sexta-feira, 19 de junho de 2009

Tem dias que não dá...

Quem me conhece sabe que eu não reclamo da vida à toa. Mesmo passando pelas mais insólitas situações [afinal de contas, eu sou o ser da nuvem cinza!], sempre tento dar risada, racionalizar, descobrir coisas boas por trás das peças que a vida me prega... Mas tem dias que não dá! Tem dias que eu choro, deitada na minha rede, e derramo daquelas lágrimas bem grossas, que dóem quando saem dos olhos, de tantos sentimentos que elas carregam em si. Parece que há dias em que não basta ser forte. Que a vida nos exige mais do que conseguimos dar. Que nem uma muralha consegue se manter em pé.
Parece que minhas lágrimas vêm em estações. Passa um período de seca, de estiagem, e então começam a chover sentimentos em meus olhos. É como se eles fossem se acumulando, se acumulando, e uma hora não coubessem mais e resolvessem sair pra brincar todos juntos.
Sei que as lágrimas não duram pra sempre. Aliás, essa é uma das coisas que discordo do mestre Vinícius... Pra mim, tristeza tem fim sim. Ela vem, como uma tempestade daquelas de inundar as ruas, mas depois passa. Muitas vezes deixando destroços, mas passa. E quando vier a próxima, já não vai ser igual, já não vai ser a mesma...
Mas o difícil é enfrentar a tempestade sozinha. Sem nenhum guarda-chuva. Só você ali, andando a esmo, tentando achar um lugar pra se esconder. Molhando a alma... É difícil. E, por muitas vezes, dá vontade de pensar que é impossível. Porque, talvez, pensar que é impossível reconforte. Se acomodar é sempre reconfortante. Mas nunca o suficiente. Mesmo com os olhos nublados pela tempestade eu me impeço de me acomodar. De me acostumar.
Tem dias que não dá pra sorrir. Por mais que você queira. Por mais que você tente. Por mais que você esbraveje com o espelho. Tem dias que nem o companheiro Marlboro lhe alivia a solidão. Tem dias que nem a cerveja gelada lhe tirar o engasgado da garganta. Tem dias que a única saída é se render à tempestade... Se entregar a ela e esperar, de olhos fechados, que ela passe.
E nessas tempestades minha racionalidade se esvai. De nada adianta meu sobrecarregado cérebro dizer que são hormônios, que são conexões entre córtex, que deve ser apenas um pane elétrico no sistema nervoso. Não adianta o pobre cérebro se esgoelar pra me dizer que não é nada, que logo a manutenção acaba. Porque o barulho dos trovões me impedem de escutá-lo. Porque os raios me fazer tapar os olhos pra qualquer lógica que me impeça de sair da tempestade.
Enquanto isso fico eu ali, sentada no meio-fio, esperando a chuva passar. Sem guarda-chuva, e sem coragem de procurar algum. Você não grita, porque tem medo de alguém escutar e vir te ajudar. E se alguém vier, você vai ter que explicar o porquê do grito. Mas você é forte demais pra admitir que gritou. Diz que deve ter sido alguém da rua de trás. Ou da vida de trás.
Essa noite tive um pesadelo. Daqueles em que você acorda gritando, suada, sentindo no corpo, assustada. Era como se meu cérebro estivesse reagindo, tentando me avisar que a tempestade viria. Mas eu apenas tomei um copo d'água, e, sonolenta voltei a dormir. Sem dar ouvidos ao cérebro que se matava de gritar tentando me avisar sobre a tempestade. Acordei como se tivesse levado uma surra. Mas resolvi que devolveria a surra pro dia, e que ele não me faria ficar dolorida sozinha. Mas tem dias que não dá...
Reza a lenda que depois da tempestade vem a bonança. O problema é esperar no escuro, sentada na chuva, enquanto a promessa da bonança fica no futuro. O problema é ser capaz de não notar as gotas que caem enquanto seu corpo treme de frio. O problema é sentir as pernas paralisadas enquanto se tem vontade de correr até o futuro pra encontrar a tal da bonança. Mas você não corre. Você se resigna e continua sentada debaixo da tempestade. Você se tranca em si mesma, e reza pra que nenhum príncipe a queira salvar de seu sono. Você queria apenas dormir. Mas tem medo dos mundos que irá visitar enquanto seus olhos estiverem fechados.
Nessas horas, você se sente o próprio José... Acha que Drummond olha direto em seus olhos enquanto lhe pergunta...
"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos, que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,

você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"
[Carlos Drummond de Andrade]

E então você já não sabe mais pra onde vai. Só sabe que tem que se levantar e ir. E vai indo. Vai indo. Até encontrar um caminho menos errado. Ou um caminho qualquer, no qual possa se livrar da tempestade. E então o dia amanhece, e vem o sol. Seus olhos cansados o reconhecem, mas se esquecem de agradecer. Você apenas tenta não cair. Você apenas tenta não fugir. Você tenta apenas continuar o caminho...
Mas tem dias...Ah...Tem dias que não dá...

