quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Viagem Sentimental - Laurence Sterne [Pseudoresenha]

Tirei daqui
Há momentos em que tudo conspira para que algo aconteça, e a leitura desse livro foi uma dessas raras ocasiões. Eu estava lendo "O Voo do Hipopótamo", de Luiz Antonio Aguiar [falo dele nesse vídeo aqui], que fala sobre o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Uma das passagens de Memórias Póstumas que Aguiar usa em seu livro é essa daqui: "Trata-se, na verdade, de uma forma difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e com a tinta da melancolia."

E esse tal de Sterne se pendurou no meu trapézio, e não saiu de lá até que eu o encontra-se pela bagatela de 15 reais no Submarino.

Explico: eu estava comprando duas edições lindas do lindo do Neil Gaiman [casa comigo?!], e precisava de mais um livro pra fechar o frete grátis. Foi quando o seu Sterne me soprou no ouvido, e eu o arrematei.

Um pouco depois de ter comprado, fui procurar alguns artigos sobre a semelhança entre a escrita de Machado de Assis e a deste ilustre escritor europeu, o qual, até então, eu não tinha a menor ideia de quem fosse. Quando o livro chegou, eu o namorei por alguns dias, como quem descobre algo tão valioso, que não se sabe merecedor. Parecia que toda a literatura do mundo se resumia àquele único livro.

Não sou capaz de explicar o quê diabos me levou a ter esse tipo de sensação. Se foi o fato de o homem ter sido citado por Machado de Assis; se foi o fato de muitos estudiosos dizerem que o estilo de Machado era baseado na obra de Sterne [exceto o mal amado do Silvio Romero, que sempre fez questão de denegrir a imagem de Machado. Mas quem é que vai ligar pro que aquele chato de galochas escreveu?!]; se foi Brás Cubas me metendo a ideia do emplastro no trapézio... Não sei, só sei que foi assim...

Não precisei de mais do que uma noite para ler o livro, afinal, ele possui apenas 154 páginas. Mas posso assegurar que foram as 154 páginas mais deliciosamente escritas e mais historicamente carregadas que eu li nos últimos anos.

Primeiro, quero falar sobre a edição feita pela [até então desconhecida por mim] Editora Hedra. A edição é impecável, tanto no que diz respeito à tradução - pois eles respeitaram algumas características de pontuação e vocabulário próprias do autor - quanto no que diz respeito ao texto introdutório escrito pela própria tradutora, Luana Ferreira de Freitas, e por Walter C. Costa.

A introdução do livro foi bastante importante pra que eu pudesse entender quem foi Sterne e em qual contexto ele criou suas histórias; algo que eu acho muito importante, pois me é muito difícil desvincular a Literatura de seu período histórico.

Além disso, eles falam das influências deixadas por Sterne, e, entre os escritores que foram seus leitores estão nada mais nada menos que James Joyce, Virgínia Woolf e Machado de Assis.

Essa informação me fez ter dois sentimentos: se esse trio parada dura lia o cara, 1. eu não vou ser capaz de ler ou 2. eu não vou ser capaz de entender, porque né...

Mas lá fui eu, com a cara e a coragem, viajar com Yorick, a personagem principal do livro, narrador onisciente e onipresente da história.

E que viagem deliciosa... Uma viagem que me lembrou os grandes escritores, os grandes livros, a sensação de que nada mais é necessário além de um livro e uma mente aberta...

Ele trata de temas como a caridade e a bondade, mostrando situações cotidianas em que esses dois temas eram deixados de lado pela sociedade de modo geral. Além disso, ele faz questão de alfinetar os franceses - visto ser inglês -, e, de modo bastante sutil e engraçado, tirra um bom sarrinho da cara dos conterrâneos do doidodepedra Napoleão Bonaparte.

Sterne cita em seu livro grandes escritores - costume que Machado também tinha, aliás - como Shakespeare e Cervantes; e, o mais importante, me fez lembrar de tantos outros.

Houve passagens em que eu tinha a certeza de que quem estava escrevendo era o Dostoiévski, tamanha era a semelhança com Memórias do Subsolo e Noites Brancas [só não fui ler Dostoiévski pra comparar, porque estou de férias, e não estou nem um pouco afim do demônio da perversidade me fazendo companhia a essa altura do campeonato...]; em outras, me parecia que Machado estava ali, brincando com sua pena de galhofa...

Era quando eu me lembrava que este cidadão escreveu/viveu no século XVIII! Um século antes de Machado e Dostoiévski. Quase três séculos antes de eu pensar em nascer!

Viagem Sentimental foi escrito e publicado em 1768, em Londres. Inicialmente, Sterne havia previsto quatro volumes para o livro, mas duas semanas após publicar os dois primeiros, o filhodeumaputa morreu. Me perdoem pela expressão, mas foi essa a exata sensação [e o que eu escrevi no livro, inclusive] que tive ao terminar de ler o livro.

