domingo, 31 de julho de 2011

Volta às aulas ou "Dez boas razões pelas quais eu sou professora"...

Remexendo nas tranqueiras, e organizando os papéis [como contei nesse post AQUI], encontrei a cópia do discurso que minha professora, Dra. Regina Célia Vieira [uma das melhores professoras que tive na vida!], fez na ocasião em que foi Paraninfa da turma de Letras da UFMS.

Regina foi um dos maiores e melhores exemplos que tive, não só de como ser uma professora, mas também de como ensinar a teoria da forma mais acessível e gostosa possível. Ela foi minha professora de Língua Inglesa, e, mesmo tendo se aposentado um ano antes, decidiu dar aula pra nossa turma (em nosso último ano), pra encerrar seu ciclo, como ela dizia.

Ela também é mãe de uma grande amiga minha [que não vejo há muito tempo, é verdade, mas que não deixa de ser amiga, eu espero...], e, por isso, tive a oportunidade de conhecê-la também fora de sala, o que fez com que minha admiração aumentasse ainda mais... Porque ela era a mesma pessoa dentro e fora de sala. Ela era gentil, educada, alegre, interessada, carinhosa... Dentro e fora de sala. E sempre imaginei que quando eu conseguisse ser como ela, teria chegado onde todo professor deve chegar: na maturidade.

Não, ainda não cheguei lá... Ainda tento encontrar o equilíbrio entre a professora Patrícia e a pessoa Patrícia. Mas continuo tentando, lutando e trabalhando pra isso...

No fim das contas, esse post era pra reproduzir o discurso que ela fez [e que, carinhosamente, me deu uma cópia], mas acabei me entregando às lembranças e à tietagem...

Como a volta às aulas é amanhã, nada melhor do que começar com as palavras de uma verdadeira mestra... De antemão aviso que o trem é grande [mesmo eu tendo editado algumas partes], afinal, um discurso escrito por alguém de Letras não teria apenas uma lauda, né não?


"[...] Quero basear a minha fala nesta noite em um texto escrito por uma professora americana chamada Carmine de Carlo, publicado em uma revista acadêmica de uma universidade da Pensilvânia. Este texto se chama Dez boas razões pelas quais eu sou professora [...]. O texto, como o título revela, enumera as razões pelas quais a professora De Carlo optou pela profissão de educadora. [...]

A professora De Carlo pediu a uma caloura de Pedagogia que lhe desse 3 razões pelas quais e aluna tinha escolhido o curso. A garota respondeu prontamente: Junho, Julho e Agosto (se fosse aqui no Brasil, a resposta equivalente seria Dezembro, Janeiro e Fevereiro). Os meses de férias! A professora emudeceu, e a garota, vendo o embaraço, devolveu a pergunta: E a senhora, Dra. De Carlo, por que a senhora é professora?

Nesse instante, passa pela cabeça da professora todo o seu tempo de ensino em escolas do nível médio e superior, mas ela não consegue articular os pensamentos e responder. Depois de um tempo, escreve esse artigo primoroso, listando não apenas 3, mas 10 razões, dizendo que espera que, para o bem de todos, aquela garota tenha reconsiderado sua resposta, ou mudado de curso.

Agora eu pergunto para vocês formandos e para os demais professores presentes: por que escolhemos a divina tarefa de ensinar?

Porque somos um pouco artistas e temos talento para nos colocar em lugar de destaque numa sala cheia e prender a atenção dessa platéia?

Porque somos um pouco artesãos, moldando nossos alunos, ensinando-os a aprender a estudar, levando-os a descobrir, por eles mesmos, as respostas.[...]

Porque somos interessados em comportamento humano e servimos, muitas vezes, de psicólogo, já que temos facilidade de ouvir, criando laços afetivos com nossos alunos.

Porque somos altruístas, a ponto de querer compartilhar aquilo que adquirimos ao longo de nossa jornada e mostrar o caminho que pode ser percorrido.

Por causa de tudo isso e de muito mais.

