segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sorrisos bobos e alunos...

Companhia Musical


Companhia Imagética
"Teacher view of the world" Fonte: Creative Teaching

Hoje, estava observando meus alunos - que, sem reclamar (muito), montavam e desmontavam quebra-cabeças com frases no Past Simple às 8 da manhã - e percebi um sorriso bobo que me escapou dos lábios. Involuntariamente, lá estava eu, com a alma e os olhos sorrindo. As meninas da frente também viram meu sorriso bobo, e logo fizeram um "Aaaahhhh! A professora 'tá apaixonada!" (aquele ahhhh irritante que só adolescente sabe fazer...), e me perguntaram se eu tinha namorado. Respondi que não, mas acho que elas não se contentaram com a resposta, e ficaram dando risadinhas (que, na verdade, são mais irritantes do que o ahhh). No fundo, a pergunta delas é que foi errada. Deviam ter me perguntado se eu estava apaixonada, e então teriam seu esperado sim como resposta.


Essa manhã, ao olhar praqueles projetos de adultos trabalhando em grupo, sorrindo e desfrutando desse tempo tão precioso que é a infância/adolescência (embora eles fiquem putíssimos quando os chamo de crianças...), descobri o quanto sou apaixonada pela minha profissão. Sou apaixonada pelo fato de, a cada dia, ter experiências diferentes. Apaixonada por poder aprender a cada segundo, e de ter aprendido tanto nesses últimos 10 anos. Apaixonada pelos olhinhos curiosos e cheios de vida. Apaixonada até pela carinha de gato de botas que eles fazem quando grito com eles, ou lhes dou uma bronca.
[...]
Hoje um aluno do 9° ano (que ontem me abraçou, ergueu e me girou pelos ares) me perguntou quando eu tinha escolhido ser professora, e se eu dava aula por necessidade ou por opção. Contei que aos 6 anos já dizia que seria professora quando crescesse. Quanto à opção, claro que sou professora por opção, afinal de contas, tem sempre a opção de passar fome. Ou então largar tudo e ir fazer outra coisa. E pra quem acha que é impossível, mostro minha língua todo preta de café e digo que é mentira!

Há 3 anos eu optei por parar de dar (vender) aula. Assim, como quem resolve virar pra direita ao invés da esquerda, pedi exoneração de um concurso e lá fui eu tentar outros caminhos [e, for the record, também passei fome]. Reza a lenda que todos os caminhos levam a Roma... Pois bem, a docência deve ser minha Roma, porque não adiantou de nada querer fugir, que lá foi a estrupícia atrás de mim!

Ser professora é meu modo de estar no mundo... Embora eu tenha reclamado no último post que havia esquecido quem é a Patrícia, não sei existir sem a Professora Patrícia (só quando me torno a aluna Patrícia, mas aí é outra história...). Mas enfim...

Devia ter dito pras mocinhas o quanto estava apaixonada por elas, e por eles, e pela educação. Mas acho que o abraço coletivo no final da aula foi o suficiente pra dizer que os adoro. Oi? Sim, eu sei que amanhã vou sair da escola querendo quebrar alguns pescocinhos (como saí de uma das turmas da tarde...), mas procuro viver um sentimento por vez... Ou melhor, tento me abastecer dos bons sentimentos pra poder superar os ruins.

Quem não me conhece bem é capaz de achar que eu tenho uma visão pollyana da educação... Ledo engano, meu caro! Nem da educação, nem do sistema educacional, nem dos alunos, nem de qualquer diabo que seja. Tenho muitas críticas a fazer para tudo, inclusive para mim mesma (que, ultimamente, não tenho sido a melhor professora que posso), mas isso não me impede de olhar apaixonada pra uma menina de 11 anos que sorri com os olhos quando descobre, sozinha, que o not deve vir depois do verbo auxiliar; e que sorri com os lábios praquele garoto de cabelos encaracolados, do qual ela sonha ganhar um beijo.

É como viver nessa selva de pedra, rodeada pela poluição, pela sujeira e pela pobreza, e me recusar a apreciar uma árvore ao pôr-do-sol. Vivemos nos equilibrando entre os sorrisos e as lágrimas, sim; mas não podemos deixar de sorrir só porque, uma hora ou outra, teremos que secar nossos rostos...

