sexta-feira, 14 de outubro de 2011

E o salário, ó... [Feliz dia dos professores!]

Em setembro passado, fez 12 anos desde que pisei pela primeira vez em uma sala de aula como professora. Faltava um mês para que eu completasse 17 anos, e sequer havia prestado vestibular (naquela época, ainda estava em dúvida entre Letras, Jornalismo e Física). Aceitei a proposta de um amigo, que me chamou para dar aulas de inglês num curso supletivo de "segundo grau" [é, minha filha! Eu sou velha! E ainda por cima se dizia Científico! Não tinha essa coisa de Ensino Médio não!]. 

Fui, toda faceira, de saia+All Star+camiseta polo+ingenuidade [sim! Eu lembro exatamente o que estava vestindo!] lá nos cafundósdojudas dar minha primeira aula. A coisa já começou meio torta, porque tive que mentir minha idade, afinal, o aluno mais novo tinha 18 anos (obrigatório por lei), e ninguém ia querer ter aula com uma moleca de 16, né não? Lembro bem da sensação de ter levado um soco no estômago, e do quanto era estranho ser chamada de "senhora" por um senhor de 73 anos.

Seu José. Me lembro de seus olhos azuis como água, e da sua educação sem igual. Me lembro da sua dificuldade em aprender aquela língua tão estranha. Mas o que mais me lembro era do carinho com o qual ele me tratava, como se eu fosse sua verdadeira mestra. Mal sabia ele que, no fim das contas, aprendi mais com ele, do que ele comigo...

Descobri então que a sensação que se tem de ensinar alguém, e, em troca, receber carinho e admiração, era a melhor coisa que eu podia experimentar na vida; e o que começou como uma brincadeira, transformou-se em vocação. Em fevereiro de 2000, entrei pra faculdade de Letras. E fui equilibrando faculdade e docência...

Eu cresci dando aula. E não é só "crescer" de idade, mas crescer por dentro. Me lembro de que às vezes chorava escondida no banheiro dos professores [do qual já fui expulsa infinitas vezes, aliás, por me confundirem com alunas]; chorava de medo, de cansaço, de vontade de levar uma vida normal...

Nessas horas, buscava na lembrança os meus melhores professores, e tentava fazer como eles faziam. Porque essa sim foi minha grande escola. Me lembro da professora Antônia, a responsável por hoje eu ser tão apaixonada por língua portuguesa; da professora Lourdes, que abriu meu coração para a Literatura; do Edson, que me ensinou os encantos da Física e o charme da Matemática; do Túlio, que de tanto que me botava medo, me fez decorar todos os malditos afluentes do Amazonas; do Zé Carlos, que fazia com que História parecesse coisa tão simples, mas, ao mesmo tempo tão importante.

Eu poderia ficar aqui por horas lembrando de tantos mestres que me ensinaram muito além de suas disciplinas. Mas antes de continuar, não posso esquecer daquela que acredito que tenha sido minha maior referência, meu melhor modelo: a Dra. Regina Célia Vieira, minha professora de Língua Inglesa da faculdade. Me lembro que, quando frequentava suas aulas, eu ficava sonhando com o dia em que meus alunos teriam a mesma admiração que eu tinha por ela. Uma mulher extraordinária, que ensinava não só com suas palavras, mas com seus gestos, seus olhares, seu sorriso, sua energia. Sempre disse que quando crescesse queria ser exatamente como D. Regina. Mas, pelo visto ainda não cresci...


Durante 8 anos, lecionei principalmente para o Ensino Médio. É possível que a proximidade entre nossas idades nos tornasse também próximos, quase amigos. Claro que já tive [e ainda tenho, ô se tenho!] alunos carnedepescoço, mas adorava provocá-los, e fazer com que se colocassem em sua posição de aprendizes; mas, na maioria dos casos, sempre mantive um bom relacionamento com os pestinhas.

