sábado, 13 de junho de 2009

Irmãs.

Patrícia pegou sua xícara de chá de canela [Acho melhor parar de tomar tanto café à noite...] e sentou em frente ao computador. Já era hora de seu encontro diário com a família pela tela do computador. Assim que entrou no msn, a mãe já pediu pra ligar o microfone e a câmera [Ê preguiça hein Dona Maria!]. Ao ver as primeiras imagens da webcam, Patrícia percebe que sua irmã está deitada no sofá, mas ao olhar atentamente, vê em seu pé um gesso. É o pai que lhe dá o boa noite, enquanto vê sua mãe levantando a irmã do sofá. Pergunta o que aconteceu. -Sua irmã resolveu bater num caminhão. -Como assim num caminhão? - Ela estava voltando pra casa, e o caminhão bateu nela na rotatória. Esqueceu que a moto é menor que o caminhão. Agora 'tá aqui, enchendo o saco porque 'tá com dor.
Patrícia conhece bem o pai. Sabe que o velho nunca deixa as emoções escaparem, e que sempre faz piadas para que os outros não percebam o quanto ele está sofrendo por dentro. Conhece e se reconhece, porque também é assim. - Ainda bem que a irmã é gorda! A gordura deve ter ajudado a não ter tanto dano! Todos riem, inclusive a irmã, ali, deitada no sofá. O pai conta exatamente o que aconteceu. Diz que a irmã quebrou uma parte da perna que prende o tornozelo ao pé, e que vai ser obrigatório fazer cirurgia. Mostra pela câmera o estrago feito nas costas, nos braços e nas pernas, que estão em carne viva, devido ao tombo. Diz que a moto deu perda total. Patrícia brinca, -Quem sabe depois do tombo o cérebro não cria um pouco mais de juízo! O pai ri, enquanto conta que teve que dar banho na irmã, porque ela não consegue ficar em pé sozinha. Enquanto isso vê a mãe passando anti-séptico nas costas da irmã, e essa chora e faz cara feia. A mãe assopra, na esperança de diminuir a dor da filha. Patrícia sabe que se pudesse, a mãe tomaria a dor toda pra ela.
Conversa então com a mãe. -A senhora 'tá bem, mãe? Tem que cuidar da pressão! - 'Tô bem sim. Já tomei dois calmantes de uma vez. O pai brinca, dizendo que quase que teve que levar a mãe pro hospital também. E então conversam sobre o tempo, de como é bom que faça calor em Campo Grande, pois se o acidente fosse no frio, poderia doer mais. A irmã reclama de dor. Patrícia diz que ela é muito reclamona. -É porque não é você que está sentindo a dor! - É claro que não sou eu! Eu não ando de moto, uai! A mãe dá risada. Patrícia diz que está tarde, que tem que dormir. - Se precisar de alguma coisa, me avisa mãe! Se despede de todo mundo. Diz boa noite e fecha a janela do msn.
E então Patrícia pega uma xícara de café [Que se foda essa história de não tomar café à noite!], acende um cigarro e desaba. Lágrimas grossas e quentes começam a descer de seus olhos, nublando sua visão. Na verdade Patrícia não precisava dormir. Sabia que não ia conseguir dormir tão cedo. Mas o sangue dos Pirota não chora em público, principalmente quando o público é a família, que também tenta ser forte apesar de tudo.
Patrícia se lembra de quando a irmã nasceu. Ela tinha 3 anos. Se escondeu debaixo da cama [costume comum quando era criança] , e logo que a irmãzinha chegou em casa fez cara feia e disse que queria um irmão pra brincar de bola! Se lembra de quando eram crianças, e moravam num bairro muito humilde, numa cidade estranha, longe dos avós, longe do pai que tinha que trabalhar a semana toda em um caminhão para lhes sustentar. Era só ela, a mãe e a pequena irmã. Nessa época a irmã era muito fraca, muito doente. E Patrícia era muito sozinha, não podia brincar como uma criança normal, pois tinha uma mancha no cérebro, que podia lhe matar caso levasse algum tombo; passava a maior parte do tempo brincando de escolinha com as bonecas, e os livros que, para ela, tinham vida.
