sábado, 3 de julho de 2010

Presença de alma

Hoje de "manhã" [entre aspas, pois minhas manhãs começam ao meio-dia], ao escutar Caminhoneiro, de Roberto [Ah! Não me venha você com seu pseudointelectualismoboooring dizer que Roberto é brega e blábláblá.  Que se dane! #bregapride!], me lembrei de meu pai. E algumas lágrimas decidiram passear pelo meu rosto...

Pra quem não sabe, papai foi caminhoneiro por muito, muito tempo. Dos meus 6 aos meus 24 anos. E, na maioria das vezes, via meu pai apenas uma vez por mês. Já passei muitos natais, anos-novos e aniversários longe dele. Já passei muitas fases boas da vida longe do meu velho. Já chorei muito de saudade, enquanto minha mãe tentava cumprir seu papel de mãe/pai.


Mas apesar de parecer que tive um pai ausente, tenho a extrema felicidade de dizer que foi exatamente o contrário. Me lembro de ser bem pequena, e ver o caminhão chegar na porta de casa. Subia correndo as escadas e grudava no pescoço dele, como quem quer dizer que dali nunca mais sairá. Lembro dos finais de semana que ele passava em casa... Era uma alegria só poder almoçar com o pai no domingo, poder lhe ouvir as histórias, os conselhos...

Hoje não posso ver um caminhão que meus olhos já se enchem d'água de lembrar todo o tempo que fiquei longe de meu pai. Mas não tenho nenhuma lembrança de me sentir abandonada. Talvez porque mamãe tenha sido sempre mais do que presente, tenha sido onipresente. Talvez porque os pequenos momentos que tive ao lado do velho tenham sido sempre tão bons e significativos, que foram como uma recarga de bateria que durava até a próxima visita.

Mas uma coisa que nunca pensei foi em como minha mãe se sentia... Hoje, longe dos dois [que continuam bem casados], me pego pensando em o quanto devia ser difícil para eles estarem casados e distantes. Fico pensando nas noites em que minha mãe deve ter chorado sozinha a ausência de seu amor na cama e no café-da-manhã. Fico pensando em meu pai, dormindo na boléia de um caminhão, todo torto [porque papai é muito, muito alto], e sentindo saudade de minha mãe e de vê-la dormindo ao seu lado.

Hoje meu pai trabalha como administrador de uma empresa de caminhões. Dorme, acorda, almoça e janta ao lado de minha mãe todos os dias. Tantos anos de experiência lhe deram a oportunidade de estar em uma sala com ar-condicionado, cuidando de tantos caminhoneiros que têm a mesma vida que ele teve por 18 anos... Minha mãe continua a mesma mãe onipresente de sempre, mas agora ela tem o ombro de meu pai pra se recostar quando o cansaço bate. A cama deles agora não está mais vazia [a não ser quando o velho adormece no sofá, e aí, não há cristo, nem judas, que tire! Alguém me explica por que diabos homem adora dormir no sofá?!].

Agora quem está longe sou eu. Mas, ao contrário de meu pai, só vou pra casa duas vezes ao ano. Hoje fico imaginando a tristeza de meus pais, logo que saí de casa, em ver minha cama vazia. A mesma tristeza que eu sentia quando olhava para o lado de meu pai na cama. Quando procurava seu sorriso, e só conseguia encontrá-lo dentro de mim...

Me lembrei também de quando Gigi [minha irmãzinha mais nova, de 11 anos] era bem pequenina, e aprontava um escarcéu sempre que eu ia viajar pra apresentar uma peça de teatro, ou ir a um congresso. Agora, fico me perguntando se era assim também que eu me sentia quando via meu pai sair pelo portão... Ou se é assim que eles se sentem quando, depois das férias, volto pra Curitiba.

Agora ouço O Portão, de Roberto. E sinto todas essas lembranças ficarem pequenas perto da idéia de voltar pra casa. Tento imaginar como será a vida sem sentir saudades. Essa, que foi minha companheira por toda a vida. Que embalou muitos de meus poemas e de minhas lágrimas. Não sei o que é viver sem sentir saudade... Mas acho que vai ser bom aprender.

Aqui, nessa cidade fria, aprendi a dar boa noite pra saudade. Aprendi a abraçá-la pra me confortar. Porque a saudade é uma presença pela metade. É uma substituta praquilo que não temos ao alcance da mão. No fundo, sentir saudade é admitir que há coisas importantes, mas que estão longe por conta da matéria. Mas saudade não é ausência de alma. Pode ser ausência de corpo, mas de alma não...

O bom é sempre ter pra onde voltar e pra quem voltar; no fundo, o bom mesmo é poder voltar... Voltar pra casa depois de um dia de trabalho, depois de um mês na estrada, depois de dois anos longe. Voltar a se encontrar consigo mesmo...

Porque nos tornamos menores quando estamos longe de nossos pedaços, de nossos retalhos. Ainda que a saudade preencha a falta de um deles, é bom melhor tê-los ali, ao vivo, pra poder lhes admirar as rugas de sabedoria, os cabelos brancos das noites em claro esperando a filha voltar do bar, o sorriso de quem se sente satisfeito por tudo o que fez.

Vai ser bom substituir a saudade pelo sorriso dos amigos, que, ainda longe, nos abraçam. Pelo abraço de verdade, pela troca de palavras sonoras e não escritas. Pela presença de corpo e alma...

No fim das contas, a ausência do corpo só faz com que nossa alma se engrandeça pra fazer caber todas as lembranças...

E você também está aqui, dentro de minha alma engrandecida. É, você, que tanto significa pra essa estrupícia aqui... Você que divide comigo sua vida, que me abraça, que me conforta, que me confronta. Acho que hoje eu entendo tudo o que estudei na faculdade sobre a tal teoria da recepção e do leitor ideal... Você pode não estar aqui, tomando café comigo, mas está aí, me fazendo companhia com seus olhos e suas palavras. De você também sinto saudades, quando por muito tempo nos afastamos...

Tão bom ter pra quem voltar... Tão bom ter de quem lembrar com carinho... E melhor ainda é poder acordar e ver as camas todas cheias, assim como o coração...

Ps: texto escrito em 27 de novembro de 2009.

Um beijo cheio de uma maldade nem tão má assim...

8 comentários:

  1. Lindo texto! E me deu saudades de meu pai, também...

    Mas, a vida é assim, feita de sentimentos ^^

    Beijocas!

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  2. meus olhos se encheram de lágrimas, texto tão lindo. x

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  3. Lindo o texto, de verdade !!
    Nossa, até chorei !! :')

    E, poxa... tava com sds ! Escreva mais !

    beiijos

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  4. Nossa,quase chorei ;x
    Muito lindo ^^
    beeijos ;***

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  5. Clap, clap , clap !

    p.s.: por alguns minutos eu cheguei ate a pensar : "Curitiba !!!! como assim ??!!!! " .

    Bjao !!!

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  6. http://www.youtube.com/watch?v=QIiBlrCA6tY

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  7. Nossa que lindo!
    Me identifiquei bastante. Meu pai é motorista e só vejo ele no máximo duas vezes por mês.
    Venho acompanhando o blog por pouco tempo, mas tenho cada vez mais e mais vontade de ler.
    Parabéns.
    Com certeza você conquistou mais uma fã. (:
    Bjs

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  8. Também sinto muita falta dele...
    = (

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