terça-feira, 24 de agosto de 2010

O mundo é mesmo um moinho, querido Cartola...

São cinco e quinze da manhã quando Metallica começa a tocar na primeira tentativa de acordá-la. Nada acontece. Talvez ela esteja sonhando, e EnterSandman seja a trilha sonora ideal. Cinco e vinte. É a vez de apelar para Tarantino, e então Dick Dale faz sua entrada triunfal com Misirlou. Nada. Vai ver ela está sonhando com Mr. Blonde, ou com o dia em que deixaria de ser mais uma severina pra virar personagem de romance...

Às cincoetrintaequatro ela levanta de sobressalto. Vai até a geladeira, beber seu copo de água matinal, enquanto trava luta com seus olhos, que insistem em continuar fechados. Escova os dentes. Lava o rosto. Passa filtro solar. Veste a roupa. Bagunça o cabelo. Pega a bolsa. Esquece a chave. Pega a chave. Esquece o caderno. Pega o caderno e espera no vento frio. A rua ainda escura, o sol ainda com preguiça de levantar.


Acende seu cigarro, reza pra São Jorge, dá dois tragos e entra no ônibus às cincoecinquentaecinco. Antes de cochilar nos vinte minutos de trajeto, pensa em quanto dinheiro ganharia se escrevesse um livro com dicas para dormir em pé no ônibus. Pensa de novo. E com os olhos já fechados, chega à conclusão de que não ganharia dinheiro nenhum.

Ao chegar no terminal e entrar em mais um ônibus, Patrícia já não pensa em vender livros. Pensa apenas no dia que mal acabou de nascer, e a que horas ele irá acabar. Pra então começar outro. E mais outro. E mais outro. No meio do caminho tinha uma pedra para a escola observa os dois pedreiros que caminham a sua frente. Fica aliviada em saber que trabalham na reforma que está sendo feita na escola. Não iria gostar de andar às seisemeiadamanhã por uma rua deserta, com dois estranhos. Você gostaria?

Tenta andar do outro lado da rua, afinal, todosantodia ela caminha do lado esquerdo. Então pensa que seria uma ousadia mudar, assim semamaisnemmenos, uma rotina boba. Atravessa a rua e pensa ter visto uma cor de Frida Kahlo, talvez um esboço de Almodovar... Enquanto isso cantarola junto com Adriana...

Às setedamanhã começa o dia de trabalho. Ganha abraços, sorrisos [às vezes de carinho, às vezes de desdém], caras feias. Passa as próximas seis horas no meio daquele turbilhão de vidas, tentando fazer com que entendam particípios, tempos verbais e poesia.

Talvez a melhor parte seja a aula sobre poesia. Ela apaga a luz e pede para que os alunos fechem os olhos. E então declama Drummond. E a cada palavra do Poema de Sete Faces que sai de sua boca, sente que as tristezas vão sendo transmutadas numa brisa leve...

A manhã passa correndo, como uma criança que brinca de pega-pega. E então vem a tarde, trazendo um calor infernal, que contrasta com o frio que ela sente na alma... Corre pra outra escola. Outros alunos. Outros sorrisos. Um afago no cabelo de uma menina do 6° ano a faz sentir-se querida, mas é obrigada a esquecer o quererbem quando um aluno do 9° resolver falar mais alto que ela.

E então ela vira bicho. E esquece de todas as coisas boas em dar aula. Apenas consegue pensar no quanto falta pro final de semana, ou então em como é difícil ensinar que Gerúndio e Continuous não são a mesma coisa. Na verdade, difícil mesmo é ensinar, seja lá o que diabos for.

Aproveitando que saiu às trêsemeia, Patrícia aproveita para ir ao shopping. Antes que alguém comente que ela é uma consumistadoinferno [o que não deixa de ser verdade], ela foi pagar a conta da banda larga, tão essencial quanto água e luz nos dias de hoje. Resolve então cometer um pecado que há muito não comete: comer no McDonalds. Ela sabe que aquilo é absolutamente terrível pra sua saúde [seja do corpo, seja do bolso], mas, quando se dá conta, está lá, na fila, pedindo um X-gordura qualquer.

