terça-feira, 24 de novembro de 2009

Livros e uma nova paixão.


Companhia Musical
Blue Moon - Ella Fitzgerald
As time goes by - Frank Sinatra
Blues boys tune - B.B. King
Groaning blues - Eric Clapton
Killing me softly - The Fugees
Companhia Literária
"Planejar a vida, ao contrário do que muitos pensam, não é uma forma de evitar emoção. É uma forma de deixar a porta aberta para que ela não precise arrombar você" [Martha Medeiros in Sur-pre-sa!]

Estava eu entrando no "corredor lavagem cerebral" do mercado para pagar a compra semanal de domingo quando... [Oi? Você não sabe o que é o "corredor lavagem cerebral"? É aquela maldição de corredor cheio de tranqueiras calóricas e caras que os supermercados fazem questão de colocar no caminho dos caixas de 30 unidades, pra que, sem que você se dê conta, acabe comprando o que não precisa] olhei um livro perdido no meio de revistas que falavam de assuntos tão importantes quanto a cor do vestido da fulana, ou o casamento do ciclano.



Era um pocketbook [eu amo pockets!] da Martha Medeiros. Estava sem preço, mas como eu estava perto do caixa, pedi pra moça verificar pra mim. Quando ela disse cinco reais, meus olhos se arregalaram e eu perguntei se ela tinha certeza. Cinco reais, ela disse novamente, com aquela coragem de quem já trabalhou 8 horas num domingo de sol e não queria ter trabalhado nem uma.

Pulei de alegria, pedi pra passar junto com a comida, e saí do mercado lépida e faceira com um livro da Martha Medeiros por CINCO REAIS! Quando disse pra moça que eu tinha ganho o dia, ela me olhou com cara de "O que será que essa mulher fuma?!". Acho que ela não compartilha do meu prazer de comprar livros bons e baratos. Talvez faça mais o tipo da moça que estava atrás na fila, segurando uma Contigo e comentando sobre a cor do vestido da fulana. Afinal de contas, tem leitor pra tudo nesse mundo.

Cheguei em casa pronta para devorar cada palavra, porque livro novo é como início de paixão: ávidos, queremos descobrir as nuances guardadas em cada entrelinha, os cheiros, os sons, as palavras ditas e desditas.

E sabe que livro velho também se assemelha à paixão? Mas daí tem que saber se foi paixão que deu certo ou não. Se deu certo, depois de um tempo acabada, se vai até a estante, lê-se as frases grifadas, os comentários das margens, rememora-se as boas passagens, e pode-se até sentir o cheiro de novo, ainda que na imaginação.

Agora, se foi paixão que não deu certo... Ah, é bem capaz de o livro nem estar mais na estante. Deve ter sido doado pra alguma escola, ou dado praquela prima insuportável que a gente tirou naqueles amigos secretos mais insuportáveis ainda...

Mas, voltando à Dona Martha... Eu já havia lido algumas crônicas dela, mas nada sistemático, nada com aprofundamento. E não é que no primeiro parágrafo a mulher me dobrou, botou dentro da bolsa, e me levou com ela pra onde quis? O livro que comprei se chama Trem-Bala, uma coletânea de crônicas de 1997-99. Ainda no supermercado, à espera dos amigos, li umas 3 crônicas, e percebi a cara de assustado do rapaz sentado no banco ao lado, quando me via sorrindo com um livro nas mãos.

Já reparou que algumas pessoas acham estranho alguém ler em um lugar que não seja uma biblioteca, ou dentro de casa? Se você senta em uma praça, numa tarde de sol, pra ler um livro, os transeuntes que passam por você ficam pensando em o quanto você deve ser solitária, e, ao invés de ficarem felizes por você estar se deliciando com um bom livro, ficam com pena por acharem que você deve ser uma coitada que só tem a companhia de meia dúzia de gatos e uma dúzia de livros.

Mal sabem eles que a melhor companhia está ali, sendo segurada entre nossas mãos. Bons autores são tão boas companhias quanto bons amigos. Nos fazem rir, nos emocionam com suas experiências, nos dão tapas de realidade necessários, nos aquecem quando estamos com frio. E quando digo bom, não me refiro ao cânone literário já há muito caduco. Me refiro ao que é bom pra você. Porque autores também são como paixões. Aquela que é boa pra mim, pode não ser boa pra moça do caixa do supermercado.