Não por ser ruim! Exatamente pelo contrário! Pois o livro é tão bom, mas tão bom... E ele é tão hábil com a escrita que o final do segundo volume fica em suspenso pra ser terminado no terceiro.

Mas daí o infeliz vai lá e morre, minha gente! Não podia ter esperado mais um ano pra morrer não, diabo?! Não podia ter, pelo menos, terminado de escrever o livro?! Isso lá é hora de morrer, meu senhor?!

Sim! Eu fiquei revoltada! E mais revoltada ainda porque ele escreveu apenas três romances [os outros livros eram sermões], um dos quais, A Political Romance, foi censurado e queimado em praça pública. Ou seja, mais um motivo pra eu respeitar o cidadão!

O outro, "A vida e as opiniões do cavaleiro Tristam Shandy", a julgar pelas críticas, é mais genial do que Viagem Sentimental. Aliás, o autor faz várias referências ao Cavaleiro Shandy durante seu segundo romance [outro costume machadiano].

O grande problema é que só há cinco exemplares dele pra comprar no país, todos na Estante Virtual, e o mais barato custa 60 reais. Só que a última edição feita por nossas terras é de 1984! Imagina o estado de um livro tão velho quanto eu! Se eu já estou caindo aos pedaços, imagina a versão brasileira do Sr. Shandy?!

Na edição de Viagem Sentimental, a tradutora diz que está fazendo a tradução de "A vida e as opiniões do cavaleiro Tristam Shandy", e que logo será lançada. Mas veja, ele foi lançado em 2008, e até agora nada de Tristam! Ô dona Hedra, faz favor de acelerar o processo aí, que eu 'tô mais curiosa pra ler esse livro do que estive no lançamento de "Relíquias da Morte". Seja boazinha, seja!

Pois bem... Eu contei tudo isso pra compartilhar com vocês minha dor de não poder continuar lendo este cidadão que, nos primeiros dias do ano, já ganhou meu coração pra sempre...


Se eu recomendo a leitura de Viagem Sentimental? Recomendo dicumforça, mas só pra quem lê e gosta de Machado de Assis, Dostoiévski e Cervantes, [assim, num combo leve três pague dois], pois ele me parece um misto dos três tanto na ironia e na galhofa quanto no pessimismo.

Não é uma leitura "fácil", como também não é uma leitura "difícil". É uma leitura gostosa, mas que te consome. Em Viagem Sentimental, Sterne não fala de amor amor, muito menos faz um relato de viagem comum... A própria personagem assim define o livro, mesmo que sem querer definir: "é uma viagem serena do coração em busca da NATUREZA e daqueles sentimentos que surgem dela e que fazem com que amemos uns aos outros - e ao mundo, melhor do que o fazemos" [p. 111].

Eu acrescentaria que é uma viagem através do tempo, pra uma época em que a literatura era mais imaginação que ação. Uma época em que as personagens nos faziam buscar em nós mesmos aquelas virtudes ou aqueles defeitos dos quais eram feitas. Tudo de uma forma leve, quase que sem querer querendo...

Sterne ganhou meu coração. Uma pena que esse sacripantas tenha morrido sem terminar essa viagem que, por um bom tempo, será considerada uma das melhores que eu fiz na última década.

Referência: STERNE, Laurence. (Tradução Luana Ferreira de Freitas) Viagem Sentimental. São Paulo: Hedra, 2008.

Ps: Falarei mais do livro no vídeo que vai ao ar no Domingo.

Um beijo procês!

10 comentários:

  1. Oi Patrícia, adorei a resenha, amo Machado e Dostoiévski... vou procurar livros dele para ler, beijos!

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  2. ai ai senhorita Patricia, só aumentando minha lista de querências hein?! Nunca tinha ouvido falar deste homem, e se essa capa linda já tinha me deixado de olhinhos brilhando, essa sua resenha só me fez querer saber tudo deste homem!

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  3. eu tenho trauma com o Sterne, mas tão bobo que me custa revelar...
    tem ligação com uma ex professora e orientadora que, bem, gostava dele... e como toda aluna revoltada, passei a não gostar.
    =D

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  4. ai ai, minina... vc continua fazendo "mavadezas" na minha conta bancária. Com toda essa descrição vc desperta minha curiosidade de forma avassaladora... estou aqui pensando se compro ou num compro... Com vc em minha vida, vou precisar de mais uma estante para os livros..

    rsrsrsrs.. Bjs, moça!!

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  5. A última edição de Shandy é de 1984? Ué, eu comprei a minha na Livraria Cultura há cerca de três anos... Vou checar de quando é.

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  6. Achastes o livro por esta bagatela na internet?

    NOoossa deu vontade de comprar!

    *____* heueheuehue

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  7. acho engraçado quando leio uma crítica em que se elogia a tradução mais não compara com a original. E o Elogio vem de onde, cara pálida?

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  8. acho engraçado quando leio uma crítica em que se elogia a tradução mais não compara com a original. E o Elogio vem de onde, cara pálida?

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