Talvez, assim como a comida, a vida também tenha se tornado fast demais... Não há mais o sabor da preparação, a escolha das ervas, o cheiro da cebola dourando no azeite. Não há mais tantas famílias reunidas em torno da mesa.


Hoje nos importamos cada vez mais com o aproveitamento máximo do tempo, e acabamos deixando nas mãos alheias aquilo que nos alimenta a alma... Vivemos no meio desse furacão, que me parece estar na velocidade 5. Equilibramos tudo como exímios garçons, ou como graciosas focas com o mundo na ponta do nariz.

E assim caminha a humanidade, até o dia em que tropeçarmos e quebrarmos todos os copos-sonhos. É nessa hora que soltaremos um bom e desopilante palavrão, e, quase em câmera lenta, juntaremos os cacos do que sobrou.


Nessas horas, o melhor mesmo é deixar a pressa de lado, e pegar um por um dos sonhos que foram deixados pelo caminho; tomá-los em nossas mãos com carinho, e guardá-los num lugar em que possamos retornar quando o furacão nos deixar. Nessa hora, é melhor que tenhamos calma. É melhor que choremos pela perda, e deixemos o tempo escorrer lânguido por nossos olhos.


De nada adianta ser fast na cura da ferida. De nada adianta acelerar a vida pra fugir da dor, porque ela não se amedronta com velocidades e correrias. A dor nos acompanha sempre, embora às vezes fique calada, em respeito àqueles que a carregam. A única coisa que podemos fazer é aceitá-la, hospedá-la, e servir-lhe uma xícara de chá.

E então, um dia, quando as folhas tiverem caído todas, e a primavera trouxer novas flores, cores e cheiros, perceberemos que foi melhor assim...

Na volta pra casa, Patrícia pensava em como é difícil não desistir de tudo. Imaginava que seria mais fácil se se rendesse à loucura que torna tudo irreal, ou à morte real. Mas ao ver um livro de Nick Hornby na promoção da livraria, enxugou as lágrimas, e lembrou-se que a Literatura também nos salva. Nos salva de levar uma vida medíocre e sem imaginação. Nos salva dos jornais mal escritos, das manchetes sangrentas, do Horário Eleitoral Gratuito, e até de nós mesmos...

Assim, ao sair da loja com  três livros, ela se sentiu temporariamente salva. Ainda sentia o peso da dor, mas ela também já não pesava mais do que a mão de uma criança...


Um beijo cheio de uma maldade nem tão má assim..

Crédito das imagens [editadas por mim]:
1. Eu by Ana Cacau
2. Arquivo pessoal [paisagem de Dourados]

11 comentários:

  1. PATY..
    NOSSA, COMO EU AMO TE LER...
    MESMO!!!
    E SIM O MUNDO É MESMO UM MOINHO,,,,,TENTAMOS FAZER COM QUE ELE NÃO TRITURE NOSSOS SONHOS...
    AMEI O POST.
    QUE DIA CHEIO HEIM, OS MEUS ESTÃO ASSIM TB...KKKK
    MAS VIVER É ÓTIMO!!!
    BJUIVOS NO SEU CORAÇÃO.
    TENHA UMA DOCE SEMANA...
    LOBA.
    "TAVA COM SAUDADES DAKI"...

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  2. Patiiii, que delicia ler isso, nunca tinha visto!
    Nós realmente estamos subtituindo as coisas boas da vida pela correria que nos exigem tanto, e a vida está passando...sinto falta da mesa cheia, da família reunida, das pessoas demonstrando seu carinho umas pelas outras, hj em dia não consigo nem sequer visitar as amigas mais queridas. Esse maldito mundo virtual veio pra substituir tb essa parte, o contato físico. Infelizmente!!!
    Bjos e ótima semana

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  3. Oi....quanto tempo sem passar por aqui. Gosto muito do seu blog. Você sumiu do Nosso-Cotidiano, apareça.

    abraços

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  4. Belo Belo Belo
    O q mais se poderia dizer?
    Só a literatura salva, só a poesia cura feridas q droga nenhuma consegue
    bjus

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  5. Valéria, querida!
    'Brigada pelas palavras...
    Concordo! Viver é sempre bom, seja na correria ou na calmaria! o/
    Um beijo enorme procê.
    E uma ótima semana!

