domingo, 22 de maio de 2011

O professor nos tempos do cólera...

                                                                                                 Companhia Musical    

Sinto dizer que esse título é por demais pretensioso pra apresentar apenas algumas divagações sobre essa minha profissão. Mas tive a idéia e não me contive. Me afeiçoei por ela, e, no fim das contas, me parece que ela veste bem o que anda acontecendo com nossa educação...

Na semana que passou, vários acontecimentos me obrigaram a parar pra pensar na minha profissão. Sou professora há 12 anos. E não houve um dia sequer que eu não me questionasse, não de ter escolhido a profissão, pois acho mesmo é que ela que me escolheu; mas sobre como eu poderia contribuir, ou sobreviver, ao magistério.

Na quinta-feira eu dou 8 aulas. E em 5 dessas aulas eu tive que parar, no mínimo, 20 minutos da aula pra nossa tão conhecida e desgastada "lição de moral". Confesso que acho um saco, mas vez ou outra não me furto de dar um bom e desopilante "ralo" nos estrupicinhos. Na verdade, sinto que, cada vez mais, o papel de ensinar "moral e bons costumes" será dado à escola.

No começo, éramos os mestres, a quem se devia respeito e admiração, ou, na pior das hipóteses, medo, muito medo. Passamos a ser chamados de professores, aqueles que transmitem conhecimento científico. Hoje, já nos chamam de educadores, aqueles que, além do conhecimento científico, devem transmitir valores pra vida.

No fundo, sinto que não nos encaixamos em nenhum desses verbetes do dicionário. Talvez por achar que no dicionário as palavras dormem sem significado, e só ganham vida [ou vidas] dependendo da boca ou da mão que as utiliza.

Lendo algumas teorias pedagógicas - as quais, por sinal, detesto -, encontrei teóricos que defendiam que o professor deve educar para a vida, enquanto que outros abominam a "hora do sermão". Claro que o mundo científico é cheio de dicotomias, disparidades, contradições e divergências; mas, como demônios a gente coloca isso em prática, Bial?!


Tenho um problema seríssimo com pedagogos que nunca pisaram em uma sala de aula por mais de um ano. A teoria pedagógica é linda, hermética e inaplicável, cheia de seu pedagogês infinito. E ela não me cabe, não me serve, não me basta. Sinto muito, mas é assim.

Não sou daquelas professoras que não estuda, que não se informa, que não se aprimora. De jeito nenhum! Eu respiro minha profissão, e estou todos os dias refletindo sobre ela e minhas atitudes. E acredito que meus poucos anos em sala de aula me dêem uma certa autoridade pra dizer se uma teoria é aplicável ou não.

Somos, nós, os docentes, vistos como um bando de vagabundos que só choram por melhores salários e não fazem aulas "diferentes". Vá pra putaqueopariu com aulas diferentes! Prefiro ter um filho viado, que um filho "aula diferente"! [Não conhece o Seu Lili?! Rapaz, corre lá ó: AQUI. Depois de terminar o post, é claro!].

Odeio quando um aluno [que geralmente é aquele abençoadinho que não faz p* nenhum em sala], fala com a cara mais lavada do mundo: ai, 'fessora! Dá uma aula diferente, pra variar, vai... Minha resposta padrão é: Claro! Que tal você estudar pra variar um pouco?!

Meu sonho é poder ensinar só a ler, interpretar e escrever. E pronto, 'tá bom! Eu amo a Gramática, suas variações, exceções e toda a sua mágica. Mas acredito que saber diferenciar uma oração subordinada substantiva completiva nominal [amém!] de uma oração coordenada é muito menos importante do que saber ler e interpretar uma notícia de jornal.

Claro que os alunos se desinteressam, e a gente tem que rebolar mais que dançarina do tchan pra ganhar umas migalhas de atenção. Mas, enquanto não for feita uma reforma na base curricular, lá no todo poderoso MEC, não dá pra ser diferente. Enquanto os (ir)responsáveis por nossa educação não perceberem que o conteúdo exigido não cabe mais na vida de nossos alunos, continuaremos sendo o muro das lamentações...

