segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Carta para Tânia (janeiro de 1947) - Clarice Lispector

Fonte
Ao ler a biografia de Clarice Lispector, primorosamente escrita por Benjamin Moser [cuja pseudoresenha você pode ler aqui], me deparei com inúmeras passagens que me fizeram parar, grifar, anotar, refletir, chorar... E uma das passagens que mais me marcou foi esse excerto de uma carta que ela escreveu para sua irmã Tânia,  em janeiro de 1947.

Embora seja de uma tristeza sem igual, as palavras de Clarice, nessa carta, me fizeram renascer para alguns sentimentos que eu considerava adormecidos... Ela, como sempre, me fez pensar se estou indo pelo caminho certo, se estou seguindo o meu caminho.

Penso que nos importamos tanto com o mundo ao nosso redor, que, por tantas vezes, acabamos nos esquecendo do mundo dentro de nós. Por isso, e pela beleza de sempre, trouxe esse pedacinho de Clarice para compartilhar com vocês...

Carta de Clarice Lispector à sua irmã, Tânia (janeiro de 1947)

"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. [...] Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. [...] Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter. [...] Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e o interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. [...] Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora, se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com a lassidão de mulher de cinquenta anos. [...] o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver."

Referência: MOSER, Benjamin (Tradução de José Geraldo Couto). Clarice, .São Paulo: Cosac Naif, 2011 p. 302

Ps: A cópia do texto foi feita literalmente, assim, a edição é de responsabilidade de Benjamin Moser. No entanto, os grifos são todos meus, não existindo na versão orginal.

Tenham uma excelente semana!
Um beijo procês!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Clarice, - Benjamin Moser [Desafio Literário] [Pseudoresenha]

Fonte: Cosac Naif
Eis que chegou a hora de eu me entregar à biografia de dona Clarice Lispector, apaixonadamente narrada por Benjamin Moser...

"Lendo relatos de diferentes momentos de sua vida, é difícil acreditar que se refiram à mesma pessoa" [p. 15]

Comprei o livro há algum tempo, e havia lido alguns capítulos esparsos, mas tenho que confessar que ainda não tinha tido coragem de me entregar à leitura da primeira à última página. Tinha medo de ser sugada pela vida assim como o sou pelas obras de Clarice. Felizmente o meu medo se tornou realidade, e eu me joguei nos braços do furacão clariceano...

"O leitor de Clarice Lispector vê uma alma virada pelo avesso" [p. 17]

Eu não sou a mais apaixonada por biografias. A característica que mais faz com que eu me afaste desse tipo de leitura é a ânsia por objetividade e cronologia que a maioria dos escritores desse estilo persegue.

O que percebi em grande parte das biografias que li é uma necessidade de se criar um "calendário" da vida do artista, jogando fatos e ligando as obras com alguns acontecimentos. No entanto, a obra de Benjamin Moser passa longe dessas biografias enciclopédicas. Ela exala literatura, e não cronologia.

"'Meu drama é que sou livre', ela escreveu mais tarde" [301]

É certo que tudo é exposto em ordem cronológica, mas é uma ordem quase clariceana: que subverte o tempo, mescla elementos, faz ligações entrecortadas. As palavras de Moser mostram o gigante respeito que esse estudioso tem por Clarice; e até mesmo me arrisco a dizer que ele escreve como se estivesse o tempo todo em posição de reverência ao "Monstro Sagrado".

Gostei muito da forma como ele costurou a vida e os sentimentos da mulher Clarice com as obras da escritora. Muitas vezes, saber o que se passava enquanto um autor escreveu sua obra nos ajuda a sentir melhor essa obra. Não, não quis dizer entender, mas sentir mesmo. Porque a vida não explica a Literatura. A vida apenas nos dá as sensações para que compreendamos as palavras.

"Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência em manter-se à parte" [p. 22]


Um dos momentos mais tristes do livro é o capítulo em que Moser trata da vida da família de Clarice na Europa. Deus do céu, como eu chorei. Chorava de tristeza, de medo, de revolta. Aliás, o pano de fundo histórico foi muito bem colocado. Não são apenas passagens de enciclopédia, mas sim acontecimentos que ajudam a situar a vida e a obra de Clarice dentro do resto do mundo.

Mundo esse no qual ela sempre foi uma estrangeira. É impressionante perceber como um dos maiores desejos de Clarice era o de pertencer. E embora nunca tenha tido essa sensação de pertencimento, hoje ela pertence a nós. Quero dizer, cada palavra de Clarice vive dentro de cada um de seus leitores. Hoje ela pertence ao mundo daqueles que, ao contrário do que ela queria, são monstros sagrados...


"Clarice escreveu em sua coluna: Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro" [p. 501]



Benjamin fez um trabalho lindo, permeado pela delicadeza daquele que fala de alguém a quem tem profunda admiração. E nós, que também admiramos a escritora Clarice, podemos, através das delicadas palavras de Moser, admirar a mulher Clarice...

Ps: Aproveito pra indicar os vídeos que a Ju, d'O batom de Clarice, fez sobre Clarice Lispector. São lindos, e, assim como o livro de Moser, repletos de admiração. Os vídeos são esses daqui: Enfim, Clarice e Mais Clarice.

Informações Técnicas: MOSER, Benjamin (Tradução de José Geraldo Couto) . Clarice, . São Paulo: Cosac Naif, 2011.

Sinopse disponível no site da editora: Com o título Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), a Cosac Naify publica a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. Resenhada com destaque pela imprensa estrangeira, como o jornal The New York Times e a revista The Economist, a obra revela, pela primeira vez, aspectos fundamentais na trajetória da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia – para onde o autor viajou – ao reconhecimento crítico. A partir dessa pesquisa inédita, Moser tece relações entre a vida e a obra da brasileira – assim fazia questão de ser reconhecida – numa narrativa envolvente. O livro tem aberto os olhos internacionais para a literatura de Clarice Lispector, até agora restrita a alguns meios.

Escritor, crítico, editor e tradutor, Benjamin Moser nasceu em Houston, em 1976. Graduado em história, fala seis línguas, entre elas o português, que aperfeiçoou durante uma estadia no Rio de Janeiro. É colunista da Harper's Magazine e colaborador do The New York Review of Books.


Beijo procês!

Ps: Para ler a Ficha de Leitura do Desafio Literário é só clicar no link abaixo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Post its #6

Eis que depois de uma longa tempestade de volta às aulas, voltamos com nossa programação semanal dos Post its! E s'imbora pra eles, que o tempo urge, e o Carnaval já se foi, ou seja, a vida, no Brasil, definitivamente começou...

Companhia Musical
[Porque hoje é dia de Velha Guarda da Portela, em homenagem ao Carnaval que teve seu fim...]
  1. Volta - com Marisa Monte
  2. Esta melodia - com Marisa Monte
  3. Lenço/Gafieira - com Zeca Pagodinho
  4. Foi um rio que passou em minha vida -  com [o mestre] Paulinho da Viola
  5. O mistério do samba (Parte 1) [Filme em homenagem à Velha Guarda da Portela]


Sorteio recheadíssimo feito pelas mãe e filha mais queridas da blogosfera! Juliana [O Batom de Clarice] e Margareth Gervason [Unhas sempre coloridas]. Corre lá que ainda dá tempo de participar! É até o dia 26.

Por falar em sorteios e gente querida, a Lia, do Quero morar em uma livraria, está sorteando nada mais nada menos que um moleskine lindo do Snoopy e uma ecobag lindona do livro "The Great Gatsby", além de marcadores fofíssimos feitos por ela. 'Bora lá, que o sorteio vai até o final do mês!