Essa semana reli o "Uma professora fora de série", de Esmé Codell . O livro é o diário de uma professora no seu primeiro ano lecionando. Esbarrei nele no início do ano, assim que voltei a lecionar. Foi um presente dos deuses pra mim. Sempre que sinto minha fé na educação ser abalada, corro pra ele. Como um tipo de Bíblia, da qual pegamos as palavras para os momentos de descrença. Mme. Esmé se tornou minha salvadora. Se você é professora recomendo que corra e compre-o, e leia-o ao menos uma vez por mês. Se não é professora, recomendo-o da mesma forma. É uma leitura gostosa, onde cada palavra carrega nos ombros uma emoção e um sorriso.

No dia em que escrevi esse post, li (logo depois) a passagem que transcrevo abaixo. Um pequeno aperitivo pra você saber como é o livro.

"Eu não interfiro muito. Não deveria ser tão antropológica com relação a isso, mas sou. Apenas deixo que elas passem pelas dificuldades da infância, como eu passei, e tento aconselhá-las a fazer escolhas com as quais possam viver mais tarde. Fico tão exausta, tão esgotada o dia todo. Minha vida toda é diferente. Quando alguém me pergunta: "Como foi seu dia?", nunca sei o que responder. Tenho trinta e um dias a cada dia, um dia diferente com cada criança. Um dia bom com o Ruben, um dia difícil com o Billy... é demais. As pessoas falam sobre recompensas e gratificações do ensino, mas não dizem que ensinar é como entrar para um monastério ou ir para o inferno ou ser sonâmbulo ou ter medo, ter medo como quando se é pequeno. Não dizem o que se sente quando se fica tonto em uma sala cheia de crianças, ou o que se sente quando se segura o corpo de crianças se debatendo, odiando, cuspindo, brigando. Não dizem o que se sente quando se ouve "eu te odeio!", ou o que se sente quando se diz "Tudo bem, eu ainda amo você!". Hoje em dia, nas aulas de pedagogia, as pessoas dizem: "Você tem que ser tudo pra eles: orientadora, mãe, amiga...". Não quero bancar a mãe, não posso bancar a mãe. Elas precisam de uma mãe de verdade. E precisam de uma professora de verdade." (CODELL, Esmé. Uma professora fora de série. Rio de Janeiro: Sextante, 2004 p. 126-127)

Amanhã, mesmo que eu não queira, terei que bancar a mãe. Durante uma manhã normal, terei 130 manhãs diferentes. Serão 130 alunos que me trarão suas histórias servidas no café da manhã que não tenho tempo de tomar. Fico pensando: por que eu? Dentre tantas pessoas no mundo, por que eu fui escolhida pra participar da vida de tantas pessoas?

Esses dias, enquanto fumava um cigarro antes de entrar no shopping, escutei um "What's your name?" Olhei para o lado, e o rapaz repetiu: "What's your name? Patrícia, não é?". O rosto dele não me era de todo desconhecido, mas estava perdido no arquivo de tantos outros rostos que meus olhos já presenciaram. Diante da minha evidente cara de ponto de interrogação, ele me disse que fui sua professora há 6 anos atrás! SEIS ANOS! E ele ainda lembrava de mim, e do meu nome e até da matéria que eu lecionava. Ali estava aquele homem, de terno, me mostrando com um sorriso o motivo de eu acordar todos os dias e ir para a escola: pra poder, daqui a algum tempo, ver que o esforço não foi em vão, e que não fiquei perdida num livro cheio de pó de giz.

Talvez, dar aula seja como plantar árvores. O trabalho é diário, e os resultados não são imediatos. Leva anos até que uma boa árvore cresça, mas quando ela cresce, não há nada melhor do que sentar em sua sombra, e saborear seus frutos...


Ps: Muito, muito obrigada pelos comentários deliciosos no último post! Vou respondê-los cada qual em seu lugar de origem. Mas desde já deixo um beijo enorme!!!

"Agora diga tchau, Lilica.
Tchau Lilica!"