Além disso, tem os pais que nunca estudaram nada de teorias pedagógicas, e que, outofnowhere, resolvem te interrogar e perguntar quais são suas metodologias de ensino, ou quais autores você estudou, ou dizer que, talvez, fosse melhor você diversificar suas aulas, porque, o filho dele, que tem déficit de atenção [aliás, déficit de atenção is the new black! 'Tá mais na moda que oncinha, minha gente!], tira notas baixas por conta de não prestar atenção na aula.

Pensa comigo, você vai até um médico e diz, no meio de uma cirurgia, com toda a sua empáfia: "Doutor, não seria melhor o senhor usar o outro bisturi? E se cortasse um centímetro pra baixo?". Ou então, você chega em um engenheiro e diz "Escuta, acho melhor você aumentar esse pé direito em 2 metros, hein!".

Não! Não! Ninguém mete o bedelho em outras profissões! Agora 'tão achando que a nossa é a Casa da Mãe Joana! Mas não é! Fomos [ou, ao menos, deveríamos ter sido] preparados para entrar em uma sala de aula... Infelizmente, os cursos de licenciatura de nosso país são uma vergonha. E como é que a gente vai poder melhorar a educação, se a base dela está caindo aos pedaços?

Eu fiz uma faculdade maravilhosa. Estudei na UFMS, com alguns dos melhores teóricos do país. Aprendi muito, muito mesmo. A única coisa que não aprendi foi dar aula. Afinal, minhas aulas referentes à licenciatura foram poucas e absolutamente desconexas e insuficientes. Assim, como se quer ter bons professores se eles não são preparados pra isso?!

Eu aprendi a ser professora na marra, minha gente. Fui errando e acertando, e até hoje aprendo, todo dia, com todo mundo. Até porque, ser professor não quer dizer deixar de ser aluno. Somos alunos das experiências, sejam as nossas ou as do próximo.

Sábado tive reunião de pais... E, pra dizer a verdade, saí muito satisfeita. Sim! Encontrei pais antigos, cujos filhos estão evoluindo a passos largos. Tive mais elogios pra dar do que reclamações a fazer. Vi nos olhos dos pais a esperança, quando ouviam o quanto seus filhos haviam melhorado, e a gratidão, ao ouvirem um "Parabéns!" pela boa educação que estavam dando aos filhos.

Eu sou a favor do elogio. Aliás, eu sou defensora do elogio. Adoro elogiar pais e alunos. E, claro, gosto de receber elogios também, pois sou filha de deus, né minha gente... Mas, mais importante que ouvir elogios, é ver o progresso dos meus alunos, é ver a melhora, o desenvolvimento, a carinha de traquinas aprendiz...

Porque, apesar da quantidade incalculável de problemas que nós, educadores/professores/mestres, enfrentamos todos os minutos, sou professora de corpo e alma. E ser professor é colocar a educação acima de salários, picuinhas, decepções... Não que não queiramos melhores condições. Não que não sonhemos com bons alunos. Não que não precisemos de melhores salários...

Mas se entramos no jogo, que seja pra ganhar. E só ganharemos quando pararmos de teorizar, reclamar, mediocrizar, e botarmos a mão na massa de verdade. Cansa? Cansa pra diabo! Mas o peso da realização é como uma pluma que acaricia nossos sonhos cansados...

Como diria o doidivanas Mr. Wilde: "Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas".

E você? Também prefere olhar para as estrelas?

*********************************************

PS1: Como disse no início, apesar de o título parecer absurdamente pretensioso, eu não tenho a menor intenção de tratar todos os problemas de nossa educação em um ínfimo post de blog. Essas são apenas divagações, dentre tantas que ainda estão por vir, dentre tantas que já deletei de mim...

PS2: Enquanto editava o post, dei de cara com esse post AQUI da traquinas da Elaine Gaspareto. Gente, #morri ! Essa criatura talentosíssima, a quem admiro por demais, fez um post indicando meu blog. Como assim?! Elaine, eu não tenho como agradecer tamanho carinho. Muito, muito obrigada, sua linda!

Um beijo cheio de uma maldade nem tão má assim...
Patrícia Pirota
@patriciapirota

12 comentários:

  1. Nao pare nao pare nao pare com a sua profissao!!!! Ela é linda.

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  2. Esse é o tipo de texto que todo professor precisa/merece/deve ler num domingo a noite. Recarrega, sabe?