Meus ex-alunos que frequentam este cafofo, façam o favor de se manifestar para não me deixar mentir sozinha!

Um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo o que eu queria fazer decidi abandonar tudo. Larguei concurso público, larguei 8 anos de profissão, larguei família, identidade, amigos [só carreguei um comigo. Ou será que foi você que me carregou no colo, tornando meus passos menos pesados, hein Thon...]. Larguei TUDO! Não queria mais ser professora. Estava cansada de reclamar. Estava cansada de passar aluno em conselho. Estava cansada de ter que ouvir desaforos, ler redações ilegíveis, gastar saliva, e ganhar rugas. Cansei e, como uma legítima desertora, abandonei o barco.

Passei 3 tranquilos anos lembrando de como é bom ser aluna. Que delícia poder ler o dia todo sem ter que me preocupar em planejar aulas; buscar noraioqueoparta uma idéia de aula diferente; corrigir provas quase em branco... Que delícia que foi poder ser eu, a Patrícia, e não a Professora Patrícia, novamente.

Mas, o Mestrado acabou, o Doutorado não veio, e acabei voltando para a minha profissão. Mas não se engane em achar que faço isso por falta de opção. Nananinanão, mermão! Existem tantas, mas tantas opções neste mundodedeus, que falar que uma pessoa não tem opção é um sacrilégio! Olha só esse discursozinho barato de dizer que o pobre entra no crime por falta de opção. Falta de opção é o car*! Se quisesse, poderia estar construindo paredes ou carpindo quintais... Mas enfim...

Já falei muitas vezes sobre minha vida de professora, mas me parece que em nenhuma eu consigo mostrar realmente como me sinto. Mas pudera! Professor é um bicho bipolar, rapaz! Hoje ama os alunos, amanhã quer cortá-los em pedacinhos e fazer deles tortinhas... Hoje acredita na educação, amanhã descobre que a educação já faleceu há muito, muito tempo...

Esse, definitivamente, não é o post que eu havia planejado para um dia de comemoração. Mas, sou obrigada a me perguntar: o que há pra se comemorar?!

Nesses meus 12 anos de docência, pouca coisa mudou. O salário aumentou, é verdade. Aliás! Detesto professor que justifica aulas mal dadas com um salário ruim. Meu amigo, quando comecei a dar aula, eu ganhava 300 reais por 20 horas! É claro que, se analisarmos friamente, nosso piso salarial não é justo, mas daí a usá-lo como muleta são outros quinhentos.

Outra coisa que mudou foram as tecnologias. Antigamente usávamos o mimeógrafo. Quem é experiente [a.k.a. velha] o suficiente pra lembrar do cheirinho de álcool que saía do papel recém mimeografado e praticamente nos deixava bêbados?! Hoje temos computadores, internet, fotocópia, retroprojetores, e tantas outras parafernálias... Os recursos mudaram, é verdade, mas será que o currículo mudou?

Desde que a Santa Gramática foi inventada que os alunos são obrigados a decorar classes gramaticais, orações subordinadas, e tantas outras classificações científicas de seu vernáculo. O problema é que eles odeiam! E quem é que vai aprender uma coisa que odeia?! Me diz, caríssimo Professor Pasquale, qual é a bendita utilidade de um adolescente de 14 anos saber que em "Quando ele chegou, eu já havia saído", a primeira oração é uma Subordinada Adverbial Temporal?! Pra quê, santo Aurélio?! Pra quê?!

Eu adoro Gramática. Pra mim, ela conta a história de um povo, regulamenta as interações sociais, administra os discursos. Aos meus ouvidos, Gramática é poesia. Mas esse amor só interessa ao meu mundo particular, e não aos adolescentes que preferiam estar em casa ouvindo Lady Gaga...

Mas ó, deixa essa discussão pra outra hora, que esse post está ficando maior que sermão de Padre Vieira...