E eis que estou apaixonada por Martha Medeiros. Uma gaúcha de poucas mas apaixonantes palavras. Fiquei impressionada como ela consegue, em duas páginas, falar sobre tanta coisa, de um modo tão direto e poético ao mesmo tempo. E o mais inusitado é que, graças a deus, ela está viva!

Explico melhor... Eu tenho um namoro muito grande com aqueles que já se foram. Meus escritores prediletos, minhas bandas preferidas... Há uma ou outra exceção de vivos que moram em minhas listas de predileção, mas sempre fico com um pé atrás com os vivos. Embora ultimamente eu tenha descoberto que os errantes dessa selva de pedra podem ser tão bons quanto os inquilinos dos cemitérios e da história. E Martha me fez ter a certeza de que todo dia podemos descobrir, muitas vezes por acaso, uma vida que complemente a nossa. Um tecido novinho, e vivinho, em folha que possa se tornar um de nossos retalhos.

Tenho cá pra mim que muitas das minhas leitoras já conheciam a Dona Martha. Mas, pra quem, como eu, ainda não teve a felicidade de se encontrar com as palavras dela, visite AQUI o Blog da Martha Medeiros, ou então vá correndo nas livrarias comprar um dos pocketbooks dela, que são baratos e garanto que valem cada centavo! Ou então, se for de Curitiba, quando for a um Mercadorama, preste bem atenção naquelas estantes de revistas deles. Vai que você também ganha o seu dia, levando pra casa não só um livro novinho por cinco contos, mas a companhia inigualável da mulher que, em cada palavra, exala a mais transgressora e deliciosa das vidas...

"Agora diga tchau, Lilica.
Tchau Lilica!"

15 comentários:

  1. Lindona!! quando vi a seleção de músicas senti logo que o post seria dos bons :)

    Ah a-do-ro a Martha!! Quando pego o jornal de domingo, vou logo ler a Revista onde tem crônica dela. E sabe aquela pessoa que você vai lendo e concordando?? Bom demais da conta!
    Livro é bom! Livro barato então....
    Vou procurar por esse.

    beijãoooo

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  2. Amadisisma, que loucura tua vida não???? Amei teu comentário tão carinhoso e generoso para comigo...te amo viu?
    Olha só...já fiz um arranjo na minh postagem e já te inclui também...Assim, bora mininamá...corre lá e vamos ficar lado a lado na competição, d" accordo?????
    Beijocas saudosas, outra hora escrevo com mais tempo, essa reforma acabou comigo...a essa hora estou querendo só minha caminha!!!!

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  3. Cada vez que venho aqui eu me convenço de que escrever bem é mais que ortografia e gramática perfeitas. Mais que uso de figuras de estilo e de linguagem bem colocadas. É mais que concisão clareza e objetividade juntas.

    É ver a vida com bom humor e saber empregar as palavras como um artesão utiliza cores e texturas. Numa combinação gostosa capaz de fazer de um evento simples como ir ao mercado uma história deliciosamente prazerosa.

    É ter vida e gostar de viver.
    Por isso, minha cara Patrícia, não tenho dúvidas quanto ao seu sucesso.
    Ah e Martha é mesmo uma grande mulher.

    Um beijão.

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  4. Luci,

    Sabe que eu até cogitei a idéia de assinar esse jornal só pra ler as crônicas dela?
    Fazia tempo que eu não lia alguém tão bom!

    Beijão!!!

    *******

    Dolly,

    Ô minha querida... Eu também sinto muito amor por você, viu Bicha Vó!
    Eba! Eba! Vou participar também! o/
    Descanse muito que você merece!

    Beijão minha Chicabum!

    *******

    Ô Claudinha,

    Por que você faz isso comigo, hein?!
    'Tô aqui, com um gosto salgado que me escorreu dos olhos...
    Tanta delicadeza nessas palavras...
    'Brigada, minha irmã... Não só pelos elogios, mas por essa presença radiante que ilumina minha vida dentro e fora dessa tela.
    Um beijo procê!