2. Capas de quinta

Eu já devo ter dito que acho a Luara, do Isaac Sabe, uma das criaturas mais fofas desse mundo virtual... Por falar em fofura, além de ter um blog todo cheio de coisas bacanas, que vão desde dicas de livros até decoração, ela mantem essa tag, a Capas de Quinta, na qual ela comenta sobre capas lindonas de livros.

Recomendo uma visitinha com calma, porque, definitivamente, não dá pra ir no Isaac Sabe e ler um post só.


Essa é uma das animações mais incríveis que já vi nessa vida! É uma historinha sobre livros, que vai além, muito muito além das estantes e bibliotecas. Já vi mais de uma vez, e não consegui cansar, de tão fofo que é!


Eu sou uma daquelas pessoas que adora ver a vida alheia através de seus objetos. Passo horas vendo decorações de casas de gente de verdade [não gosto daqueles editoriais de revista; me parecem sem vida demais], tags do tipo "What's in your bag", fotos de bibliotecas e escritórios pessoais...

Talvez seja por isso que achei esse projeto do Jason Travis tão incrível. Ele aborda pessoas na rua, e tira uma foto de seus rostos e do conteúdo de suas bolsas. É bacana ver o quanto acabamos nos parecendo com os objetos que possuímos...


Eu admiro por demais a Julia Petit. Seus vídeos são meu guia na hora de pensar em makes e penteados diferentes. E, apesar de não saber fazer muita coisa, os tutoriais dela me fazem pensar "Yes, I can!"...

Acho ótimo o fato de ela ser um ícone de moda e beleza e, ao mesmo tempo, ser tão gente boa e coerente. Digo coerente, pois o que mais vemos nesse mundo da beleza e, principalmente dos blogs que se propõem a falar de moda e beleza, é a falta de coerência [e, 1bora combinar, a falta de noção também...].

Nessa entrevista ela fala sobre internet, blogs, publicidade e afins. Boa pra quem está inserida na blogosfera, e também pra quem está apenas acompanhando.

6. Algo errado na educação

Não lembro como cheguei a esse vídeo... Fato é que o Pirulla falou muita coisa que eu guardo engasgada por anos...

Nos últimos dias passei por situações que me deixaram muito triste, e me obrigaram a pensar em outras formas de ganhar a vida se eu não quiser enlouquecer antes dos 40. Sim, é triste, mas é verdade...

O bacana do vídeo, além do modo como ele bota a boca no trombone, são as indicações de outros vídeos que ele faz, como os do Mario Sérgio Cortella, a quem admiro bastante...


O [menina não pode] é um blog com quadrinhos e ilustrações da Libu. Ela não fala muito sobre si mesma no blog, mas fala por demais nas ilustrações.

O desenho é uma graça, e eu adoro a paleta de cores e as técnicas que ela usa. Quanto à temática, ela fala sobre coisas da nossa vida de mulherzinha, sempre com um jeitinho engraçado e fofo ao mesmo tempo.

Recomendo dicumforça, e deixo aqui duas tirinhas tiradas lá do blog dela.





Um beijo procês!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Pequena Abelha, de Chris Cleave [pseudoresenha] [Desafio Literário]

Fonte: Intrínseca
Enfim, eu li Pequena Abelha. Esse foi mais um daqueles livros lidos por uma conspiração do universo. Eu já estava desesperada pra lê-lo desde que vi esse vídeo de dona Ju [O Batom de Clarice], no qual ela recomenda dicumforça a leitura. E então o João fez um sorteio lá no Fósforo [blog ótimo, aliás, que super vale a visita!], e, pela primeira vez nesse mundo virtual, eu ganhei. Assim, não tinha como não ler. E, como previa a Ju, não há como esquecer da leitura.

"Não podemos escolher onde começar e onde parar. Nossas histórias é que são contadoras de nós" [p. 138]

Chris Cleave fez um trabalho primoroso, digno de ser colocado na minha prateleira de reler sempre que puder. Digno de ser estudado, revivido, revisitado.

