segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quem é você em uma palavra?


Defina-se com apenas uma característica. Você consegue responder, assim, de bate pronto? Com o olhar do outro repousado nervosamente sobre você, esperando um deslize, uma bobagem, esperando que você admita que não sabe quem é?

Foram poucas as vezes em que passei por essa situação. Acho que devo ter feito, ao todo, umas 5 entrevistas de emprego que requeriam essa informação (uma das vantagens de ser professora), e me lembro de sempre, SEMPRE, ficar nervosa na hora em que tinha que dizer minha maior qualidade e meu maior defeito.

Acho um inferno! Sou uma pessoa de quantidades (e muitas qualidades também, que o santo é de barro, e a humildade viajou), e não consigo me definir em uma palavra. Sinto muito! Por mais que eu ame palavras, e ache que elas definem o mundo, preciso delas em conjunto, assim, umas do ladinho das outras, bonitinhas, de mãos dadas.

Ontem, durante a reunião na escola, começamos com essa pergunta, que, na verdade, foi mais um "comando": Diga seu nome, a disciplina que leciona, e uma característica marcante. Momento de desespero pra maioria dos professores presentes. Nós, que trabalhamos com definições teóricas dia após dia, simplesmente não sabemos nos definir!

Depois de alguns professores [os quais se deram definições como exigente, alegre, perfeccionista, disciplinado] chegou a minha vez. E dentre tantas, mas tantas características possíveis nesse meu mundo, eu disse que era engraçada e irônica. Deusdocéu!!! O que eu tinha na cabeça naquela hora?! Aquilo era uma reunião de trabalho, e, por mais que fosse descontraída, por mais que eu me sinta à vontade na escola, essa, definitivamente, não é uma característica pra citar para uma coordenadora e para uma psicóloga.

Depois, pensando friamente no que aconteceu, porque SIM! eu fiquei remoendo isso ontem o dia todo, e, provavelmente devo ter sonhado com isso, só consigo chegar à conclusão de que fui abduzida, ou um espírito de porco resolveu se apoderar da minha língua. Não tem outra explicação! NÃO TEM!

O pior é que, daqui a dez anos, esse episódio vai continuar me aporrinhando, e aumentando minha futura úlcera, porque eu sou do tipo de gente que guarda momentos vergonhosos pras horas em que está à toa, e gosta de se auto-flagelar mentalmente.

Me lembro até de ter pensado em dizer que sou criativa. Mas não lembro quais tortuosos caminhos levaram minha boca a dizer irônica. Qualquer um, em sã consciência, vai concordar comigo que essa não é uma característica que os empregadores buscam em seu funcionário ideal. Ela pode ser bacana em se tratando de textos, e no Twitter é uma beleza, agora, ninguém quer uma professora cuja maior característica seja a ironia.

Eu poderia ter dito que sou organizada (minhas coleções de cds e dvds por ordem alfabética que o digam!), que sou criativa, que sou enérgica, que sou prestativa, companheira, dinâmica, inteligente, paciente. Se tivesse escolhido qualquer uma dessas características, com certeza, não estaria mentindo. Mas não! Preferi dizer que sou engraçada e irônica.

Certeza que isso vai me render uma chamadinha em particular na sala da psicóloga (que, bytheway, é uma fofa que eu adoro!), além de anos e mais anos de terapia (que ela já me intimou a fazer, inclusive). Certeza que não vou esquecer isso tão cedo, e que no dia em que sair da escola, acharei que foi por causa disso. A única certeza que não tenho é de porquê isso aconteceu...

Todos nós temos nossos medos, mas acho que um medo quase unânime é o de ser julgado pelo que pensamos de nós mesmos. Ou ainda, sermos julgados pelo que somos. Ainda que saibamos que o julgamento ocorre 24 horas por dia, e que jamais estaremos livres da opinião alheia.

O que nós somos, afinal? Ora, somos o conjunto de tudo aquilo que temos, dizemos, amamos odiamos, falamos, calamos. Somos a nossa meia furada, o nosso esmalte descascado, a nossa barba por fazer (e isso é uma metáfora, porque É CLARO que eu não tenho barba...).

Somos os livros que lemos, os filmes que assistimos, as músicas que escutamos. Somos o dinheiro que sobra no fim do mês, isso, quando não sobra mês no fim do nosso dinheiro...

Somos o batom que usamos, o perfume que escolhemos, o abraço apertado que damos no amigo que não vemos há tanto tempo...

Somos o bom dia que damos ao porteiro, o beijo carinhoso que recebemos da mãe, somos a flor que nos faz sorrir em começo de primavera.

Somos as noites mal dormidas, as noites bem gozadas, os dias que passam arrastados e os dias de festa.

Somos, acima de tudo, nossas escolhas. Ou então, estamos nossas escolhas. Será que nossos momentos definem quem somos? Será que o meu momento ironic vai definir o resto dos meus dias? Provavelmente não...