    Olha, achei que o transtorno estivesse na moda só para os lados de cá... porque olha...

    E sim, todo mundo acha que é professor também. Pai, aluno, dono de escola, governante, até o moço ali da esquina que mal e porcamente pisou numa sala de aula, acha que deve/pode/precisa opinar sobre prática tão singular...

    E essa propaganda que está pipocando na mídia, valorizando o professor? Te dói aí? Porque me incomoda muito aqui. Sentir que a valorização acontece apenas na telinha e nada, absolutamente nada na vida real.

    Quem me lê falando acha até que sou desinfeliz na profissão...
    Sou nada. Mas sou crítica também e muito.

    Ser professora, parafraseando meu doce Drummond, é a minha cachaça!!!

    E acho que é a sua também ;)

    Fiquemos bêbedas!

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  3. Bem ... Eu parei... Não há lindeza que resista a falta de objetivo e o apoio básico da família, já tive que enfrentar no ensino médio aluno de quase dois metros de altura! Dialogar em algumas situações está fora da alçada da ignorância...

    Continuo a ensinar, como voluntária, e para quem quer aprender...

    Bella, desculpe o desabafo! Te vi na Elaine e cá estou, vou dar um passeio por aqui...

    Uma semana luz p/ nós!

    Beijoooooooooooo

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  4. Excelente teu texto.
    Cada dia que passa aumentam a responsabilidade do professor, alguns pais se pudessem entregariam seus filhos as escolas em tempo "integral"... esquecem de fazer a sua parte.
    Ler e interpretar um texto, muitos alunos nem sabem o que é isso, desanimador...
    Gostei do seu espaço.
    A música Roda Viva inspirou o nome do meu espaço, "Voz Ativa" ,porque ter voz ativa é fundamental.
    Boa semana!

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  5. Sabe aquele texto que você ler e se identifica, tenho pensado tanto em educação, mas acho que sou uma dessas mães que quer saber o método de ensino, é por que nunca pensei em ser professora e quando virei mãe me arrependi de não ter escolhido essa profissão, primeiro por que queria ter base científica para discutir a educação e segundo por que me sinto incomodada com a falta de educação do nosso país, inclusive a minha. Então me solidarizo a você e depois do texto no final que é meu lema sempre procuro ver as estrelas, você me conquistou de vez. Com amor Eliane

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  6. Estou a escrever da Irlanda, com
    os corvos a andar no quintal e uma
    grande tranquilidade.Vivo em Portugal
    ee estou aqui por uns dias.Hoje
    tivemos ca o Obama uma grande
    manifestacao de apoio.
    Voltarei.
    Beijinhos

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  7. Fecho com vc. Concordo com a Ju é cachaça pura, o meu problema é q quando fico bêbada geralmente me altero pro bem e pro mal... E eu ando numa fase cisne negro... e estou em plena campanha salarial. Rodando a baiana à toinha, à toinha.

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  8. Minina Patricia pensei que não iria ler até o fim este post, pois vim através da Elaine Gaspareto para te conhecer.

    Conheci e gostei demais. é isso aí tem que colocar a mão na massa que não é fácil, mas se todos o fizerem já é um bom começo.

    Beijos

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  9. bato palmas pra voce.
    Muito bom este post. E quem dera todos os educadores pensassem assim.
    Quem dera a nossa instituição de ensino pensassem nos alunos como pessoas e não apenas como simples alunos.
    Parabens moça...
    Beijinhos

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  10. você falou tudo que eu penso.. eu realmente não consigo me imaginar dando uma aula, enfrentando os problemas que vcs enfrentam... não enho nenhuma paciência.. mas admiro muito gente cm vc, que ainda assim ama e defende a profissão.
    bjus

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  11. Por isto não sirvo para transmitir conhecimento. Ainda existem os pais que acham que esta é uma função de professoras.

    Lamento lhe informar, mas está em uma sinuca de bico. Quando achar a resposta, passe pra gente.

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  12. tô tentando ser professora, e seu post reflete mto do q penso...

    enfim, teu blog é uma delícia de ler!

    até a próxima

    http://qrolecionar.blogspot.com

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