segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Quindins na portaria - Martha Medeiros

Como eu havia comentado no vídeo, acho essa crônica da Martha uma delícia! Além disso, acho que é uma ótima forma de refletirmos sobre a quantas andam nossos relacionamentos.

Ela fala de algo que tem se perdido na selva de pedra em que estamos alojados, sabe-se lá até quando. Algo que anda em falta nos olhares, nos abraços. Algo que, com certeza, deixaria nosso mundo mais fácil de se viver: a delicadeza.

Hoje, vivemos no mundo do eu. Eu preciso, eu quero, eu faço e aconteço. Muitas vezes nos esquecemos de pensar no outro. Naquele que estava dormindo quando ligamos. Naquele que gostaria de poder chorar em paz, escondido no seu cobertor. Naquele que precisava fazer todas as tarefas de casa, mas teve que ficar a nossa disposição, pois resolvemos que era ali que passaríamos nosso sábado, sem nem ao menos perguntar se não incomodaríamos.

Se tem uma coisa na qual sempre acreditei é que não é preciso estar junto pra amar e demonstrar amor. Não é preciso cobrança. Não é preciso bater ponto.

Amores e amizades são sabidos nos olhares, nos gestos pequenos, nos sorrisos, e não em telefonemas de uma em uma hora. É claro que precisamos, sempre que possível, mostrar a uma pessoa o quanto ela é querida, do contrário acabaremos duros, presos em nosso eu, e perderemos o carinho...

Mas é preciso gentileza. É preciso delicadeza. Duas palavras que, infelizmente, andam esquecidas por aí...

E essa crônica da dona Martha Medeiros nos mostra que mesmo pequenos gestos são capazes de trazer o afeto de volta às nossas vidas...

Quindins na portaria

Estava lendo o livro de Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mario Quintana "para estar ao lado sem pesar com a presença". Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nessa frase porque não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.

Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individual e solitário.

Ah, pesa. Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto de minhas filhas e no meu próprio quarto, se sei que está ocupado. Eu pergunto pra minha mãe se está livre antes de prosseguir uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.

Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando. Pessoas estão assistindo seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.

Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja. Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribui-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas. Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?

Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão. Já visitei um lugarejo só para sentir impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

[MEDEIROS, Martha. Montanha Russa. Porto Alegre: L&PM, 2009 p. 18-19]

Um beijo procês!

5 comentários:

  1. te faço quindins, todos os dias =*

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  2. ô que coisa mais FOFA! Lindo... :) adorei!

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  3. Essa crônica me faz pensar sobre a minha relação com os blogs e vlogs que visito diariamente e amo com todo o coração (tipo o seu assim)... leio um post e sinto como se estivesse conversando com a pessoa que o escreveu... deixo um comentário como se não estivesse fazendo nada mais do que 'falando' com um amigo, e acho que é por isso que meus comentários são sempre enormes! Sinto sempre, em cada post, e em cada vídeo, um carinho muito grande pela pessoa em questão, e a cada opinião comum, dou um sorrisinho diferente, e a cada nova sugestão, uma anotação privilegiada no caderninho que fica ao lado do computador... e de uma forma ou de outra, acho que essas coisas aproximam as pessoas... e muitas vezes acalentam a quem precisa de um abraço, mas não querem o peso de uma presença!
    Se pudesse, deixaria quindins à sua porta todos os dias :)

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    Respostas
    1. Penso e sinto de forma muito parecida a sua... que bom esse encontro!!!! Abraços.

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  4. Que lindo!

    Martha Medeiros finalmente explicou (melhor do que ninguém) essa coisa d'eu preferir e-mail à um telefonema, rs

    @tathys

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