segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Inútil e fundamental - Antonio Prata

Gosto por demais de Antonio Prata. E essa é uma de suas crônicas, do livro Adulterado, da qual mais gosto. Ela fala de Literatura sem ser pedante. Fala da importância dos livros sem levantar e rasgar bandeiras. Nos lembra que os livros somos nós, pois somos nós que os fazemos caber em nossas vidas. Somos nós que atribuímos significados a cada uma daquelas palavras.

Os livros não são a chave da salvação. Não são o gabarito de respostas pras provas da vida. Os livros são os caminhos que escolhemos pra tornar o cinza do cotidiano menos pesado.

Aprecio essa crônica, pois ela fala da importância da poesia partindo exatamente do ponto de ela não ser importante. Como muito bem escreve Emannuel Marinho, "Poesia não compra sapato/Mas como andar sem poesia?".

E pra começar bem o ano, deixo com vocês esse pedacinho de inutilidade fundamental...

Inútil e Fundamental

"A poesia não serve pra nada, por isso ela é fundamental. Afinal, a vida, eu, você, sua tia-avó, o planeta Terra, os anéis de Saturno, a bateria da Mangueira, as correntes marítimas e as samambaias, convenhamos, também não servem pra nada. E é mais ou menos sobre isso que trata a poesia. É um assombro, um uau!, um mega PQP! diante da enormidade e da inutilidade de tudo. Hoje estamos vivos, amanhã estaremos mortos. Isso é muito estranho, e é por isso que as pessoas escrevem e leem versos.

Não se iluda, a poesia não deixará você mais feliz, não a ajudará a passar no vestibular, não a fará ganhar mais dinheiro. Pelo contrário. Certos poetas podem arruinar seu dia com um só verso. Ou a semana com uma estrofe. (Caso isso aconteça, é prudente salvar o final do mês e a sua saúde abandonando o livro em algum banco de praça.)

Certa vez uma leitora, muito aplicada e com vontade de aprender, escreveu a Roberto Arlt, um escritor argentino, pedindo a ele que recomendasse alguns livros fundamentais. O escritor respondeu algo mais ou menos assim: nenhum livro é fundamental. Pelo contrário. Leio muito e não sou feliz. Todos os meus amigos leem muito e não sei se são melhores ou piores por isso. Alguns leem muitíssimo mesmo e são grandes canalhas. Olha só, minha senhora, eu diria mais: não só nenhum livro é fundamental, mas todos são dispensáveis.

Claro, o escritor estava tirando um sarro. Tirando um sarro das pessoas que acham que os livros são os lugares onde se encontra as respostas pra vida. É o contrário, nos livros estão as perguntas. Por isso nazistas queimavam livros,a Igreja na Inquisição queimava livros e cretinos fundamentais ainda querem proibir vários deles vez ou outra, por todo canto. Porque pra manter a ordem, pra que todos fiquem quietinhos em seus lugares, falando baixinho, é preciso que creiam em verdades absolutas, imutáveis, concretas. Os bons livros fazem o contrário. Bagunçam. Atrapalham. Colocam pulgas atrás da orelha, pedras no sapato.Sussurram diante das verdades mais sólidas: e se? E por que não o contrário?

Ontem estávamos na barriga da mamãe, amanhã estaremos na barriga das minhocas. Outra vida, como disse Vinícius de Moraes, só acredito vendo uma declaração de Deus, por escrito, registrada em cartório e com firma reconhecida. Eu, você, sua tia-avó, o planeta Terra, os anéis de Saturno, a bateria da Mangueira, as correntes marítimas e as samambaias sumiremos, mais cedo ou mais tarde. (Mais tarde! Mais tarde!) Só nos resta olhar profundamente admirados para todas as coisas. Para isso serve a poesia. A coisa mais inútil de todas as coisas criadas pelo homem. Inútil e fundamental."

[PRATA, Antonio. Adulterado: crônicas. São Paulo: Moderna, 2009 p. 103-104]

Um beijo procês.

Um comentário:

  1. Nossa!É a primeira coisa de Antonio Prata que eu leio (até onde eu sei, rsrs), e já estou como se estivéssemos assentados em um café, conversando, e ele estivesse me dizendo isso tudo!

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