segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Como comportar-se no bond", de Machado de Assis [Ou sobre como o passado pode ensinar o presente...]


Eu estava lendo o livro "Fuga do hospício e outras crônicas", do meu querido Bruxo do Cosme Velho, quando me deparei com a crônica que dá nome ao título desse post.

Como alguns de vocês devem saber, eu sou uma estrupícia que até hoje não aprendeu a dirigir [Oi, meu nome é Patrícia, tenho 29 anos, e não tenho carta de motorista]. Por conta disso, dependo de carona ou transporte público para me locomover, já que minha firebolt nunca chegou pelo correio, tampouco pelo bico da Edwirges...

Eu tenho um caso de ódio com o transporte público, em especial o de Campo Grande. Pra mim, ele consegue representar a tremenda falta de respeito que o governo tem para conosco; além de unir num mesmo espaço vários dos tipinhos odiáveis que povoam nossa sociedade.

Ah, mas por que então você não toma vergonha na cara e não aprende a dirigir? Pois bem... Primeiro, porque sempre tive medo. Não, medo não. Pavor. Segundo, porque tenho quase certeza de que teria um infarto nesse trânsito caótico da cidade. Terceiro, porque eu não vou sair à noite, encher a cara e voltar lépida e barbeira dirigindo. Quarto, e último [ao menos nesse post...], ainda acredito que o transporte público seja um bom meio de locomoção, pois polui menos o ambiente e não torna o trânsito uma verdadeira babel; isto é, quando o tal do transporte público funciona, coisa rara nesse país...

Mas deixemos pra lá minhas lamúrias sobre o transporte coletivo e minhas desculpas dadas pra justificar minha ausência do volante. O que importa nesse post é o texto de Machado...

Atualíssima, modificado um ou outro vocábulo, essa crônica poderia ser pregada nos ônibus e metrôs do país.

Eu me diverti horrores [como sempre acontece com meu Bruxo querido], e resolvi trazê-la até aqui, pra que você se divirta também.

A crônica me lembrou também o blog incrível, da querida Hillé: [manual prático de bons modos em livrarias].

Clique no link abaixo e aproveite a pena de galhofa de Machado...


Como comportar-se no bond

Ocorreu-me compor umas certas regras para o uso dos que frequentam bonds. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

Art. I - Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.
Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: - ou irem a pé, que pe bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.
Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

Art. II - Da posição das pernas

As pernas devem trazer-se.de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.

Art. III - Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.

Art. IV - Dos quebra-queixos

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bond, e a segunda ao descer.

Art. V - Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, .pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

Art. VI - Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.

Art. VII - Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas a distância; quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

Art. VIII - Das pessoas com morrinha

As pessoas com morrinha podem participar do bonds indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela

Art. IX - Da passagem às senhoras

Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas como porque é uma grande má-criação.

Art. X - Do pagamento

Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido, e ao vir o condutor receber as passagens, notar qye o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.

[ASSIS, Machado. Fuga do Hospício e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2003 p.53-56]

2 comentários:

  1. Essa crônica é genial!
    Atualíssima!

    Beijo, querida!

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  2. Adorei! Machado é gênio. Ri demais do Art. I - Dos encatarroados e do Art. II - Da posição das pernas. Estou totalmente de acordo com este ultimo.

    Nota mental para mim: Ler mais textos do Machado de Assis!

    ResponderExcluir

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