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  5. Lindona, eu também adoro a Martha (olha a intimidade! rsrs), mas to achando é que tava na hora de VOCÊ escrever um livro, né não? Sei lá, de volta pra casa, muito acolhimento, muita emoção... Sei que EU vou adorar ler, com toda certeza!

    Quanto à tatoo, acho que é assim como "ei, mundo, isso é o fundamental pra mim!!!". Deu pra entender? Rsrs às vezes nem eu me entendo ! Mas dou a maior força !

    Beijoca estalada na bochecha !

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  6. Dricca,

    Eu também já me acho íntima da mulher. Que ousadia chamá-la de Martha, né =)

    Ô meu bem... Se um dia conseguir lançar um livro vou ser a pessoa mais feliz do mundo! Ano que vem vou tentar...
    E 'brigada pelo apoio, viu! Vou fazer questão de entregar um em suas mãos =)

    Eu morro de vontade de fazer a tatoo, mas tenho medo de escolher o desenho errado. Mas, é um risco que se corre, né.

    Um beijão procê, bonita!

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  7. Ei, minina

    Eu também me alio à nau de fãs da Martha Medeiros. Leio sempre, muito, há muitos anos. E já que agora você abriu a porta para que eu não a precise arrombar, vou te enviar ( por e-mail) algumas das crônicas mais intensas e marcantes para mim.

    Porque, tal qual você, sou tomada por arroubos quando o não-objetivo é comprar livros. Quaase nunca vou à livraria, ou ao mercado, com a intenção de comprar um livro específico. Deixo sempre que uma rota mediúnica que me leva àquele que devo ler.

    Se sempre acerto? Acho que sim. Porque é preciso firmeza e determinação para enfrentar o primeiro olhar ruim sobre uma determinada obra.

    Foi assim, meio que aleatoriamente, que comprei o livro que leio nesse momento: Dolce Agonia, de Nancy Huston. Já tinha lido dela o Marcas de Nascença, que te sugiro, mas estou completamente envolvida em um mundo onde navego com o maior prazer: o das almas conturbadas. Pode parecer curioso, até porque eu não sou especialmente uma alma conturbada. Mas adoro leituras que levem à viagem licérgica que me faz repensar os caminhos, as escolhas; tantas vezes, reafirmá-las.

    Enfim, viajei no texto e no comentário. Bom voltar por aqui. Saudades de suas palavras também. Legal te ler sempre.

    Beijo grande.

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  8. Paty,
    Acho que ontem postamos quase ao mesmo tempo. Respondi um recadinho seu lá e depois vi que vc tinha comentado em vários posts.
    Estava com pressa, pois vida de mãe à noite é ainda mais corrida: tarefa de casa, banho, jantar, escovar dentes, contar histórias... enfim, resolvi voltar hoje cedo pra lhe dizer que todo carinho que vc diz ter por mim é recíproco, viu?
    Esse lance de blog é engraçado, as amizades surgem fortes e do nada, ou melhor, do tudo. Pois do jeito que nos conhecemos, não nos influenciamos por nossas posições, roupas, títulos, profissões, contas bancárias. Enfim, tudo isso que pode ofuscar nossos verdadeiros valores. Assim, deixamos nossas almas mais expostas, transparentes na nossa escrita.
    É mais fácil conhecer uma pessoa desse jeito, vc não acha?
    Além de dizer que vc escreve muito bem, eu digo que eu amo sua sensibilidade ao escrever.
    É impossível não me identificar, não me tocar com suas palavras.
    Elas encantam meus dias.
    Ah, e eu adoro receber recadinhos seus lá no feito a mão. Sempre tão atenciosos, delicados e cheios de vida.
    Um cheiro.

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  9. Patrícia, fiquei pensando daqui que é que pode haver de tão errado com os que escrevem e ainda estão vivos... por que eles não poderiam ser bons?! :o

    Pode parar, hein? Quando você começar a publicar seus livros e passar a ter “zilhões” de leitores, quero que você esteja vivinha da silva para presenciar isso. :D

    Não conhecia o blog da Martha. Já vou lá conhecer. :)

    Beijos

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  10. Amiga

    Acredita que eu nunca li nada da Martha Medeiros? Pois é, me sinto um ET por isso...vou resolver essa pendência, prometo, e volto para contar minhas impressões.

