêmio de melhor atriz que faz com que seja necessário abrir um parênteses para ela. Mas o fato de ela ter superado todos os meus preconceitos. Sim! Eu não gosto dela enquanto atriz, mas em "Brilho eterno" fui obrigada a aceitar que não haveria outra pessoa tão boa quanto para o papel. Winslet, de fato, assumiu a personalidade de Clementine. Uma garota tão cheia de vida, tão cheia de cor (afinal a personagem muda a cor do cabelo 4 vezes!), tão cheia de promessas, mas que no fundo é apenas mais uma alma querendo encontrar outra que a complete sem a excluir. O brilho nos olhos de Winslet é o mesmo que podemos ver em tantas outras mulheres a busca de todo mundo e de si mesmas ao mesmo tempo. Uma lembrança nas multidões.

Por falar em surpresas, Jim Carrey está irreconhecível! Sou fadada a admitir que ele também varreu meu preconceito com relação a ele pra debaixo do tapete. Nunca imaginei que ele pudesse fazer um papel tão sóbrio. Tão real. Tão...pouco exagerado! Joel é um cara normal, até demais. Tão sem surpresas, sem arroubos de emoções, que é difícil imaginar que Carrey conseguiria fazer com que isso fosse realmente real. Mas é. Tão insanamente como apenas um roteiro de Kaufman poderia conceber.

Depois de descobrir que Clementine o havia "deletado" de suas memórias, Joel decidi que fará o mesmo, afinal, porque diabos apenas ela teria o prazer da consciência tranquila ao dormir?!
E nesse mundo de ilusões, Stan (Mark Ruffalo), Mary (Kirsten Dunst) e Patrick (Elijah Wood), assistentes do Dr. Howard Mierzwiak na empresa "Lacuna Inc.", passam a noite com Joel para "passar uma borracha" em Clementine. E é nesse momento que as relações humanas são discutidas. Ao ver que tudo aquilo que viveu seria apagado, Joel já não tem mais certeza de que é isso que realmente quer. Tanto que começa uma divertida e surreal "caça" a suas lembranças. Um jogo de esconde-esconde entre ele e o Dr. Mierzwiak.
Mas, não seríamos assim mesmo todos nós, seres humanos que acordam com bafo e mau humor? Se brigamos com nosso "bem-amado", logo passamos a ser mal-amados querendo jogar todas as fotos no lixo (os mais dramáticos, as rasgariam). Mas se respirarmos calmamente, no segundo seguinte vamos nos lembrar de tantas risadas dadas ao pôr-do-sol, tantos suspiros e caras de bobos ao menor sinal de lembrança, e acabamos por guardar as fotos novamente, e sorrir, pensando que estamos vivos o bastante para sermos capazes de nos importar, de nos decepcionar e de recobrar as esperanças.
Joel entende que apesar de toda a desilusão, Clementine já fazia parte dele, e que se ele a apagasse, estaria apagando uma parte de si mesmo. Afinal, o que é o ser humano senão um reflexo e baú daquilo que viveu?! Daquilo a que foi, por vontade ou não, submetido?! Talvez pó e máquina.

Esse não é uma comédia-romântica de final feliz. É um suspiro da criatividade que ainda nos é ofertada no cinema atual, entre tantas mocinhas, vilãs e seus pares de sapatos e namorados. É uma dádiva aos cérebros que ainda se alegram em praticar o exercício de pensar.

Talvez, quando acabar o filme, você fique como eu, olhando para os créditos, com a sensação de que alguma coisa na sua mente foi alterada. Ou então você vai desligar a tv e concluir que precisa de pelo menos mais uma ou duas vezes para entender o filme. Mas de uma coisa você pode ter certeza, sua mente nunca mais será a mesma depois do passeio dado em uma montanha russa kaufmaniana.

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu sou mto coração mole, não posso ver fimes assim, choro e odeio chorar... mas nunca vi uma descrição tão profunda como a sua! Parabéns! Bjins

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  3. Este filme com certeza é o meu preferido! Amo amo amo! Sempre que eu assisto descubro alguma coisa que não tinha descoberto antes!
    Adorei sua descrição!

    Bjos

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  4. amei o blog, cara, vc escreve muito bem *-*'
    se puder da uma passada no meu. beijos

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  5. Nossa, esse fime é muuuito bom. Adorei tb!!!
    Beijos e um maravilhoso fim de semana!

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  6. Eu assisti esse filme domingo. Achei interessante, porém um pouco cansativo, acho que algumas cenas deveriam ser mais curtas e deveriam colocar outras, não sei.
    Mas com certeza é um filme plausível e o Jim e a Kate que o tornam assim.

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