quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ovelhas Negras [Caio Fernando Abreu]


"Remexendo, e com alergia ao pó, de dezenas em pastas em frangalhos, nunca tive tão clara certeza de que criar é literalmente arrancar com esforço bruto algo informe do Kaos. Confesso que ambos me seduzem, o Kaos e o in ou disforme. Afinal, como Rita Lee, sempre dediquei um carinho todo especial pelas mais negras das ovelhas".

Assim Caio termina a introdução de seu livro "Ovelhas Negras", compilado em 1995, com contos que vão de1962 até 1995, um ano antes da morte do escritor.
Segundo Caio, o livro é uma espécie de "(...) autobiografia ficcional, uma seleta de textos que acabaram ficando de fora de livros individuais. Alguns, proibidos pela censura militarista; outros, por mim mesmo, que os condenei por obscenos, cruéis, jovens, herméticos, etc. Eram e são textos marginais, bastardos, deserdados. Ervas daninhas, talvez(...)".
Caio Fernando Abreu é, sem dúvida, um dos escritores mais contundentes e apaixonantes da sua geração. Seus contos são poesia cotidiana, recheada do fel que é sorvido pela ironia humana, pequenos pedaços de uma colcha de retalhos. Retalhos que juntos têm uma força inimaginável.
Os deste livro em especial são viscerais. Um verdadeiro tiro no peito. Daqueles que te fazem morrer bem devagarinho, lembrando de todos os momentos em que você queria ter vivido, mas se escondeu em sua máscara de cordeirinho.
"Parece incrível se estar vivo quando não se acredita em mais nada". O sentimento de perda nos livros desse autor sempre são profundos e doidamente presentes, e em "Ovelhas Negras" eles ganham um reforço especial. São esboços, de pensamentos talvez vãos, sujos pelas impurezas do não-branco das cidades.
Esses textos tiveram que ser deixados na gaveta de Caio por alguns bons anos, para que ficassem protegidos do lobo mau da crítica e incompreensão daqueles que não se bastam com um sorriso ao pôr-do-sol.
Embora seja deveras significativo, Caio ainda é desconhecido pela maioria. Apenas alguns relegados estão acostumados com suas palavras de aço e pluma.
Os textos de "Ovelhas Negras" são o contrasenso, o marginalismo, o nonsense da literatura de Caio. Todas as suas palavras ferem nossa alma, lembrando-nos que todos os dias são cinzentos se não olharmos pelo caleidoscópio da ilusão de ser.Vivo, lúcido, inconseqüente, imoral...humano.
Leia, e depois prepare-se para nunca mais deixar de lembrar dele em seus grandes e pequenos momentos. Onde as negras ovelhas não são as renegadas, mas as bem-vindas.

Companhia musical: Ovelha Negra - Rita Lee [Clichê, mas imprescindível]

Um comentário:

  1. Legal vc falar do CAIO,,ele foi e sera uma pessoa belissima, ele é meu cunhado.. hoje descobri o seu blog...

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