sábado, 2 de maio de 2009

Nesses dias...

Há dias em que, mesmo a mais verborrágica das pessoas, se vê sem palavras. É nesses dias que o delete fica até meio emperradinho, de tanto escrevermos e apagarmos. Nesses dias meio indecisos, em que somos tomados por tantos sentimentos, que fica difícil escolher um só para transformar em palavras. Nesse dia, em que seus dedos estão congelando graças ao frio. Em que seus olhos parecem meio perdidos, pensando em alguém que está distante. Em que sua vontade é, ao mesmo tempo, falar com alguém e aquietar sua alma. Em dias como esse, o melhor a se fazer é pedir licença e pegar emprestadas as palavras alheias. Por isso, hoje deixo aqui um poema lindo de Marina Colassanti. Pois hoje me sinto agitada e silenciosa demais. Num desequilíbrio que me impede de escrever, mas me obriga a sentir...

Eu sei mas não devia [Marina Colassanti]
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Espero que uma hora paremos de nos acostumar. Mesmo que pra isso tenhamos que botar a cara a tapa, e sentir o peito mais apertado. Mesmo que pra isso seja necessário gastar mais vida. Afinal de contas, de que adianta proteger a vida e deixar as esperanças morrerem com as janelas fechadas?

Companhia musical: Whats up - 4 Non Blondes

3 comentários:

  1. Sei bem como é se sentir assim...
    Me apaixonei pelo texto... me fez perder as palavras...

    Bjos

    ResponderExcluir
  2. O COSTUME, É MESMO O QUE SE PODE CHAMAR DE ROTINA... E A ROTINA, INCOMPREENDIDA, NÃO CONSEGUE ENTENDER QUE SE INOVAR TODOS OS DIAS CONTINUARÁ A SER ELA MESMA, UM POUCO MAIS FELIZ
    AMEI O TEXTO E PEÇO AUTORIZAÇÃO PRA REPRODUZIR NO ME BLOG

    BEIJO

    ResponderExcluir
  3. Ah, lindona, me poupe!! Você a rainha dos textos maravilhosos com vergonha de escrever? Coitada de mim então! Rs!
    Menina, me emocionei muito com esse texto! Muito lindo e verdadeiro, parabéns pela escolha!
    Um super beijo e uma maravilhosa semana para você lindona!

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