Patrícia se lembra de quando cresceram, e se tornaram mais diferentes do que nunca. Patrícia sempre às voltas com livros e mais livros, e a irmã sempre em companhia de namorados. E então na adolescência as guerras se tornaram constantes, e as diferenças abismais. Enquanto Patrícia escutava rocknroll, a irmã dançava em bailes sertanejos. Enquanto Patrícia se preparava para o vestibular, a irmã pensava em casar com o namorado de muito tempo. Patrícia terminou a faculdade, e a irmã declarou que não iria fazer vestibular. As guerras aumentaram cada vez mais.
Patrícia pensa em o quanto as escolhas as afastaram. Lembra de quantas vezes criticou a irmã por dar mais valor ao namorado do que à vida acadêmica. Lembra de quantas vezes criticou as roupas da irmã [Você 'tá parecendo aquelas vileirinhas funkeiras da novela!]. Lembra da única vez em que ela e a irmã saíram juntas depois de adultas. E então as lágrimas voltam. Com a força e a intensidade que só os laços de sangue são capazes de produzir.
Patrícia então se dá conta de que poderia ter perdido a irmã. De que não poderia ter sido só um pé quebrado, e sim uma vida quebrada. Nesse momento esquece as diferenças. Sorri ao lembrar de quando ensinou a irmã a jogar bola. De quando fez com que ela se tornasse são-paulina também. Das poucas vezes em que brincaram quando crianças. De como aquela menina mirradinha se tornou um mulherão forte. E as lágrimas não cessam.
Patrícia queria poder dizer pra irmã o quanto a ama. Que apesar de todas as diferenças, ela sente orgulho da irmã. Que mesmo que elas não tenham feito as mesmas escolhas, isso não importa, já que a irmã é feliz com o caminho que escolheu. Queria abraçar a irmã, e dizer que toda a dor vai passar. Queria dizer que sem ela a vida não faria o menor sentido. Queria dizer que as piadas, as tirações de sarro, são um modo meio dosavessos de dizer eu amo você. Queria pedir desculpas por não ter sido a melhor irmã mais velha do mundo. Queria estar lá, ao lado da mãe e do pai, para ajudar a diminuir o fardo. Queria não estar sozinha, e longe da família. Queria dizer pro pai e pra mãe, que apesar de estar feliz com tudo o que está conseguindo, sua vida não tem a menor graça longe das asas da família. Queria dizer que vive pela metade, e que a outra metade estava ali, do outro lado da tela, a mil quilômetros de distância. Queria dizer que apesar de sempre falar que está tudo bem, nunca está tudo bem, porque sente muita falta de casa.
Mas Patrícia não diz. Se lembra do dia em que se mudou para Curitiba. Era muito cedo, a irmã ainda estava dormindo. Mas ficou meio acordada pra dar tchau. Nenhuma das duas chorou. Nenhuma das duas disse eu te amo. Apesar de as lágrimas e as palavras terem ficado ali, entaladas na garganta. Patrícia sabia que a vida não teria mais graça sem as brigas com a irmã, porque aquele era um modo que elas tinham descoberto pra dizer o quanto amavam uma a outra. Lembra de quando os pais e a Gigi a deixaram em Curitiba. Da despedida sem lágrimas. Mas assim que se viu sozinha no quarto, Patrícia chorou uma vida. Não sabia se ia conseguir caminhar longe daqueles que sempre a levaram pelas mãos.
Mas Patrícia não disse nada disso a irmã, e nem aos pais. E enquanto escrevia esse texto, ficava pensando que talvez nunca tivesse a oportunidade de dizer. Pensava que hoje, num sábado em que o sol brinda o céu de Curitiba, poderia estar chorando pela perda irreparável. E o que mais lhe dói não é o fato do que poderia ter sido, mas o de nunca ter dito à irmã o quanto a ama. Sabe que ainda terá muitas oportunidades. Mas também sabe que quando for pra casa dos pais, e encontrar a irmã lá, na cama [pois vai ter que ficar de cama pelo menos três meses depois da cirurgia] vai fazer piadas, dar uns tapinhas na cabeça dela, e implicar com aquela cor de cabelo horrorosa que ela escolheu.
Mas Patrícia sabe que a irmã vai reconhecer o gesto, e vai saber que aquilo é amor. Pois em sua família, o amor é expresso em forma de gestos, e não de palavras. É através das coisas feitas, e não ditas, que sua família mostra o quanto se ama. E mesmo Patrícia, que vive no mundo das palavras, quando se trata da família, é apenas sentimentos...

