terça-feira, 26 de julho de 2011

O caso do vestido... [o meu e o de Drummond]

Em outubro do ano passado, eu estava louca atrás de um vestido para o casamento de um dos meus melhores amigos. Mas, como boa "brima" que sou, não queria gastar horrores num pedacinho de pano, além de estar economizando até os centavos para me esbaldar na Saraiva e na Cultura [o casamento foi em Campinas].

Passeando pela Renner dos meus pecados me deparei com o vestido dos meus sonhos de Cinderela/Branca de Neve/qualquer fada dos contos de fadas... Ele tinha um amarelinho lindo, era cheio de flores, tinha babados, era de pseudo-seda, com um toque delicioso (me apego a roupas "gostosas" de vestir), era mega longo. A cara da primavera. A minha cara. A cara dos 130 contos que ele custava...

Olha os babados que fofos...
Quase me rendi ao vestido, de tão fofo. Mas, quando imaginei a quantidade de livros que eu poderia comprar com aqueles 130 reais, deixei o vestido lá, com uma dor no coração de gengibre, e voltei na Riachuelo pra comprar um pratinha básico que tinha visto na promoção. Esse não era a minha cara, mas, por 20 reais, foi ele mesmo. Não que fosse feio, era de um cetim gostoso, um prata bonitão, bem chique, aliás. E tinha babados, muitos babados. Olha só um pedaço do bonitinho aqui do lado [não consegui achar fotos dele de corpo inteiro].

Pois bem... Deixei o vestido amarelo na Renner, mas o bendito não me deixou... Sempre que eu passava por lá, ficava na esperança de encontrá-lo, e levá-lo pra um passeio, um café... Não sei vocês, mas quando eu "encarno" com uma coisa, não há novena ou despacho que me faça esquecer...


O casamento passou. Voltei de Campinas com mais de 20 livros na mala. E tentei esquecer o vestido... Como aquelas paixões à primeira [e única] vista...

Mas, como isso aqui é um conto de fadas, é claro que vai ter um final feliz, né?!

Esses dias, no meu horário de almoço, estava eu, lépida e faceira passeando pela Renner [que um dia ainda vai me falir com seus acessórios na promoção], quando avisto um tecido amarelinho. Andei até ele, com o coração apertadinho, e, quando o tirei do cabide, quase que tive que sentar na banquetinha.

Sim, era ele. Sim, era o único tamanho quarenta. Não, ele não estava 130 contos. E foi exatamente por isso que quase tive que sentar. A moça que estava ao meu lado também não conseguia acreditar no preço. E, como eu sei que você também não acreditaria se eu contasse, olha a foto dele ainda com a etiqueta:

Não, você não leu errado. É exatamente DEZENOVE E NOVENTA E NOVE!!!
É ou não é a maior pechincha dos últimos tempos?!

Pois é... A espera valeu a pena. Às vezes, esperar vale a pena... Quando cheguei em casa com essa boniteza, só conseguia pensar em tirar foto dele pendurado perto do jardinzinho da área. Acho que vi alguma vez em algum editorial de revista, que, é claro, eu não faço idéia do nome... E foi isso que fiz: cheguei, coloquei ele num cabide, e agora você olha e me diz se ele não é a cara da primavera?!

Não é uma das coisas mais lindas que você já viu nessa vida?!
Clica que aumenta...
E aí está, o meu tão sonhado e esperado vestido. E enquanto eu estava escrevendo o post, não pude deixar de lembrar de um poema lindolindo do meu amado Drummond... Termino o post com ele.

Mas e você, também já fez um achado assim, que aquecesse seu coração e não arrombasse seu bolso? Conta pra mim, vai...

Caso do Vestido
Carlos Drummond de Andrade

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe, 
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda, 
dava carro, dava ouro, 

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai, 
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim, 
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda, 
de colo mui devassado, 

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas, 
passei ponte, passei rio, 

visitei vossos parentes, 
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos, 
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela, 
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho, 
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

 ["Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, p. 157]



Ps: aproveito o post pra criar uma nova tag [adoro criar tags!]. A "Olhar de MininaMá", que é, inclusive o nome do meu Tumblr, vai ser usada pra indicar os posts com imagens. Seja de roupa, decoração, maquiagem... Enfim... Aqueles posts "mulherzinha" que não são feitos só de palavras...

Um beijo cheio de uma maldade nem tão má assim...

3 comentários:

  1. Nossa adorei esse post! Me identifiquei muito [sempre encasqueto com alguma coisa/ sempre volto nas lojas pra ver etiquetas de remarcação de preço!] e q bom q teve um final tão feliz [e tão baratinho] pro seu lindo vestido amarelo!
    Amei muito o poema do Drummond, um dos meus poetas favoritos de todos os tempos!

    Bjaum

    ResponderExcluir
  2. Ah, eu nunca acho roupa na Renner com esse preço.... QUe absurdo... hehehehe.. mas é bom mesmo achar algo que queremos por um precinho bacana... pena que isso acontece pouco com minha pessoa.. xD
    bjusss

    ResponderExcluir
  3. Cah,

    Eu sou a doida das etiquetas amarelas/laranjadas. Meu olho já é treinado pra ir direto nas roupas em promoção =P

    ******************

    Debbys,
    O jeito é olhar sempre. Tem muita coisa na promoção, e, com certeza, uma hora você acha aquilo que serve direitinho nos seus desejos ;)

    ResponderExcluir

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