Eu me lembro de quando o livro foi lançado. Dei de cara com ele na livraria, achei a capa de uma beleza sem igual, mas ele estava na estante dos super lançamentos da última semana, o que me fez ficar com os dois pés atrás [sim! Eu tenho problemas com lançamentos super badalados! Como diria a fofa da Luara, me julguem!]...

"[...] compreendi que não é pelos mortos que choramos. Choramos por nós mesmos, e eu não merecia ter pena de mim mesma" [p. 103]

O tempo passou e eu me esqueci dele, até a Ju declarar amor eterno por Abelhinha... Como confio nas opiniões de minha quase irmã ;), fiquei esperando que o livro caísse do céu, visto que estava em plena época de falência terminal. E eis que ele caiu "das nuvens", e me levou pra um lugar bem, bem longe da casa dos anjos...

"Eu era uma mulher moderna e a frustração era algo que eu compreendia mais que o medo" [p. 113]

Enquanto lia Pequena Abelha, não mais concebia o fato de haver vida fora das páginas do livro. Eu me apeguei a cada personagem, senti por eles ternura, raiva, estranhamento, simpatia, carinho, amor...

Eu quis muito sair pra passear vestida de Batman; quase me matei de vontade de ensinar a Yvette a falar como gente; senti uma vontade desesperadora de dizer pra Abelhinha que tudo ficaria bem, apesar de eu saber e sentir que, na vida, não é sempre assim...

"Sou o tipo de pessoa que precisa saber do que está falando. Não posso apenas escrever um discurso cheio de palavras vazias" [p. 165]

O estilo narrativo de Cleave contribui pra sensação de estarmos sentadas, numa sala, conversando com Sarah e Abelhinha. É como se pudéssemos ouvir cada uma das palavras, cada um de seus sorrisos e cada uma de suas muitas lágrimas. Como se compartilhássemos de sua dor, de suas histórias, de suas cicatrizes...

"Faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi!'" [p. 17]

Cada capítulo é narrado por uma das duas personagens principais. Sarah e Abelhinha vão tecendo sua manta, e nos convidando a sentar com elas em torno da lareira de seus sentimentos, ouvir suas histórias, e - por que não? - compartilhar as nossas...

Pequena Abelha é um livro pra ser vivido, e não apenas lido. Caso o leitor não se entregue ao livro, a leitura não valerá a pena, pois é essa entrega que faz com que o livro se torne ainda mais especial. Essa presença nossa na história, e essa presença da história em nós...

"Palavras tristes são apenas uma outra forma de beleza. Uma história triste quer dizer: essa contadora de histórias está viva" [p. 17]

Se eu recomendo a leitura? Mais do que recomendo! Mas devo avisar que não há volta... Uma vez dentro do mundo de Abelhinha, não há mais como voltar, e nem como esquecer...

Informações Técnicas: CLEAVE, Chris. Pequena Abelha. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

Sinopse disponível no site da editoraNão queremos lhe contar o que acontece nesse livro.

É realmente uma história especial, e não queremos estragá-la.

Ainda assim, você precisa saber algo para se interessar, por isso vamos dizer apenas o seguinte:

Essa é a história de duas mulheres cujas vidas se chocam num dia fatídico. Então, uma delas precisa fazer uma escolha que envolve vida ou morte. Dois anos mais tarde, elas se reencontram. E tudo começa... Depois de ler esse livro, você vai querer comentá-lo com seus amigos. Quando o fizer, por favor, não lhes diga o que acontece. O encanto está sobretudo na maneira como a narrativa se desenrola.

Pequena Abelha é o segundo livro de Chris Cleave. Finalista do Prêmio Costa de 2008 como Melhor Obra de Ficção, foi indicado ao Prêmio Commonwealth Writers' como Melhor Livro de 2009.



Um beijo procês!

