quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sinal e Ruído - Neil Gaiman e Dave MacKean [Pseudoresenha]

Tirei daqui
Perturbadora. Penso que não exista em nossa língua adjetivo melhor para definir essa HQ dos gênios Gaiman e MacKean. Ela é tão perturbadora que, no meio da leitura, eu me vi obrigada a parar. Há muito que um livro não me expulsava dessa forma. E uso o termo expulsar, pois não conseguia entrar mais na história. Aquilo doía, era como se algo dentro de mim estivesse sangrando.

Eu tive que parar de ler porque não aguentava mais. A cada página, tanto o roteiro de Gaiman quanto a ilustração de MacKean me davam uma surra homérica.

No outro dia voltei, ainda com a lembrança de todas as páginas que havia lido no dia anterior. Voltei porque precisava, mas não porque fosse agradável.

Aliás, Sinal e Ruído não é agradável, exatamente como o mundo não é agradável. É uma história que, ao invés de mostrar o pote de ouro no final do arco-íris, ou ao menos nos dar a esperança de sua existência, joga na nossa cara que essa coisa toda de arco-íris é só um ruído pra nos distrair dos sinais de que a vida vai mal.

É um trabalho brilhante. Genial. Único. Talvez um dos mais bem feitos que já li. A forma como o roteiro do Gaiman se funde com a miscelânea de técnicas usadas por MacKean é incrível. As palavras duras de Neil Gaiman dão as mãos ao desenho áspero e dolorido de David MacKean e nos levam pra fazer um passeio pelo mundo dos sonhos e pesadelos que temos todos os dias, quando estamos acordados.

Caso se queira resumir a coisa toda, Sinal e Ruído trata do Apocalipse, do fim do mundo. Mas não é só isso... Pra mim, é uma história sobre como nós percebemos o mundo e sobre como, a cada dia que passa, o nosso próprio mundo vai tendo seu fim.

"E eu me pergunto: Por que estou escrevendo um filme que nunca vou filmar? Criando algo que ninguém vai ver? O mundo está sempre acabando para alguém."

Todos nós estamos tão centrados em nós mesmos, que nos esquecemos que em cada um há um mundo diferente. Hoje, um dia que pra mim não passa de mais um dia de férias, há várias pessoas morrendo ou tendo seu mundo despedaçado pela perda de alguém. Mas eu não me dou conta disso, até que isso me seja jogado na cara.

E foi exatamente isso que Sinal e Ruído fez: me jogou na cara que eu sou apenas uma poeira microcósmica dentro desse macrocosmo que é a Vida, o Universo e tudo o mais.

"Logo depois ele foi embora, e eu fiquei sentado no escuro pensando: o grande apocalipse não existe. Só uma procissão de pequenos apocalipses".

Diariamente sofremos com a perda de algo. Diariamente vamos nos desfazendo e refazendo, como se a vida toda tivesse apenas 24 horas. E Sinal e Ruído me mostrou que não haverá um fim, porque não há um começo. O que há é apenas uma infinita continuidade, na qual são trocadas apenas as peças.

Hoje eu sou uma peça, amanhã haverá outra peça em meu lugar. Hoje, meus sofrimentos, minhas dores, meus gritos abafados no escuro da noite são os ruídos que me impedem de ver os sinais de que a vida continua, sempre, porque...

"Eu não vou morrer. Sei que não vou morrer. Sou importante demais - pelo menos pra mim. Mesmo se eu estiver frio e enterrado, não vou morrer. Não posso."

Informações Técnicas:
Sinal e Ruído [Signal to noise]. Roteiro de Neil Gaiman; arte e design de Dave MacKean; tradução de Alexandre Boide. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2011.

Sinopse disponível no site da editora: "Um dos primeiros trabalhos conjuntos de Neil Gaiman e Dave McKean, Sinal e Ruído é considerado a obra-prima da dupla.
O premiado escritor e roteirista Neil Gaiman e o também premiado desenhista Dave McKean iniciaram juntos suas carreiras no mundo dos quadrinhos. Juntos ajudaram a revolucionar o gênero, trazendo para esse uma erudição gráfica inédita. Se foi Gaiman que criou o Sandman, de tanto sucesso, foi McKean que criou a imagem do personagem, inspirado em astros do rock inglês dos anos 80, como Ian McCulloch, vocalista da banda Echo and The Bunnymen.
Neste Sinal e Ruído a ousadia da dupla chega talvez a seu ponto máximo. Tanto no aspecto gráfico como no roteiro que descreve os últimos dias de um cineasta e, ao mesmo tempo, os últimos dias do ano 999 d.C.
Sinal e Ruído foi publicado originalmente em 1989, na badalada revista inglesa The Face, quase que como a consagração dos quadrinhos como arte. Esta edição que a Conrad traz agora foi revisada pelos autores e ampliada com novos desenhos e novos textos.
Um livro que irá surpreender mesmo os mais apaixonados fãs de Neil Gaiman "

Obs.: todas as citações em itálico foram retiradas do livro. Infelizmente, ele não possui numeração de páginas, desta forma não pude indicar as páginas das quais as citações foram retiradas.

Um beijo procês!

4 comentários:

  1. Acabei de ler esse livro, li na madrugada de ontem, muito pertubador, doloroso e ao mesmo tempo tão... tão... tão... superlativamente Perfeito...

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  2. Se a sua animação falando dele no video já havia me deixado extremamente interessada no livro, essa resenha só contribuiu pra isso... é claro que antes de tudo o nome "Gaiman" já cria uma animação, rsrs Espero que a promoção da submarino espere meu aniversário chegar, porque só depois dele vou poder comprar livros novamente... e esse é um dos primeiros da lista!!

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  3. Acabei de ler, e nem sei o que dizer! Foda! Acho que era isso que queria sair de mim. Muito Foda!

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  4. Adoro Gaiman. E achei sua resenha magistral! Tanto que me interessei ainda mais por essa HQ. Peguei a resenha depois de muito tempo mas tá valendo... rss

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