segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Mil vezes Clarice", Martha Medeiros

Ultimamente tenho ficado preocupada com um fenômeno que cresce vertiginosamente: os leitores de frases. Quero dizer, não apenas os leitores de frases, mas, principalmente, os atribuidores de frases.

Parece que ser leitor está na moda, e, como toda moda, tem o seu pior e o seu melhor.

Há aqueles que, pra não ficarem de fora da moda, lançam mão de frases tiradas de páginas nem um pouco confiáveis, e as penduram em seus pára-choques de caminhões virtuais. Esses se dizem leitores de "Clarisse Linspector" e "Caio Fernandes de Abreu". Vivem usando frases que sequer foram escritas por Clarice ou Caio, como se fossem minutos de sabedoria ou qualquer coisa assim.

Fico preocupada com essa banalização dos recortes, porque, no fim das contas, uma citação nada mais é do que um recorte. Só que as citações precisam de seu contexto, do contrário, jamais serão compreendidas como deveriam.

Não, eu não vejo problema em utilizar recortes literários. Eu mesma tenho citações que cabem em infinitos momentos de minha vida. Mas eu os recortei da fonte em que foram produzidos. Eu sei da sua história, sei quem é seu criador, sei pra onde deverei retornar para entendê-los melhor.

Façamos uma campanha pela não banalização das citações. Avisemos às pessoas que acham que 'Clarice Linspector" é uma boa escritora, que essa tal de "Linspector" sequer existe, e que a outra, a verdadeira, a Lispector jamais falaria tanta bobagem como as que veiculam em seu nome.

Entender Clarice, pra mim, é uma tarefa pra heróis e heroínas. Eu a tenho vivido, e deixado que ela viva em mim há quase duas décadas. Mesmo assim, não me sinto confortável para defini-la ou dizer que a compreendo.

E por tudo o que disse até agora que resolvi trazer esse texto da Martha Medeiros, no qual ela fala sobre Clarice. Quem sabe ele nos ajude a compreender um pouco mais o abismo clariceano, e, ao mesmo tempo, faça com que os citadores da tal Linspector entendam que há muito mais coisas entre o Céu e a Terra do que pode supor o seu vão Ctrl C + Ctrl V...


Mil vezes Clarice

Em dezembro do ano passado, comemorou-se os 20 anos de sua morte. No entanto, Clarice Lispector nunca esteve tão viva nas bibliotecas, salas de aula, cabeceiras e palcos do país. Quem assistiu à peça Clarice, Coração Selvagem, encenada na última quinta-feira no Theatro São Pedro e protagonizada por Aracy Balabanian, clone da escritora, entendeu melhor a razão de Clarice Lispector ter se transformado no mito que é.

Perturbadora. Enigmática. Insolúvel. Hermética. Bruxa. Esses são alguns dos adjetivos que não desgrudam do seu nome. Nunca houve uma palavra, dita ou escrita por Clarice, que não funcionasse como um soco no estômago. Nada é fácil em sua obra, cada frase sua merece uma releitura, duas, três, até que a compreensão do que foi dito deixe de doer. No entanto, ela própria achava que escrevia de uma maneira simples, e de fato: para ela o simples escondia-se no hiato que existe entre uma coisa e outra. "Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois". Simples e enlouquecedor. Todos nós buscamos definições inatingíveis, que não se deixam capturar pelas mãos e muito menos pelas palavras. Clarice foi quem chegou mais perto.

Vida e obra de Clarice resume-se a esta apreensão do instante, daquilo que existe entre o dia e a noite, entre o sim e o não, daquilo que Sartre chamou de "a náusea", daquilo que nos causa insônia e medo, daquilo que nos deixa no limiar da loucura, daquilo que nos faz lembrar que o mundo, afinal, não é assim tão bem costurado. "Não tem pessoas que cosem pra fora? Eu coso pra dentro".

Clarice Lispector é traduzida e estudada no Brasil e fora dele. Seus livros tornaram-se universais porque é universal a sua angústia, a sua maneira de refletir o revés do espelho. Do livro de contos Laços de Família: "A vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver". Qualquer um de nós, num exercício de livre pensar, concordará que as regras impostas pela sociedade, a obediência servil, a lobotomia autorizada com que conduzimos nossas vidas, tudo isso é muito mais demente do que seguir os próprios instintos e tentar iluminar o breu que há dentro de nós. Traduzindo para um exemplo banal: louco é Bill Clinton por obedecer a um desejo transgressor dentro da Casa Branca ou loucos somos nós de dar tanta atenção a um assunto que não nos diz respeito? Clarice Lispector definiria o affair presidencial assim: "Seu coração enchera-se com a pior vontade de viver".

Saber onde fica o norte e o sul, saber se amanhã vai chover, saber a parada do ônibus em que devemos saltar, tudo isso nos dá a falsa sensação de estarmos protegidos. No entanto, estaremos sempre em perigo enquanto soubermos tão pouco sobre nós mesmos. Clarice Lispector, em sua literatura de auto-investigação, entendeu-se dentro do possível e aceitou-se no impossível. A platéia aplaude por dentro.

Setembro de 1998

[MEDEIROS, Martha. Montanha Russa. Porto Alegre: L&PM, 2007 p.129-131]

Um beijo procês!

4 comentários:

  1. Adoro os textos que você posta... caem como luva nos dias de hoje, heim? beijos!

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  2. essa sua introdução, dá vontade de tatuar na testa, pra modo de parar de ouvir pseudos leitores dizendo que adoram, qdo falo que gosto.

    =D

    cê tá quase conseguindo me fazer querer muito ler essa Martha =D

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  3. Amei a sua introdução na mesma medida que o texto da Martha, pode? rs. Pois bem, se nesse breve período de youtubização literária a Ju me ensinou a gostar de clarice, vc pelo visto vai fazer o mesmo pela Martha e eu só discordo dela num ponto: a Aracy Balabanian nunca será um clone da Clarice. Nunquinha.

    Beijos, querida. Adorocê.

    Mariana Melo, a mmmmmmariana do youtube - www.felizvros.com

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  4. Simplesmente retratou a pura verdade!! Adoro seus posts..Bjjjs

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