Voltando às comemorações... Peça ao seu professor mais próximo que dê um motivo para comemorar o dia de hoje. Talvez, depois de muito pensar, ele encontre. Talvez ele cite o progresso do aluno X, ou o sorriso largo que recebe do aluno Y. Quem sabe, com um pouco de boa vontade, ele se lembre da cartinha que recebeu da aluna Z. Afinal de contas, sempre existem exceções [e aposto que algumas das minhas queridas exceções estão lendo este post neste momento...].

Pra ser professor, é necessário ter uma puta de uma auto-estima. Pense comigo... Se ao ser esnobada por uma pessoa, você já fica se sentindo a pior das criaturas, imagina ser esnobada por 30 de uma vez?! E logo numa manhã nublada de segunda-feira, depois de ter passado o final de semana atrás do diabo de uma música bacana pra diferenciar a aula. Imagine você, depois de apenas 3 horas de sono, chegar em uma sala de aula, dizer bom dia com o melhor sorriso que é capaz, e ser absolutamente ignorada por 30 pré-adolescentes. Imaginou? Agora me diz se a auto-estima não tem que estar nas alturas pra aguentar uma coisa dessas?!

'Bora imaginar um pouco mais... Pense nos professores que você conhece. De modo geral, eles sempre estão com um vinco na testa, ou então com as costas tortas de tanto carregar papéis. Você, que há muito não frequenta a escola, consegue imaginar uma professora toda trabalhada no terninho, com a escova bem feitinha, com aquela maquiagem "de bonita", e com o sorriso de quem tem uma conta bancária milionária? Consegue?!

Antes que alguém atire a primeira pedra, sim, a culpa é toda nossa! A culpa é nossa de querer ajudar na educação do país. A culpa é nossa em querer fazer o papel de mãe, irmã, vó, tia, psicóloga, conselheira, artista, e, quando sobrar um tempinho, professora. A culpa é nossa em nos preocupar tanto, e em querer em troca, pelo menos, um sorriso e um bom dia. Assumo, mea culpa...

Por mais que às vezes não pareça, eu faço isso porque gosto. E sim, já fui a vários psicólogos, mas não sei por que demônios eles nunca marcavam a consulta de volta. Se tem uma coisa na qual eu ainda tenho fé, e de que se eu fizer a minha parte, por mais que seja pequena, posso ajudar na melhoria do mundo. Ainda que 25 alunos achem que eu sou uma velha chata, se um deles tiver pelo menos um pouco de carinho e respeito comigo, já me dou por satisfeita. O segredo é manter as expectativas no mais baixo nível possível...

Não vou dizer que é fácil. Fácil é ser triatleta, meu bem. Se professora é tarefa pra titã! Tem dias em que quero mandar tudo praputaqueopariu [queridos alunos leitores deste blog, falar palavrão é feio, muito muito feio!]. Imagine você, que muitos dos meus alunos me acham uma tia ultrapassada. Dizem que a gente não entende nada da vida deles, acham que não temos vida social.

Tem dias em que me seguro pra não destilar tudo o que já fiz. Mas antes do ataque de fúria [ocasionado por um maldito 00 nos D10], me lembro que sou a adulta responsável, e que, não importa o que eu tenha feito,  faça ou deixe de fazer, serei sempre a chata que manda tarefa pra casa, e que não deixa escutar MP3 na sala.

Definitivamente este post ficou uma zona!

Peço desculpas a você, querido leitor, que, neste momento está dando graças a deus de não ter tido uma professora tão demente quanto eu. Mas é que às vezes cansa, sabe? Cansa ter que sempre levar a culpa da quantidade de analfabetos, das aulas que não são atrativas, dos alunos que já estão de exame. Só falta agora dizerem que a culpa do aquecimento global é nossa, por não termos ensinado sustentabilidade em nossas aulas.

Peço desculpas também àqueles que, por acaso do Google chegaram aqui, achando que teriam um incentivo para fazer faculdade de licenciatura, e acabaram se deparando com esse muro de lamentações. Mas ó, não desanime não, por favor! A educação precisa de novos soldados, do contrário, não conseguiremos vencer a guerra.