10 comentários:

  1. Patrícia!
    Eu li o outro post, mas me perdi em um turbilhão de coisas que precisava fazer e não comentei! Uma pena... mas hoje resolvi ler o novo post e dizer que me sinto muito feliz de ter você blogando novamente!! Mesmo! Senti falta dos seus textos tão cheios de personalidade.
    Li o post de hoje e ele me faz refletir sobre opções que fiz... quando era criança sempre flertei com o magistério, mas a minha mãe (que é professora), sempre tratou de tirar a idéia da cabeça! Fui fazer arquitetura e cai no mestrado (mais uma vez o magistério), durante um período dei aulas para curso técnico... isso foi bacana, porque vi que um dia quero dar aulas sim! Talvez, como tudo na vida, não seja o momento ainda, mas sei que ele chegará... gostei da sua reflexão, não acho uma visão Polyana... e sim a visão de quem ama o que faz.
    Beijos
    lelê

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  2. Ai, q post mais lindo! me lembrei dos tempos de escola, dos professores... enfim, é bom ver que vc sente toda essa felicidade na profissão que escolheu, mesmo com tantas dificuldades e problemas... xD

    bjussss

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  3. PATRICIA..
    QUE POST DELICIOSO, ME EMOCIONEI E RI..LEMBREI DOS MEUS TEMPOS DE PROFESSORA E O QUANTO SINTO SAUDADES DOS MAGISTÉRIO..
    PAREI POR NESCESSIDADE DE CUIDAR DA MINHA RAINHA..MAS SINTO MUITA FALTA DA CARINHA DOS MEUS PEQUENOS LOUCOS PRA SABOREAR O MUNDO COMO SE FORA UM PEDAÇO DE BOLO DE CHOCOLATE, É MARAVILHOSO..
    PENA AINDA NÃO SERMOS HONRRADAS POR SALÁRIOS MAIS DIGNOS , REALMETE LECIONAR É DOAR-SE LITERALMENTE POR INTEIRO.
    BJUIVOS EM SEU CORAÇÃO E FORÇA NA SUA TRAJETÓRIA.
    LOBA.

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  4. Tentamos fugir do que somos, mas no fim, acabamos voltando as origens. Reclamo do que tenho, para algum tempo depois(que me parecem segundos na verdade), lembrar-me que tudo que tinha era o suficiente para mim.
    Só de pensar que estava louco para sair da escola, e hoje, louco para voltar! ahhhh...
    Abraço forte.

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  5. Querida, mais que querida! O magistério é um sacerdócio, já ouviu isso? Moldar vidas... Você é uma escolhida sim e sei que muito bem escolhida. É difícil, mas tem muitas coisas boas que compensão, não tem?
    Fui como você, brincava de dar aulas. Ela tudo que queria, ser preofessora. Mas a vida tomou outro rumo. Só exerci o magistério pro 2 anos. Sabe que um dia encontrei uma ex-aluna no supermercado? Estava com o filho no colo. Deia aula prá ela no jardim de infância2, um tipo de pré-alfabetização na época. Mas eu tenho a alma professora e observei que estou sempre exercendo isso. Atualmente faço no Postando sobre Artes.
    Nada como ser apixonada pelo que se faz! Não tem preço, e sei bem disso.

    beijos geladinhos daqui do Rio

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  6. Eu até hoje não sei o que faço da vida mas garanto que o que quer que seja, só vai valer se for assim, intenso e apaixonado como o que você faz, é admirável ver como você gosta do magistério. Eu até tentei na época em que fiz Física, não deu muito certo mas entendo as dificuldades que tu enfrenta no dia-a-dia, pela tua reação, aposto que a recompensa deve valer todos os percalços.

    P.S.: Você parece ter voltado ainda mais animada, é isso aí!

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  7. Acho que somos duas saudosistas... e isso dificulta alguma coisa quando a vida muda, não sei exatamente o que é... sei que de repente percebemos que tudo está diferente, mas que somos as mesmas!
    Beijo, feliz pq vc voltou

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  8. Você não consegue imaginar como ler isso melhora a vida de uma pessoa que nunca te viu mora a muitos mil quilômetros longe você...

    Tão bom saber que a sociedade acaba de receber de volta uma professora de verdade, que não perdeu as esperanças. E que agora além do livro "Uma professora fora de série", tem os seus posts pra dar uma força aos que se aventuram na educação.

    Você deixou minha semana muito mais feliz!

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  9. Patricia, eu não sei ...
    mas lendo o seu post deu uma pontinha de choro dentro de mim.

    Adoroooo seu blog

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  10. Só posso dizer que me emocionou cada palavra dita por ti nesse post em especial. De verdade, acho simplesmente fabuloso o modo como você demonstra realmente gostar da area que escolheu (ou que te escolheu) para trabalhar. Parabéns pelo blog, pelo post, pelos alunos e pela atividade maravilhosa que é lecionar.

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Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

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