Companhia musical: More than words - Extreme / The blower's daugther - Damien Rice

Companhia literária: "De cada luta ou repouso me levantarei forte como um cavalo jovem" (Clarice Lispector)

5 comentários:

  1. Menina! Até pausei o dvd do Los pra poder ler vc! Juro que quase chorei! E me lembrei muito das minhas manas que graças a Deus hj vivem juntas pra dizer eu te amo às avessas... rs
    Eu vivo querendo ir embora, mas sei que sentiria uma puta falta da minha família, mesmo sendo ela todatorta...
    Beijão Patty, fica com Deus
    =*

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  2. Poxa, fiquei muito emocionada com o seu texto. Juro que até senti como se eu que estivesse longe da família... Olha, eu morro de medo de moto, tenho trauma, não posso pensar em subir em uma... Acho muito arriscado sabe.. mas apesar dos graves ferimentos, graças aos bom deus sua irmã tá sã e salva né? Aqui em BH é o caos... Minha irmã conta que chegam uns 10 feridos em acidente de moto pot dia no pronto socorro.. Horrível... =[[[
    E é bom chorar e sentir falta e desabafar, declarar esse amor que vc deixa assim, meio guardado né? Não entendi a história da mancha no cérebro, oq era?
    Texto ótimo viu.. Emocionante demaiss!!
    bjssss

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  3. glória, glória Aleluias!!!!! Ela escapou, Deus é maravilhoso...já agradeceu a Êle pelo escape concedido a tua irmã? e viu como esse lamentável incidente veio de encontro às minhas palavras, sobre sonhos, expectativas trajetórias desenhadas para o futuro? A vida é hoje, é agora...o amanhã está muito longe!
    Me emocionei com teu texto; você brinca com as palavras como em uma ciranda, que roda faceira...assim é tua maneira de escrever, narrar, relatar...
    Caramba, enquanto lia não pude deixar de rir quando " da mancha em seu cérebro"... a medicina era muito atrasada...alí deviam estar todos os neuronios reunidos á hora do exame, confabulando como trabalhariam em benefício a teus pensamentos e idéias...mancha? ahahah só rindo; acho que gostaria de ter essa mancha para ordenar na escrita tudo o que me passa nos pensamentos..e viva a mancha! a verde também ahahaha e vc é sao paulina..héca di meléga como dizem meus netinhos!!!!!
    Quando vc falar com a familia, hoje, mande meu abraço amigo; minha solidarierdade por esse momento difícil...
    Pois é nêga, é uma pena a distância que por circinstãncias outras, nos afastam do convívio familiar e um hip hip hurra a bil gates que nos permite a proximidade ainda que sem o " toque" virtual mas o que os olhos enxergam já dizem mais ou quem sabe dizem tudo...
    Um viva á vida! um viva à nova chance que tua irmã terá ..um viva ao milagre da proximidade pois através dele ´pude conhecer uma minininha doce, leve, poeta, escritora, sensível..obrigada pela amizade querrrida...cada dia te admiro mais e torço por tuas conquistas!
    beijos e uma excelente semana!
    chicabum

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  4. Tenho uma relação diferente com minha irmã, somos mais próximas...
    Mas os olhos encheram de lágrimas daqui enquanto eu lia ao texto e pensei muito forte na minha irmã... Até vou mandar o texto pra ela.
    Bjitos!

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  5. Patrícia, fiquei com o coração apertado ao ler teu texto. Quem sou eu para te dizer o que fazer ou lidar com os sentimentos? Ninguém! Mas olha só, a vontade que tive enquanto lia o texto era de dizer a você: Patrícia, ligue para sua irmã só para dizer que a ama!

    Já te falei que perdi minha irmã? Acho que sim... já devo ter comentado por aqui...

    Eu também tive na adolescência uma relação cheia de diferenças com minha irmã, porque eu também tinha o jeitão “nerd”, que muito ligava para os estudos e minha irmã? Namorava muito, saia muito e dizia que eu era “anti-chic”...kkkk... veja você, mais algumas semelhanças entre nós duas.

    O fato é que minha irmã engravidou e, como parece ser natural, a gravidez traz um pouco mais de serenidade. Minha irmã passou a ter uma vida mais pacata, me tomou por madrinha da filha e, com isso, nos aproximamos. Nos sabíamos amando uma a outra, todos os irmãos se sabem queridos um do outro, mas a gente também não falava “eu amo você” com todas as letras. No dia em que me despedi dela, quando eu vinha morar no interior de SP, ela foi quem me disse que me amava. Fiquei surpresa com aquilo, mas fui tomada de felicidade e não perdi a oportunidade de dizer a ela que a amava também e a abracei forte.

    Infelizmente perdi a minha irmã 5 meses depois, mas a última lembrança que tenho dela viva e olho no olho foi é a desse abraço gostoso seguido dos nossos “eu te amo”. Não quero imaginar ter perdido a minha irmã sem que pudéssemos ter dito isso uma para a outra. Agora, nesse momento do meu comentário, minhas lágrimas correm só de imaginar a sensação ruim se isso tivesse acontecido.

    É como eu te disse no início do texto, não sou eu quem vai te dizer o que fazer, mas se você tem a oportunidade de estar com sua irmã e sente vontade de falar, fale! Não perca essa chance... daria tudo para ter minha irmã viva e repetir essa frase centenas de vezes...

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