segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dos vazios que me tomam conta...

Eu e minha solidão, em
foto e arte feitas por Ana Cacau.
Há certos dias em que os vazios me inundam. Na verdade, penso que tenho estações de vazio; como se de tempos em tempos eu precisasse me sentir assim, como uma bolha de sabão passeando por entre os raios de sol, pra depois cair na grama e derreter-me em lágrimas.

Quando entro na estação do vazio, tento não pensar, porque pensar apenas me machucaria. Fico absorta com as folhas que caem das árvores que não plantei, com as páginas dos livros que não escrevi, me abandono às lembranças de amores que nunca tive.

Tenho sonhado acordada. Penso até que mais do que devia, e isso é um sinal. Um sinal de que a realidade está me sufocando. Um sinal de que mais cedo, espero que mais tarde, entrarei novamente no outono.

Minhas estações não batem no mesmo compasso da natureza. Tenho sentido um frio na alma que não remete ao sol que inunda meus olhos. Mesmo cercada de vontades, me jogo no vazio que é não querer vontade nenhuma.

Às vezes penso no quanto seria bom um afago, um sorriso, a sensação de que o mundo para ao nosso redor, exatamente como em "Peixe Grande e outras histórias". É num desses momentos que me transporto para um jardim de narcisos, e espero que alguém me venha colher os frutos.

Quando me outono, me sinto mais sozinha que nunca. E me agarro ao vazio como se ele me acarinhasse a alma. Por fora sorrio e trabalho, como as formigas. Por dentro, me estremeço como o gafanhoto no frio. Quem me dera ter colhido as flores na primavera... Ao menos eu não estaria olhando pr'esses botões secos que me enfeitam o inverno.

Tento compreender, mas, de que adianta a compreensão quando tudo o mais parece perder o sentido?

Nesses dias em que me sinto vazia, de nada adianta encher as mãos de esperanças, pois elas escorrerão por entre meus dedos como o pó das estrelas que nunca conheci.

Amor? Onde? Será que o esqueci num dos bancos da praça em que parei pra descansar da jornada?

Sei que, depois de amanhã, o vazio terá me abandonado, e eu deixarei de lhe dar as mãos para passearmos por entre minhas solidões. O diabo é que, quando ele vai embora, fico eu, sozinha. E ando preferindo o vazio à solidão. Ao menos o vazio me preenche de perguntas das quais jamais encontrarei as respostas. E isso me leva a seguir em frente.

Ando ouvindo repetidamente a música Soledad, do Jorge Drexler... Me sinto abraçada por ela. Sinto aquele carinho de um beijo suave. E ontem fui parar pra analisar a letra [porque pra tentar sair do vazio, às vezes, clamo pela razão]. Como um vestido feito sob medida, ela me vestiu e desde então é meu uniforme...



Soledad
Jorge Drexler

Soledad,
Aqui están mis credenciales,
Vengo llamando a tu puerta
Desde hace un tiempo,
Creo que pasaremos juntos temporales,
Propongo que tú y yo nos vayamos conociendo.
Aquí estoy,
Te traigo mis cicatrices,
Palabras sobre papel pentagramado,
No te fijes mucho en lo que dicen,
Me encontrarás
En cada cosa que he callado.
Ya pasó,
Ya he dejado que se empañe
La ilusión de que vivir es indoloro.
Que raro que seas tú
Quien me acompañe, soledad,
A mi que nunca supe bien
Cómo estar solo.

Ouça a música enquanto acompanha a letra. Sabe esse aperto no peito, esse sentimento que não tem nome, e, talvez, por isso mesmo seja tão poderoso? Essa é minha roupa dos últimos dias...

Por fora de visto de bons dias, mas por dentro tenho me vestido de soledad...

E assim vou seguindo... Até o dia em que minha primavera voltar, e eu puder colher os frutos que não tive coragem de plantar...

Me desculpe pela tristeza, mas, às vezes, é impossível evitar que ela nos visite...

Um beijo, cheio de uma maldade nem tão má assim...

9 comentários:

  1. Ei querida!
    O seu texto é lindo, torço para que ao escrevê-lo metade de sua tristeza tenha feito as malas e que você possa então plantar seus frutos e viver sua primavera.
    Que sua semana seja de paz.
    Gd beijo

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  2. Oi Patrícia, olha eu aqui comentando de novo...
    Às vezes sinto-te como uma irmã pois mais uma vez sua postagem parece estar falando de mim,
    Nos últimos dias sintom-me também em um outono sem fim... sinto o vazio me inundar também...
    Tento também não pensar porque pensar me faria desmanchar em lágrimas... e qdo falo isso com minha irmã... ela diz-me que não entende... como pode pessoa inteligente, com faculdade, pós, casa, carro, emprego legal, pode sentir-se assim... e respondo: - Não sei... apenas sinto... deixa-me sentir...
    E, por incrível que pareça... é bom saber que não sou a única a sentir-me assim...
    Beijos à espera do verão...

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  3. Gilmara...
    Obrigada pelo elogio... ^ ^
    E muito obrigada por suas palavras tão delicadas...
    A tristeza não fez as malas, mas aquietou-se um cadinho...
    Um beijo procê!

    ****************

    Rafa...
    Fico feliz por minhas palavras serem compartilhadas por você. Pena que sejam palavras tristes...
    Eu entendo, e como entendo, essa sensação de ter tudo e ainda faltar algo.
    Mas acho que esse algo que falta é o que nos faz continuar em frente, lutando para consegui-lo. E quando o conseguirmos, outra coisa faltará... E assim vamos levando a vida...
    Que façamos hoje nosso verão...
    Um beijo procê!

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  4. Rafa...
    Tentei comentar no teu blog, mas não consegui...
    Espero que você esteja bem [Li teu último post...]
    =*

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  5. Olá Patrícia...
    Problemas na configuração sanado...
    Agora já é possível postar comentários em meu humilde blog...
    bjs

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  6. Rafa,
    Agora que vi o comentário...
    Pode deixar que vou lá deixar um beijo procê ;)

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  7. A solidão pode ser um inverno na alma. Mas, também pode ser aquele verão onde todos estão querendo entrar no mar se perceber que tem outros seres humanos próximos. Independente de onde estamos a solidão pode ser uma opção. E o pior é que esta opção pode não ser nossa. Podemos ser resultante da ação dos outros. Podemos vencer a solidão contribuindo para o bem estar das pessoas que nos rodeiam.

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  8. Reflexão,

    'Brigada por suas palavras, viu...
    'Tô tentando vencer a solidão buscando exatamente nos que me rodeiam a alegria de compartilhar a vida... =)

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  9. Patrícia, flor.
    A cada texto seu lido, minha alma canta de alegria com tanta poesia - olha até rimou, mas não foi de próposito!
    Lindo seu texto e muito triste, mas para mim é só mais uma confirmação de que o sifrimento e a solidão são outras faces da felicidade, pode até não fazer sentido, mas para mim é a verdade.

    Tô amando visitar seu espaço^^
    www.desventuradeumaestranha.blogspot.com

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Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

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