Ps: Para ler a ficha de leitura do Desafio Literário, é só clicar no link abaixo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Volta às aulas... [Here we go again!]

Fonte
É bem provável que a maioria de vocês já tenha notado que o meu sumiço da vida virtual começou assim que as aulas voltaram. Nada mais natural, afinal, eu estava acostumada com a vida boa de não ter obrigação nenhuma [além de tomar banho, comer e dormir], e, de repente não mais que de repente, tive que encarar o batente de novo...

Ando cansadíssima, cansadérrima... Peguei turmas novas de 6° ano, na disciplina de Português, o que quer dizer que preciso pensar no planejamento, criar aulas, me adaptar à realidade dos meus monstrinhos menores... Assim como para eles tudo é novidade, pra mim também...

Eu passei mais de 75% da minha vida docente lecionando para o Ensino Médio. Sabia de cor e salteado [será que alguém ainda usa essa expressão?!] todo o conteúdo, todas as manhas, as birras, as sem-vergonhices dos meus monstros adolescentes.

Dar aula para o Ensino Médio é quase como fazer um show ou uma peça por dia. Haja criatividade e desempenho pra fazer aqueles diabinhos se interessarem um cadinho que seja por Subordinadas, Sintaxe, Camões, Sermões, Parnasianismo e os milhares de "ismos" literários...

Com eles, a parada é meio que "pé na porta e soco na cara", porque a galera do Ensino Médio não gosta de professor fofinho, bonzinho e bobinho. Eles gostam é de ser ameaçados [no bom sentido, é claro!]. Gostam de professores carne de pescoço, que os desafiam e que os fazem ficar quietos só com a nossa presença.

Eu me considerava tranquila e confortável na arte de lecionar, até que há dois anos eu enfrentei minhas primeiras turmas de Ensino Fundamental II. No primeiro ano eu quase enlouqueci, mas assim, enlouquecer dicumforça! Não conseguia corresponder às expectativas da escola [uma instituição seríssima de ensino daqui da cidade], não conseguia criar vínculo com os alunos - afinal, professores de Ensino Médio não criam vínculos! -, não conseguia viver feliz em sala... Quase que eu abandono minha profissão pela segunda vez.
Fonte

Mas daí que eu tive a minha versão de fada madrinha, a senhora dona coordenadora, que me ajudou a enfrentar essa fase, que me deu força e compartilhou um cadinho de sua sabedoria comigo. Foi quando eu descobri que as diferenças entre Fundamental II e Médio são abismais!

No Fundamental II eles precisam de alguém que lhes diga o quê, quando e como fazer alguma coisa; mas tudo tem que ser dito da forma mais carinhosa e disciplinadora possível. Dá pra entender? Pois é, se é difícil entender, imagina fazer?!

No começo, eu não sabia direito como conviver com eles, afinal, não tinha sido "treinada" pra ser amorosa com as crianças. Eu ainda tinha a mentalidade de que o professor tinha que manter distância, pois, do contrário, a sala viraria uma bagunça.

Mas hoje, até o conceito de bagunça eu revi. Eu descobri que, muitas vezes, o que nós consideramos bagunça, é apenas o jeito cheio de energia que eles tem de se expressar. Confesso que há dias em que eu precisaria enfiar o dedo numa tomada 220 pra conseguir acompanhar os pestinhas, mas, ao menos, aprendi que seus abraços e beijos são naturais.

O 6° ano ainda está me ensinando muita coisa, como, por exemplo, que cinco anos no Ensino Fundamental I não são o suficiente pra eles aprenderem o que é parágrafo, letra maiúscula e todas essas outras coisas que nós usamos sem nem nos darmos conta. Eles precisam que seja dito quando se tem que "pular linha" no caderno, e quantas linhas são necessárias. Eles precisam que a gente "dê um visto" na agenda, pra não esquecerem de fazer a tarefa. Eles precisam não só de disciplina, mas de carinho também.

