terça-feira, 9 de agosto de 2011

Desdefinindo a mim mesma...

Mafalda, de Quino
Enquanto lia minha postagem de ontem, tive a impressão de que alguém a havia escrito em meu lugar. Hoje, já não me reconheço naquelas palavras. Talvez em algumas, mas o fardo que elas parecem pesar já não recai sobre os meus ombros.

Não, não sou bipolar. Sou humana. Simples assim... Acho um inferno que agora todo mundo que mude de opinião ou de sentimento seja bipolar. Fosse assim, todas as mulheres seriam bipolares desde o nascimento, sem nem precisar de laudo e Valium. Mas não, meus queridos. Mulher é bicho do demônio por causa dos hormônios, e não de uma invenção da psiquiatria.

Vejam vocês... Ontem eu queria me jogar de um penhasco. Hoje, acordei tão bem que até vesti minha camiseta cheia de coraçõezinhos. Saí de casa me sentindo toda fofa. Até o sorriso era outro. A tristeza? Guardei-a numa caixinha no criado mudo. Sendo mudo, ele não pode alimentar as lamúrias dela.

Notei que ando meio reclamona ultimamente. Ingrata. Meu sobrenome. Muito desprazer. Que a vida não 'tá fácil pra ninguém, não precisa ter o Q.I. do Sheldon pra saber. O que é importante perguntar é se estamos sendo fáceis pra vida, isso sim...

Eu tenho certeza de que não estou. Ando com síndrome de poor thing... E de coitada não tenho sequer a rima. Tenho uma vida boa, sim senhor. Muito aquém do que sonho, e é aí que está o problema! Eu sonho ser tantas que acabo não me contentando em ser uma por vez.

Sou insatisfeita por natureza. Podia ser bonita por natureza, mas fazer o que, né? Cada um tem a natureza que merece. E, no fundo, acho que é isso que me faz crescer, porque é justo essa insatisfação que nos leva a querer sempre ser mais e melhores.

Tudo bem que tenho pesado a mão na insatisfação do cotidiano. E isso acabou me rendendo uma puta marca de expressão no meio da testa, que não há Renew neste mundo que dê jeito! Então... Depois de olhar minha marca de expressão, minhas olheiras e meu sorriso amarelo hoje pela manhã no espelho, mandei essa bichice de tristeza praputaqueopariu, e saí vestida de coração e espírito de porco.

E pronto. E acabou. E eu sou birrenta pra diabo, e quando digo que não quero alguma coisa, só Iansã pra me convencer do contrário, meu filho!

Pensa comigo... Estamos todos vivendo num mundo ferrado, não estamos? Adianta chorar as pitangas por causa disso? Adianta fazer carinha de triste, e soltar um "Que absurdo!", quando você ouve no jornal que 70% dos casos de violência contra os idosos é cometida pelos próprios filhos? Putaqueopariu! Que mundo é esse no qual os filhos tem coragem de machucar um pai? Ainda mais um velhinho, que malemá consegue parar em pé!

Hoje, enquanto tentava engolir meu almoço e assistia ao jornal, prometi que ia parar com essa frescura. Não, não consegui expulsar o maldito do vazio de dentro de mim. Mas agora, se esse malacabado quer morar aqui, vai ter que começar a pagar aluguel. E não vai ser barato, não!

A tristeza é poética. É bonita. É Vinícius de Moraes. Mas não cabe na bolsa do dia-a-dia, minha gente! A gente já anda com uma bolsa do tamanho do mundo, tentando, inclusive, carregar o mundo nela. Se deixarmos a tristeza nos acompanhar por onde formos, ficaremos doentes. Do corpo e da alma.

Peço desculpas ao meu Eu SegundaGeraçãodoRomantismo, mas ele vai levar uma surrinha do meu Eu MachadodeAssismeetsBukowski...

E, como uma espartana [mas não tão gostosa quanto um], grito meu lema: "Vida é luta! Vida sem luta é um mar morto no meio do organismo universal" [Machado em Memórias Póstumas].

Tenho emprego. Tenho saúde. Tenho família. Tenho casa. Comida. Roupa lavada. Tenho mais livros do que dou conta de ler. Mais sapatos do que pés para calçá-los. Mais camisetas do que dias do mês para vesti-las. Tenho O Bando do Velho Jack. Tenho Bêbados Habilidosos. Tenho amigos. Tenho beijoabraçoapertodemãoeotrascositasmás mesmo sem ter um namorado. Tenho um blog no qual eu posso escrever com o eu que me der na telha. Tenho todo o tempo do mundo...

Sabe uma das coisas que mais gosto do fundo do poço? É que toda vez que chego nele, levanto putíssima e saio feito um furacão tentando reaproveitar o tempo que passei lá.

Se ontem minha música era Soledad, hoje estou vestida de Velha Guarda da Portela... Toda de azul... E é com essas duas músicas, que me ressuscitaram hoje, que continuo pensando no futuro...

"Sei que reclamas em vão / Porque não tens a compreensão/Que o mundo é bom/Para quem sabe viver/E se conforma com que Deus lhe dá/A nossa vida é nascer e florescer/Para mais tarde morrer"

"O dia se renova todo dia/Eu envelheço cada dia e cada mês/O mundo passa por mim todos os dias/Enquanto eu passo pelo mundo uma vez/A natureza é perfeita/Não há quem possa duvidar/A noite é o dia que dorme /O dia é a noite ao despertar"

Hoje eu quero me vestir de azul e cantar Velha Guarda da Portela... E se a Dona Tristeza não me pagar o aluguel em dia, contrato um bom advogado e entro com ordem de despejo! Porque é bom mergulhar em nós mesmos vezemquando, mas tem horas que é mais confortável ficar com a cabeça pra fora da água. Solidão é gostoso, faz crescer nossa poesia interior, mas, muitas vezes, nos impede de viver o mundo que está fora de nós.