Continuo com pânico de ter que me definir em uma palavra, mas, só por precaução, já salvei "criativa" no meu desktop mental. Continuo querendo levar uma surra por ter feito o que fiz, mas, justincase, não lerei ou assistirei "O Clube da Luta" por um tempo. Continuo...

Falta apenas uma semana para o meu aniversário. No próximo domingo, 10/10/10, farei 28 anos. Todos os anos, desde que me conheço por gente, esse período que antecede a comemoração do dia em que nasci me deixa estranha. Penso e repenso em tudo o que já fiz, tento descobrir o que ainda quero fazer, e, apesar de todos os meus esforços, nunca consigo descobrir quem sou.

Quer saber, como diria Lulu (o Santos, não a "zinha"), "deixa assim ficar subentendido"...

**********************************************

Ps: Mexendo no novo layout do blogspot, encontrei alguns rascunhos antigos, e me deparei com esse texto. O escrevi há quase um ano, mas parece que foi escrito hoje... Resolvi postá-lo, pois continua fazendo sentido... Continuo buscando respostas. Continuo fazendo perguntas...
Mas e você, consegue se definir em uma palavra? Diz pra mim, vai...

Um beijo cheio de uma maldade nem tão má assim...

8 comentários:

  1. Amei o texto e achei, por segundos, que era atual. Tanto é que corrigi você no twitter ;)

    Mas fica uma pergunta, se pega de surpresa novamente, você ainda responde "irônica!"?

    =D

    Porque eu acho que sim, viu? Machadianas serão sempre Machadianas... Não se lamente. Eu fiz o mesmo, várias vezes. E em entrevistas de emprego!

    Já disse, inclusive, sistemática!
    =*

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  2. Definitiamente, eu não consigo me definir em uma palavra apenas!! Embora, eu ame as palvras, tb preciso de várias delas, sou prolixa e me policio constantemente por isso!

    Depende do dia, da hora, da situação... Mas talvez eu diria: metódica ou organizada!

    Quem sabe é uma boa pergunta para fazer àqueles que lidamos profissionalmente tds os dias, nossos alunos!?!

    Excelente texto! Bjs!

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  3. Oi Patrícia,

    como professora que (também) sou, estava mesmo precisando dar um pulinho aqui! Seu blog me ajuda a recuperar o fôlego!

    E, como professora que sou, me coloquei na sua situação: minhas colegas teriam me servido no almoço se tivessem me escutado dizer que sou irônica! (Taí uma das minhas maiores dificuldades: lidar com as outras professoras! Caos total, total...)

    Eu, se fosse me definir em uma palavra, (talvez) seria "ternura". Gosto de me sentir terna, me faz mais forte pro mundo!

    Beijinhos ternos então!

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  4. nossa,que tenso, mas eu sou bem parecida com vc nesse quesito. .fico remoendo as coisas por décadas.. As pessoas esquecem, mas eu não, aquela burrada fica martelando minha cabeça..
    E preciso admitir, é quase impossível se definir em uma palavra!! Por isso odeio dinâmicas e afins, porque sempre rola isso.. kakakakakaka

    bjsss

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  5. Eu costumo me definir (quando é nessa pressão toda, rsrs) numa frase: sou do tamanho que eu vejo o mundo. Acho que encampa uma quantidade enorme de coisas (se é que eu vejo o mundo com muitas coisas).

    Patrícia, seus textos são uma delícia de se ler.

    E quanto à ironia, lembro de ter ido a uma palestra do Moacyr Scliar ano passado, pouco antes dele adoecer que tratava sobre humor,ironia e sarcasmo. A ironia é uma espécie de meio termo entre o humor e o sarcasmo (e aí que mora o perigo). Eu também sou irônico e alegre, mas cá pra nós, a gente que é assim não vive pisando em ovos? rsrs. Abração. Paz e bem.

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  6. Uma palavra? "Feminino" - um universo que abrange mais do que ser feminina e adoro essa característica nos homens. Mas enfim, medo da vida ou medo do que os outros pensam? Ainda hoje escrevi no texto atual do "Luz": As pessoas são cheias de razões. E elas conversam, trocam ideias, discutem apenas para expor suas razões. Não existiriam as discordias se as pessoas entendessem as razões dos outros.
    ..........
    Você fez as mudanças no blogue mas não tirou o opromo que tem esquentado a cabeça de muitos blogueiros por causa do malware contido nele. A Elaine Gaspareto falou sobre no post: "Como Resolver o problema do Malware no blog"
    .........
    Boa semana! Beijus,

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  7. òtimo texto!
    Criativo demais...
    Parabéns!
    Visita meu blog depois.**

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  8. Eu tb já fui atacada por este "espírito dus infernus ou se lá de onde veem", eu disse toda sorridente numa entrevista de emprego que era passional.

    Oh demência!!!

    Acho que te superei, fala sério

    Hug

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