segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Crônica 1 [Bons dias!] - Machado de Assis

Essa é a primeira crônica do livro Bons Dias!, do querido Bruxo do Cosme Velho. E hoje, nem vou me estender muito na introdução, porque diante de tanta genialidade, só me resta calar e aprender...

5 de abril de 1888

BONS DIAS!

Hão de reconhecer que sou bem criado. Podia entrar aqui, chapéu à banda, e ir logo dizendo o que me parecesse; depois ia-me embora, para voltar na outra semana. Mas não, senhor; chego à porta, e o meu primeiro cuidado é dar-lhe os bons dias. Agora, se o leitor não me disser a mesma coisa, em resposta, é porque é um grande malcriado, um grosseirão de borla e capelo; ficando, todavia, entendido que há leitor e leitor, e que eu, explicando-me com tão nobre franqueza, não me refiro ao leitor, que está agora com este papel na mão, mas ao seu vizinho. Ora bem!

Feito esse comprimento, que não é do estilo, mas é honesto, declaro que não apresento programa. Depois de um recente discurso proferido no Beethoven, acho perigoso que uma pessoa diga claramente o que é que vai fazer; o melhor é fazer calado. Nisto pareço-me com o príncipe (sempre é bom parecer-se com príncipes, em alguma coisa, dá certa dignidade e faz lembrar um sujeito muito alto e louro, parecidíssimo com o imperador, que há cerca de trinta anos ia a todas as festas da Capela Imperial, pour étonner le bourgeois; os fiéis levavam olhar para um e para outro, e a compará-os admirados, e ele teso, grave, movendo a cabeça à maneira de Sua Majestade. São gostos.) de Bismarck. O Príncipe de Bismarck tem feito de tudo sem programa público; a única orelha que o ouviu, foi a do finado Imperador, - e talvez só a direita, com ordem de o não repetir à esquerda. O parlamento e o país viram só o resto.

Deus fez programa, é verdade (E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, para que presida etc Gênese, I, 26); mas é preciso ler esse programa com muita cautela. Rigorosamente, era um modo de persuadir ao homem a alta linhagem de seu nariz. Sem aquele texto, nunca o homem atribuiria ao criador nem a sua gaforinha, nem a sua fraude. É certo que a fraude, e, a rigor, a gaforinha são obra do diabo, segundo as melhores interpretações; mas não é menos certo que essa opinião é só dos homens bons; os maus creem-se filhos do céu - tudo por causa do versículo da Escritura.
Portanto, bico calado. No mais é o que se está vendo; cá virei uma vez por semana, com o meu chapéu na mão, e os bons dias na boca. Se lhes disser já, que não tenho papas na língua, não me tomem por homem despachado, que vem dizer coisas amargas aos outros. Não, senhor; não tenho papas na língua, e é pra vir a tê-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui está o que é; eu sou um pobre relojoeiro que, cansado de ver que os relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício. A única explicação dos relógios era serem iguaizinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como o do meu barbeiro.

Um exemplo. O Partido Liberal, segundo li, estava encasacado e pronto pra sair, com o relógio na mão, porque a hora pingava. Faltava-lhe só o chapéu, que seria o chapéu Dantas ou o chapéu Saraiva (ambos da Chapelaria Aristocrata); era só pô-lo na cabeça, e sair. Nisto passa o carro do paço com outra pessoa, e ele descobre que ou o seu relógio estava adiantado, ou o de Sua Alteza é que se atrasara. Quem os porá de acordo?

Foi por essas e outras que descri do ofício; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos. Aqui me terão, portanto, com certeza até a chegada do Bendegó, mas provavelmente até a escolha do Sr. Guaí, e talvez mais tarde. Não digo mais nada para os não aborrecer, e porque já me chamaram para o almoço.

Talvez o que aí fica, saia muito curtinho depois de impresso. Como eu não tenho o hábito de periódicos, não posso calcular entre a letra de mão e a letra de forma. Se aqui estivesse o meu amigo Fulano (não ponho o nome, para que cada um tome para si essa lembrança delicada), diria agora que ele só pode calcular com letras de câmbio - trocadilho que fede como o diabo. Já falei três vezes no diabo em tão poucas linhas; e mais esta, quatro; é demais.
BOAS NOITES.

ASSIS, Machado. (Introdução e Notas de John Gledson) Bons Dias! São Paulo: Editora Hucitec, 1997 p. 35-38

Um beijo procês!

2 comentários:

  1. Nossa, fazia um bom tempo que não lia esse tipo de texto.. le-se por esse tipo de texto, cronicas e literatura brasileira... Gosto das histórias, mas acho a linguagem bem difícil.. mas com ânimo e paciência a gente consegue acabar um livro assim.. hehehehe
    bjuss

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  2. Nossa, muito engraçado... a parte do relógio foi profunda... tou sempre adiantada em alguma coisa e a atrasada em outras, fica difícil achar o tempo certo de agir desse jeito :P

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