Amanhã, talvez, uma professora do tipo Professora Helena escreva um post falando de seus alunos fofos. Ou, quem sabe, na sexta, baixe em mim o espírito de Penny Lane. E, talvez, no domingo, eu seja só mais uma alma cansada da ressaca. Não sei, e, sinceramente, não quero saber...

Eu só quero ter a liberdade de ser todas aquelas que sou. Não quero mais me prender a uma camisa de força, e tentar esquecer que somos tantas a cada dia, que qualquer tentativa de definição nos frustrará mais do que acabar o espaço do Memory Card bem quando você consegue matar o último chefão do Mário, e tem que começar o jogo todo de novo!

Quero me desdefinir. Pronto. Talvez, assim, eu consiga me sentir confortável em minha própria pele, independente do Eu que ela esteja vestindo...

Me reservo o direito de me vestir de cinza quando eu assim precisar... E acho mesmo que esses nossos direitos são o que nos fazem feliz. Ter o direito de ser e sentir o que quisermos, independente do que o mundo quer, nos desescraviza de nós mesmos.

E eu cansei de ser escrava. Hoje assino a abolição da minha escravatura do mundo, pra voltar a ser escrava apenas dos meus desejos... Mesmo que eles sejam mundanos; mesmo que essa seja uma discussão que nunca tenha fim; mesmo que amanhã eu volte encharcada em suor e lágrimas; mesmo que o mundo não acabe em 2012, ou acabe... Mesmo assim, quero continuar me desdefinindo, até o dia em que puder sair com a alma nua e sem grilhões. Até lá, vou me vestindo com as cores que minha alma sussurra...

Um beijo, cheio de uma maldade nem tão má assim...

10 comentários:

  1. ai meu pai! eu to feliz demais pois a Patricia Pirota voltou a escrever
    ebaaaaaa! rs

    faz uns 3 meses que tô sem internet em casa...fiquei um tempão sem entrar aqui..e quando entro: grande surpresa!

    ô coisa boa!!!

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  2. Por muito tempo eu alimentei uma bestagem de que é construindo dia a dia que o ser humano cresce. Mas não somos edificações sólidas feito concreto armado. Desconstruindo e reconstruindo a cada dia (esta multiplicidade maravilhosa de eus) é que faz a gente crescer mesmo. E como disse o nosso sábio conterrâneo Guimarães Rosa:

    "O correr da vida embrulha tudo.
    A vida é assim: esquenta e esfria,
    aperta e daí afrouxa,
    sossega e depois desinquieta.
    O que ela quer da gente é coragem"



    Abraços, paz e bem.

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  3. Amei isso: "Peço desculpas ao meu Eu SegundaGeraçãodoRomantismo, mas ele vai levar uma surrinha do meu Eu MachadodeAssismeetsBukowski...'

    E "vou me vestindo com as cores que minha alma sussurra..." é tanta poesia!

    Te achei no blog da Ju! Tô chegando pra ficar!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Cabecinha, deletei meu comentário achando que era duplicado :(

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  6. Ontem pela madrugada estive lendo o seu blogue e fiz a maior confusão com a caixinha de comentários ;)
    Os textos refletem o humor e o estado atual de quem escreve. Normal que estes oscilem conforme as influências externas que recebem. Não acho que seja má :D é normal!! Feliz dia!! Beijus,

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  7. ...

    Tudo bem com você?
    Adoro seus comentários, viu. Pena que não tenho como responder, e não sei se você volta aqui pra lê-los...
    Me deixa um e-mail? Vi no seu perfil que é de CG, quem sabe a gente marca um café? =)

    ***********************

    Cacá, querido...
    Como sempre suas palavras são perfeitas... E essa citação do Rosa não poderia ter vindo em melhor hora. Obrigada!

    Um abraço!

    ***********************

    Aline,
    Fique sim! Fique sempre! Muito bom ter você aqui... =)

    ***********************

    Luminha,
    Sabe que aprendi a aceitar essa oscilação? Ando tão diferente com o passar dos dias, que se eu for me preocupar, fico louca...
    Um beijo procê, sua linda!

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  8. Oi de novo! Tô comentando meio atrasada mas é que hoje, depois de meses, é que voltei ao seu blog! Agora só quero dizer que adorei esse seu escrito... De novo, caiu como uma luva aqui nestas bandas mineiras! Obrigadinha!

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  9. Puxa, escrevi um comentário mas ele se apagou misteriosamente! Vamos lá, de novo!

    Este é um comentário ainda mais atrasado que os outros que fiz hoje, mas eu quis dizer que gostei muito do seu escrito, que ele caiu mesmo como uma luva aqui nas bandas de Minas... Foi muito bom passar parte da tarde lendo você, Patrícia! Obrigadinha!

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  10. Patrícia eu tava om essa ideia na minha cabeça: que ra de lua, bipolar, louca e o escambau, mas ai esse seu texto lindo me deu uma bofetadaem plena face e apenas me avisou que era um ser humano e mulher, pra variar... Ah Patrícia cuspiu todas as palavras que eu queria falar, e ontem mesmo tava falnado que absurdo com certas coisas que anda acontecendo nesse nosso mundo louco.
    Pois bem, suas palavras simples, diretas e por isso tão profundas, me aliviaram a alma^^

    Beijos querida.
    www.desventuradeumaestranha.blogspot.com

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