domingo, 26 de junho de 2011

Sozinhez...

Companhia Musical

Sozinhez... A primeira vez que li essa palavra foi numa crônica de Paulo Mendes Campos, um lindo texto chamado "Para Maria da Graça". Crônica essa que leio, releio e da qual nunca consigo sair ilesa. Como os livros de Clarice, os poemas de Drummond, o sorriso oblíquo de Machado, a melodia do silêncio, as cores de Monet... Assim como quando me entrego a essas obras de arte [seriam, talvez, obras de vida?], essa crônica de Paulo Mendes nunca me deixa em paz.

Se você nunca teve o prazer de lê-la, recomendo que a leia em um desses links AQUI. Abaixo, trasncrevo o excerto em que aparece a palavra:

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!"

Essa semana li [tardiamente, eu sei] o livro Divã, de Martha Medeiros. Sobre ele ainda farei um post, por isso não me demorarei muito... Quero apenas transcrever um excerto que caminha de mãos dadas com o de Paulo:

"Tenho que arcar com a porcaria de destino que eu havia proposto pra mim... Lopes, eu me sinto tão sozinha... tão sozinha..."


Há mais ou menos um mês voltei a escrever um journal/diário... Sei lá o que diabos é o que tenho escrito! Às vezes se parece com o muro das lamentações, às vezes é a cópia da Bridget Jones, e em outras se parece com o caderno de uma adolescente, de tantos adesivos e canetas coloridas... De qualquer forma, tem sido uma boa forma de não guardar tudo aquilo que tem tentado me engolir.

Não, eu não estou bem. Ainda assim, obrigada por perguntar. Sinto como se alguém estivesse com as duas mãos em minha garganta, me obrigando a tomar uma decisão. O problema é que o maldito não diz qual é a decisão! Só fica ali, me encarando com seus grandes olhos vermelhos no escuro.

Nesse feriado eu estava jogada na cama, zapeando sem prestar atenção na tv, quando encontrei o filme [cretinamente lindo!] "Ao entardecer". Na verdade, eu nem estava querendo assistir nada. Acho até que foi ele que me encontrou. Aproveitei a viagem que o filme faz por entre os sentimentos humanos, e viajei pra dentro de mim.

Tenho feito turismo em mim mesma há uns dois meses. Aproveitei que a sozinhez veio me fazer companhia, e me escondi do mundo. Não tenho visto os amigos, não tenho ouvido rockn roll. Não tenho enchido a cara. Tenho apenas trabalhado e sentido. Sentido, na maior parte do tempo, esse vazio que me preenche.

É com vergonha que admito que sou uma mulher de passado. Gosto de velhos autores, velhas músicas, e, principalmente, da minha velha vida. Tomo nostalgia assim como quem toma café pela manhã. Doses às vezes homeopáticas, às vezes cavalares.

Sim, eu sei, é feio viver no passado. Mas o problema é que vivo no presente suspirando com o passado. Tenho lembranças tão lindas, tão fortes... que é difícil olhar pro espelho e admitir que elas são apenas isso, lembranças.

Acho que, no fundo, eu mudei de uma tal forma que ainda não consegui me ajustar em mim. Assim como quando nos mudamos para uma nova casa, onde é difícil se acostumar com as paredes; onde, à noite, não se sabe onde está o interruptor e se sai batendo e tropeçando em tudo.

Costumo dizer que conhecia minhas novas casas quando pudesse, no escuro, ir até a cozinha ou ao banheiro e voltar sem nenhuma batidinha, como se as luzes estivessem acesas. E o que me faz falta é isso: saber andar por mim no escuro. Não consigo encontrar meu interruptor, e meu dedinho tem uma espécie de imã pros sentimentos mais doloridos.

Depois de ler Divã, me identifiquei com Mercedes mais do que queria. Sim, eu sei, eu e a torcida do Flamengo... Sinto também essa angústia de quem acha que sabe todas as verdades sobre si mesma e, de repente, descobre-se estranha.

Já há algum tempo tenho culpado minhas variações bruscas de humor pela chegada dos 30. Falta só um ano e 4 meses. Minha esperança é a de que, quando eu chegar lá, eu me liberte. Mas, encaremos, sou mulher, e mulheres nunca se libertam.