Nós, professores, precisamos entender que as pessoas mudaram, e que nossa matéria-prima já não é mais composta de definições estáticas. Precisamos pensar em como preparar nossos pupilos pro mundo cada vez mais caótico que os espera. Que vai dar trabalho a gente sabe, ô se sabe. Mas alguém precisa fazer isso, e que esse alguém sejamos nós, que um dia juramos contribuir com a formação de cidadãos.

Comemoremos hoje o fato de sermos quem somos, e de podermos mudar sempre. Comemoremos não o dia do professor, mas o dia de renovar as esperanças. Sabemos que na segunda-feira os alunos voltarão reclamando mais do que nunca, e pedindo para que as férias cheguem rapidamente. Mas me diz se não é um incentivo daqueles fazer com que esse espiritozinho de porco sinta sua falta quando sair da escola?!

Se ele reconhecer nosso valor, bem. Se não reconhecer, amém! O que importa é que tentamos sempre, e com o melhor que podemos dar. Sem romantizar a educação, que ela não é índio em romance de Zé de Alencar. Sejamos, antes de tudo, honestos. Ensinemos primeiro a arte do respeito, e depois passemos para os catetos, o reino monera, a literatura de informação, os sujeitos e tantos outros itens do currículo.

Tenhamos orgulho do que somos, e não nos deixemos abalar. Porque o reconhecimento externo é bom, mas ao nos olharmos no espelho é a nós mesmos que enfrentamos. E somos nosso mais malvado carrasco. Basta saber se queremos que ele nos corte a cabeça ou não.

Parabéns a todos nós, educadores antes de tudo, que sonhamos apenas com um mundo melhor, e que fazemos o possível para ajudar a formar pessoas melhores...

E, sim! Eu tenho #orgulhodeserprofessor !

Um beijo, cheio de uma maldade nem tão má assim...

5 comentários:

  1. Parabéns pelo dia do Professor. Como você você não aparece muito por aqui mesmo, deixa eu te contar, to dando aula de origami pras escolas municipais por aqui, sou quase um professor e essa p*rra é dificil pra c*cete hein... Mas td bem tá sendo bem legal mesmo. Beijos

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  2. Patrícia, querida!
    Que texto inspirado e inspirador!
    Parabéns pelo seu dia!
    =D
    Olha, eu estou na fase desertora que vc descreveu. rsrs não sei se há volta eu amava lecionar, mas ao mesmo tempo estava muito infeliz...
    Veremos quais serão as cenas do próximo capítulo.
    Mas deu pra sentir que vc nasceu pra isso. Sempre comento que não basta gostar de estudar, gostar de lecionar, de planejar aulas. É preciso vocação para lidar com tantas personalidades distintas e deixar o próprio ego passível de ressentimentos on the down low. E dá pra ver que não só vc consegue, como aprende com essas peculiaridades.
    Precisamos de mais professores com você!

    =)

    Beijinhos doces!

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  3. Patricia,
    Parabéns pelo seu dia querida e lhe digo que adoraria ter uma profe que nem você,cheia de atitude e sem frescurites. Eu eu tenho esse sonho, quero muito ser professora farei a prova da UECE esse ano, e se Deus quizer, se eu passar, te conto quando for meu primeiro dia de professora^^

    Adorei o texto, e mesmo antes de lecionar sinto tudo que você escreveu, uma vontade determinada de salva o mundo da falta de educação e respeito, e um medo monstruoso de não ser reconhecida de não ter pelomenosum cristão querendo aprender...enfim.

    bjos e boa semana =)

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  4. Está explicado a origem da sua doçura escrita, mesmo quando deseja ser amarga.O MELHOR prazer do mundo é conciliar o lado profissional com o prazer eventual da vida...Continue postando.Beijo de FÃ:-BYJOTAN.

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