O nosso trabalho nos enriquece do ponto de vista intelectual. Ensinar nos faz aprender. Os acadêmicos que começaram a lecionar nos primeiros anos do curso podem confirmar isso. [...] Temos que entender que o verdadeiro educador não é aquele que sempre sabe tudo, mas que indica o caminho, que indica onde se ir para encontrar as respostas, em suma, é aquele que ensina a pescar.

O nosso trabalho nos enriquece do ponto de vista social. Acompanhar o crescimento de seu aluno, vê-lo chegando adolescente e inseguro, e vê-lo terminar seu curso, apesar das mãos suadas e geladas dos primeiros dias e das noites mal dormidas, é uma satisfação semelhante à do dever cumprido. [...]

Ser professor nos enriquece emocionalmente. As alegrias dos alunos em seus momentos de vitória, a angústia nos momentos de insucesso, [...] tudo isso envolve até o mais duro dos professores. [...] Perceber o esforço daqueles alunos que sentem dificuldade em aprender a disciplina, e, no final, vê-los colocando a cabeça fora d'água e sendo aprovados, mesmo com nota mínima, nos faz pensar na perseverança, nos dá uma aula de perseverança.

Segundo Henry Adams, um pensador americano, professores têm influência eterna, eles nunca sabem onde sua influência termina.

O nosso trabalho é como a pedrinha jogada na água de um lago calmo, que forma círculos de proporções infinitas/indefinidas. Nós afetamos a vida dos nossos alunos, que afetarão a vida de seus alunos, que irão afetar a vida dos alunos deles. O nosso exemplo é eterno e aí reside nossa responsabilidade. Tanto podemos matar quanto fazer brotar o interesse pela nossa disciplina, pelo nosso trabalho.

Precisamos ser bons naquilo que fazemos, precisamos nos aprimorar sempre, porque nós podemos ser ignorantes num vilarejo, mas, se levarmos a nossa ignorância para a cidade, seremos os dois atropelados.

A nossa relação com nosso trabalho é transparente. Todo aluno percebe quando o professor realmente ama o que faz e é aí que nasce o respeito. Somos nós, pela nossa postura, pela nossa atitude, que dizemos o quanto valemos.

Finalizando, é por tudo isso que a Dra. De Carlo e eu decidimos ser professoras. O texto dela é aquele que eu gostaria de ter escrito, e que gostaria que todos vocês assinassem embaixo.

O que eu posso desejar a vocês nesse momento é que vocês tenham, no limiar da aposentadoria, a sensação que estou tendo hoje: gratidão a Deus, aos meus colegas e aos meus alunos por terem me conduzido até aqui; paz, por sentir o doce gosto do dever cumprido e alegria, por ver nos olhos de vocês a semente da perseverança e o brilho do sucesso".

Que tenhamos um ótimo semestre. E que, apesar de as férias serem salvadoras, pensemos em outros motivos pelos quais nos levantaremos cedo nos próximos meses...

 IMAGEM RETIRADA DAQUI


Um beijo, cheio de uma maldade nem tão má assim...
@patriciapirota


5 comentários:

  1. Eu queria apenas trabalhar por prazer, como voluntária, sem essa de trabalhar por obrigação, assim eu não gosto e em só um lugar que tive realmente prazer em fazê-lo.
    Escolhi um curso para fazer faculdade e no estágio percebi que eu deveria ter feito pedagogia antes mesmo, como era meu sonho de adolescente interrompido por uma gravidez não planejada. Dei aulas particulares sem receber nada, só pelo prazer de ensinar e na época ainda não precisava me manter.
    Estou longe de ser uma professora como profissão, talvez nunca serei mesmo, mas espero que eu consiga realizar um bom trabalho.
    E voltando à realidade(porque eu preciso trabalhar mesmo por obrigação), sua professora é daquelas que todos gostariam de ter com certeza, um exemplo para quase todos os outros professores desse nosso Brasil.
    Amei tudo isso.
    Beijos

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  2. Delícia de texto. Obrigada por ajudar a reforçar o combustível que mora aqui dentro!
    =*

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  3. Te invito a que veas mi nuevo blog, puede ser interesante.

    http://trabajoartesano.blogspot.com

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  4. seus alunos tem um grande privilegio de ter vc como profesora...uma pena que nem todos dão valor aos bons professores!)

    te admiro muito!!bjs*

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'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
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