Comecei a escrever esse post ontem à noite, quer dizer, de madrugada, quando, no lugar do sono que teimava em não vir, a tristeza aconchegou-se nos meus braços. Tristeza assim, com T maiúsculo e tudo. Fechei o notebook, deixei o post pra lá e adormeci molhando o travesseiro.

Hoje eu quero um cobertor quentinho, uma xícara de chá, umas páginas de "Descoberta do mundo" e um tempo comigo mesma. Sem trabalho, sem perguntas, sem vazios. Eu e o cinza. Por falar em cinza, lembrei desse poema que fiz há muitos outonos atrás...


Minha poesia parou no muro.
No cinza da poluição.
No cinza da tristeza.
No cinza da suor.
Meu desalento pegou carona.
No cinza de teus olhos.
No cinza de um céu que chora.
No cinza de minhas mãos.
Meus amores foram-se embora
No cinza trem de uma estação qualquer.
Na cinza hora de um dia qualquer.
Na cinza desesperança de um coração qualquer.

Engraçado como, mesmo que nos vejamos estranhas, há certas coisas que permanecem. Nesse ciclo de idas e voltas, acabamos em nós mesmas.

Não, continuo não estando bem. Mas, obrigada por perguntar novamente. Estou vivendo, e isso, por enquanto, me basta. Hoje de manhã, num domingo gelado, que fez meu coração de gengibre ficar apertadinho de tanta saudade de Curitiba, eu só consegui pensar no último parágrafo do texto de Paulo Mendes Campos.

E é com ele que me despeço, pois esse post já se tornou desconexo, e o domingo está aí, me pedindo um afago. Hoje o dia não tem sol, e esse cinza me completa. Como se o céu fosse uma extensão desse cinza que me pinta, desse cinza que me abraça, desse cinza que, acredite você, me conforta.

"Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça."

E é exatamente essa fronteira que estou tentando, cotidianamente, não ultrapassar...

Tenha uma excelente semana!

Um beijo, cheio de uma maldade não tão má assim...
Patrícia Pirota

5 comentários:

  1. Simplesmente o que eu precisava ler.

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  2. Até olhei novamente pra ter certeza de que não era eu assinando este post.

    Pois bem. Devo dizer que eu passei a fronteira. Ou melhor, estou com um pé de cada lado dela. Tem dias que o corpo pende pra um lado, tem dias, muitos, que ele pende pro outro. Ter feito trinta me deixou assim, sem força de saber pra qual dos dois devo ir. É que antes do trinta, o lado de lá da fronteira era rosa sabe? O mundo era rosa, as pessoas eram rosa e era tão mais fácil acreditar que nem havia fronteiras.
    Mas depois que fiz trinta ficou tudo muito cinza. Porque essa é a cor do outro lado.

    Não sei que cor que sairá da mistura dessas duas, não sei se dá pra passar o resto da vida com um pé lá e outro cá.

    Não tenho nenhum comentário útil pra te fazer essa hora da manhã e da vida.

    Sei o que Jane Eyre me ensinou, que continuo usando e lutando pra usar: não importa em que lado da fronteira eu esteja, não importa qual a cor que o mundo tem pra mim, vou continuar me respeitando. E rezando, pra mim. Porque Deus, ah Deus já sabe o que eu tenho a dizer... Já eu, preciso dizer todo dia, em voz alta, pra modo de eu não correr o risco de não escutar.

    Fique(mos) bem!

    beijos!

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  3. Assim como a crônica do P. Mendes Campos, a sua também é para a gente ler, reler e não esquecer mais. Me lembrei da Marieta Severo, que quando tinha lá suas discussões existenciais com o Chico Buarque lhe dizia que a gente não pode deixar uma dor , ausência ou cinza do mundo se maior do que nós mesmos.(está no Livro Perfis do Rio, Chico Buarque) E vamos em frente. Uma ótima semana. paz e bem.

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  4. Sem saber o que dizer, deixo um abração pra você...

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  5. Oi, Patricia!
    Como eu faço para comentar algo tão bem escrito, tão absurdamente humano e, mais que tudo, feminino? Não sei...

    Mas sei de uma coisa, adoraria vê-lo publicado no Bicha Fêmea que, você sabe, é feminino por natureza.
    Já faz um tempo te mostrei no Bicha Fêmea... queria fazer isso de novo.

    O que você acha da ideia? Se sim, podemos acertar detalhes por e-mail? bichafemea@bichafemea.com

    Beijos e beijos,
    Lidi

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