    Ah, passa lá no Mundinho que hoje a festa é minha!!!

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  11. Vê,
    Eba! Será um prazer receber as crônicas da Martha por e-mail! Agradeço desde já, viu!

    O engraçado é que quando vou a uma livraria com o objetivo de comprar alguma coisa, sempre saio de lá com as mãos vazias. Parece que a quantidade de coisas a escolher me deixam zonza, e não consigo decidir.
    Nos últimos tempos, os livros que comprei foram todos frutos do acaso. E não me arrependi de nenhum...

    É mesmo preciso determinação para aderir ao novo...

    Não conheço Nancy Huston, mas logo vou me aprumar e procurar conhecer, porque uma indicação sua é sempre bem-vinda.

    Viaje sempre nos seus comentários, minha querida. Que são sempre deliciosos...

    Beijo procê!

    *******

    Claudinha,

    E não é que quando eu estava lá, você estava aqui?
    Será que, inconscientemente, combinamos? =)

    Concordo que seja mais fácil, e acho que também mais enriquecedor, conhecer as pessoas através de suas palavras...
    Parece que palavras aproximam mais do que apertos de mão...

    E assim me sinto próxima de você, que, às vezes até imagino estar aqui, ao meu lado.

    E que bom que a reciprocidade é verdadeira. E que podemos aumentar nosso carinho uma pela outra a cada dia.

    Um beijo bem grandão procê!

    *******

    Lidi,

    Você tem razão, menina! Eu é que tinha esse desvio de achar que os mortos mereciam mais minha atenção. Coisa de gente louca e com medo do novo... Tsctsc.

    Mas sabe uma coisa que me fez perceber que a escrita dos vivos é tão boa quanto a dos mortos, e, às vezes, até melhor? Meu contato com a blogosfera. Hoje, leio mais blogs do que livros de ficção, e todos os blogs que leio vão formando uma história tão boa de ler quanto os livros que estão na estante.

    Ah, bonita! Sei não se terei zilhões de leitores, mas já me contento em conseguir publicar o livro e ter ele lido pelas minhas leitoras daqui, que já me são muito importantes...

    Ah sim, o blog da Martha é muito bom. Conheça que vale a pena!

    Beijão procê, bicha!

    *******

    Rosi,

    Ô mulher, eu acredito porque eu também não conhecia!
    Mas agora a gente pode se integrar à "nau de leitores" dela, como disse a Vê =)

    Opa! Vou passar, é claro! Não perco sua festinha por nada!

    Beijão procê!

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  12. Coisa maravilhosa a gente le pessoas inteligentes criativas e ainda de quebra nos dao dicas de autores sensacionais como a Marta.Bjs.

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  13. Patrícia,
    Pra variar, nos posts atrasados ainda... rs. Como li no escritório, só estou passando por aqui para comentar...
    Adoro os textos da Martha Medeiros, acompanhei a coluna que ela fazia, semanalmente, até encerrar. Eu e umas amigas, tinhamos o costume de "trocar" as crônicas, com comentários, todas as semanas. Foi bacana enquanto durou.
    Ainda não li nenhum dos livros dela. Já estive com um deles na minha mão, mas acabei mudando a minha escolha no fim das contas (pego vários livros e depois me decido...).
    Mas vale a dica!
    Beijos
    lelê

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  14. Ô Milu,
    muito obrigada, minha querida...
    Elogios são sempre bem-vindos, e sua presença aqui então, nem se fala =)

    *******

    Lelê,
    Ai mulher,e stamos no mesmo barco, viu =)
    Que costume bacana esse de trocar as crônicas da Martha! Praticamente um clube do livro virtual, menina!
    Sabe que eu faço isso com dvds? Vou pegando os que me interessam e depois, de posse de todos eles, faço um limpa, e levo só alguns.

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  15. Já li diversos textos dela perdidos pela net e, realmente, impressiona a capacidade dela de escrever e a facilidade que ela tem com as palavras...
    Bjitos!

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Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

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