domingo, 3 de maio de 2009

Ser brotinho...

E hoje foi mais um dia em que me desequilíbrio me impediu de organizar os sentimentos em palavras. E nessa indefinição que me vem tomando conta, encontrei um definição perfeita. E mais uma vez peço licença e pego emprestadas as palavras de outrem. Esse texto do Paulo Mendes Campos é incrível. Duvido que haja uma mulher que não se reconheça em pelo menos uma linha que seja. Eu me reconheço no texto inteiro. É como se fosse um retrato meu. E, a partir de agora, se alguém pedir uma definição dessa tresloucada pessoa que sou, direi que sou brotinho.

Ser brotinho [Paulo Mendes Campos]
Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.

(Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15)



E vocês, também se consideram um brotinho?

Companhia musical: Put the blame on me - Rita Rayworth [Gilda]

6 comentários:

  1. "Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível"

    Essa parte é tudo heinn.

    E sim, em alguns trechos sou uma brotinho !

    Beiijos.

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  2. Ahh, que texto lindoo! Realmente, é impossível não se identificar com algumas linhas... Acho que pode ser considerada um brotinho tbm.. hahahahahaha.. xD
    Ahhh, que bom que vc gostou dos presentes... hehehe ^^ e do texto! Pois é, mas qd eu não tenho nada muito inspirador pra postar "roubo" os temas do TDB.. xD
    bjusss

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  3. Noooossa, Patrícia!
    Que texto massa!
    Lógico que me considero brotinho! Principalmente porque muito do que se disse no texto ser brotinho, foge do padrão... e eu dou mesmo muitas fugidas. Tão bom... :)


    Ei! Lençois bordados e taças de cristal?? Que lindo, hein? Arrasou!
    Se não vai deixar tudo isso para alguém, se acaba e usa tudo, mulher! Todo dia, toda hora, todo instante... :D

    Beijos!

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  4. ENTÃO VC ETA SE SENTINDO ASSIM, E EU TAMBÉM E ELAS... E ACHO QUE ANDAS POR ENTENDER QUE NÃO AGUENTAMOS MAIS OUVIR MORANGUINHOS E FILES E CAVIAR E BANANINHAS E TANTOS INDINHAS
    KKKKKKKKKKKKKKKKK
    BEIJINHO

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  5. Menina não tão má, rs

    Adoro os textos do seu blog, viu?

    Bjos e boa semana

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  6. Olá brotinho, rs. Adorei o texto e acho que tb sou um brotinho. Quanto ao medo de não gostarem do seu texto, pura bobagem. Isso é impossível!! Você tem o dom, mulher!
    Super beijo da amiga,
    Isa

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