Companhia musical: Nada pra mim - Pato Fu / José - recitado por Drummond [aqui]

Companhia literária: "Na minha casa hoje, nenhuma cadeira continua como estava ontem, pois eu já não sou o mesmo" [Fiódor Dostoiévski]

11 comentários:

  1. queridinha, diz o ditado que quando não se sabe que rumo tomar, por qual porta passar, não se deve tomar nenhuma decisão. Se os dias estão cinzentos, espere o nevoeiro passar. nada fica mais escuro que a meia-noite! mantenha a serenidade, alimente-se bem, coma um bom chocolate que ajuda a melhorar os niveis de serotonina e logo mais a alegria voltará a reinar em você..A vida é assim mesmo, tem dias em que um pedrisco representa uma rocha na nossa frente mas quando tudo passar, você verá que viu montros onde era apenas uma sombra!
    beijocas e um bom domingo

    ResponderExcluir
  2. olha, eu nem sei direito oq te dizer, pq estou um pouco na mesma sabe? devo até fazer um post no meu blog... mas até pra isso eu estou desanimada. Mas quero muito que passe toda essa fase pós-tempestade, pq o que eu conheço da Pátrícia é o bom humor, os textos hilários, que arrancam da gente risos, não lágrimas, que a gente pensa "que menina feliz" e não "que coisa triste"... seguir em frente, seca ou molhada, sei que somos capazes.. xD
    bjusss

    ResponderExcluir
  3. esse texto me lembra um passado um tanto distante, literariamente falando...
    Quando li o trecho "...que deve ser apenas um pane elétrico no sistema nervoso..." veio à minha mente a música Vital signs da banda Rush, a letra é bem interessante.
    Espero que vc consiga "reverter a polaridade" do circuito!!

    ResponderExcluir
  4. to nessas...
    demitida...
    pra piorar diploma de jor vale tanto qto papel de pão
    e afogada em Big Field...
    Bonança... venha logo!

    ResponderExcluir
  5. Ahn.. ja eu reclamo sempre.. coisa de menina entojadinha e dramática...rs

    "Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..E lembra-te:
    Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão."

    Em uma banquinha auto-ajuda perto de vc.. com dedicatória especial de Maíra..hahahahaha....

    Anime-se, mulher =)

    Beijos!

    PS: Que bom que gostou do meu relato de homem da csa.. se precisar de algma dica.. ahnn.. e camo a minha samambaia pra te ajudar.. pq.. bem..vc viu.. eu sou um desastre.. hahaha

    ResponderExcluir
  6. adorei.
    Posso copiar esse post no meu blog e te dar os créditos?
    Necessito ler isso todos os dias. É tão eu.
    bjs

    ResponderExcluir
  7. tem dias q da vontade é de ficar quieto,na sua... to mt assim, ultimamente... sds da sua 'casa'.... bjs

    ResponderExcluir
  8. Quando não tiver caminho, usa o caminho do cafuné com cimento na unha! =)

    ResponderExcluir
  9. Oi, Patrícia!
    Passando para dizer "oi", e torcendo que esteja se sentindo melhor. A sugestão que a Dolly te deu parece bem sensata... ;)

    Beijos e fique bem.

    ResponderExcluir
  10. AMEI esse texto... Ainda mais porque me identifiquei logo com o começo dele.
    Espero que o dia de hoje esteja melhor!
    Bjitos!

    ResponderExcluir
  11. Bom, qd passar um pouco da solidão que a chuva traz, lembre-se q a chuva tbm pode trazer coisas boas, como as pequenas poças pra gente pular. Sei que é fácil falar, mas pq não tentar pular nas poças que a tristeza e a solidão trazem?
    Espero que já esteja melhor ^^

    bjos

    ResponderExcluir

Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...