    ********************

    Marcela,
    ô querida, bom ver vocÊ por aqui!
    Seja bem-vinda! o/
    Eu sinto muita falta dessa proximidade entre as pessoas, viu...
    Estamos cada vez mais distantes. Mas ainda bem que temos uns aos outros, mesmo que só dê pra ver de vez em quando.
    Um beijo procê.

    ********************

    Oi Hugo, tudo bem?
    Sumi sim... Sumi daqui também =)
    Sorry...
    Um beijo.

    ********************

    Nandroca!
    Saudades docê, amiga!
    Só as palavras pra nos salvarem dessa coisa doida =)
    Beijo procê.

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  6. Oi Patrícia, perambulando pelo seu cantinho, resolvi te deixar um comentário te dando os parabéns pelo seu blog,pois através dele pude perceber como são cativantes as palavras quando trabalhadas com criatividade. A algum tempo acompanho seu blog e gosto muito do seu estilo de escrita, na verdade te conheço de antes porque fui sua aluna na E.E. José Barbosa Rodrigues, em 2007 (noturno). Sou aquela aluna que vc presenteou com um Allstar vermelho e uma camisa do Hardcore...lembra???!! Pois bem se não lembrava, espero que lembre-se agora. Estou cursando Letras na UFMS e com os conhecimentos que já adquiri, pude chegar a conclusão de que sua criatividade não te limites, espero que vc a explore cada vez mais e coloque suas descobertas no seu cantinho....abraços...Marceli Borges - Campo Grande/MS (pq que os estudantes de Letras não sabem escrever pouco...??? ¬¬)

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  7. Menina má, estas tuas maldades me encantam, ñ demora mto pra postar outras...

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  8. Nossa, esses dias corridos, mas no final sempre valem a pena neh?? hehehehe... 3 livros??? menina, eu naum consigo comprar um!!! mas no momento preciso tanto do verbo comprar e também de dinheiro, que os livros ficaram pra segundo plano.. então me contento com os q pego na biblioteca da facul.. xD

    bjusss

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  9. Oi Marceli,
    Que gostoso ver você aqui!!!
    Claro que lembro de você! Aliás, esses dias estava relendo o bilhetinho que você me escreveu quando eu saí da escola =)
    Muito obrigada por suas palavras, viu bonita!
    E que coisa boa saber que você está fazendo Letras! Nossa área precisa de mais pessoas como você!
    Apareça sempre, viu!
    Um beijão!

    *********

    Milu, querida
    Obrigada pelas palavras, viu...
    Sua presença também me encanta =)
    Beijo procê!

    ********

    Debbys,
    Mas compre livros baratinhos, menina...
    Mas me lembro que na época da facul o dinheiro só dava pra xerox mesmo.
    Depois melhora, viu ;)
    Beijo!

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  10. Texto lindo, me vi em alguns momentos...
    Sim, Cartola tinha razão. Amo a música e amei o texto.
    Se eu falar que ouvi essa música da Adriana agora a noite enquanto fazia um trabalho da faculdade, umas 3 vezes seguidas, você acredita? Me vejo nessa música, mas em um futuro próximo(coisa de futura jornalista maluca).
    Parabéns...

    ResponderExcluir
  11. Texto lindo, me vi em alguns momentos...
    Sim, Cartola tinha razão. Amo a música e amei o texto.
    Se eu falar que ouvi essa música da Adriana agora a noite enquanto fazia um trabalho da faculdade, umas 3 vezes seguidas, você acredita? Me vejo nessa música, mas em um futuro próximo(coisa de futura jornalista maluca).
    Parabéns...

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