Não vou dizer que é fácil, mas é recompensador ver os pestinhas se desenvolvendo... E é por eles e para eles que passo tanto tempo debruçada em livros e sites, tentando criar aulas melhores, e ser uma professora melhor...

Frequentemente, eu escuto que eu estou desperdiçando meu talento no Ensino Fundamental. Inclusive, escutei isso numa entrevista que fiz recentemente, pra uma das escolas mais conceituadas da cidade, na qual, se quisesse, teria pego turmas de Ensino Médio com um salário astronômico.

Fonte
Mas já havia começado o bimestre, e, pra ganhar o salário "das estrelas" eu teria que sair da escola em que estou, e deixar a coordenadora e meus monstrinhos na mão. Confesso que fiquei tentada, afinal, trabalharia menos da metade pra ganhar o mesmo salário. Estaria no "meu ambiente" de Ensino Médio. Faria parte do time dos professores reconhecidos.

Só que não consegui. Não consegui pensar em despontar uma instituição que aposta em mim há dois anos. Não consegui não pensar na carinha de tristeza das fofuras do 6° ano ao saberem que a professora os abandonaria. Não consegui carregar essa culpa comigo.

Fico muito triste quando ouço por aí que professor de Ensino Fundamental não tem valor... Afinal, todos nós que estamos nesse barco, somos a base da educação dessas crianças. Temos um trabalho do cão pra ensiná-las não apenas Classes de Palavras e Funções de 1° grau, mas também como se comportar, como escrever corretamente no caderno, como falar com educação com o colega.

Eu espero ser valorizada como profissional [embora isso ande bastante difícil...], independentemente da série em que eu esteja lecionando. Além disso, esses dois anos no Ensino Fundamental me ensinaram tanto ou mais do que meus 10 anos no Ensino Médio.

E dá pra ver que, quando o assunto é minha profissão, eu esqueço da vida, né?

O que era pra ser um post falando sobre a volta às aulas, virou uma falação sem fim sobre tantas outras coisas...

De qualquer forma, tentarei conciliar meu lado workaholic com as funções do blog e do canal no Youtube. Aleluia que os feriados estão aí, lépidos e faceiros!

Quero aproveitar, e desejar um feliz retorno às aulas tanto pros colegas professores que me leem [Ju, beijo especial procê!], quanto praqueles que ainda são alunos.

Que seja um ano especial, cheio de aprendizado pra todos nós!

Um beijo procês!

Ps: Ao clicar na palavra "fonte", abaixo das figuras, você é redirecionado para as páginas das quais retirei as imagens.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Para não bobear, Clarice Lispector

Relendo uns pedacinhos do livro "Só para mulheres", de dona Clarice, encontrei esse texto, no qual ela fala sobre a necessidade de uma mulher cuidar das palavras que saem de sua boca.

Infelizmente, cada dia mais vemos por aí pessoas com os lábios lindamente maquiados, através dos quais jorram cobras e lagartos...

Penso que precisamos prestar mais atenção naquilo que falamos e naquilo que é realmente importante. De nada adianta estar "na moda" e não ter ideias pra defender. Como diria minha [e, provavelmente todas] avó: "Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento"...

Que tenhamos uma excelente semana, livre de cobras e lagartos!.

Para não bobear

Quando você era criança nunca leu a história de uma princesa linda, linda, mas - por maldição de fada ruim - que não abria a boca sem que desta lhe saíssem sapos, lagartos e ratinhos?

Pois o modo moderno de saírem "cobras e lagartos" da boca linda de uma jovem é o de dizer muita bobagem com os lábios perfeitamente maquiados. Só que isso não acontece por maldição de fada ruim, e sim por ignorância, por falta de instrução. Uma dessas "princesas" modernas, ouvindo uma conversa sobre Hemingway, perguntou: "Qual é o último filme em que ele trabalhou?"

Ler é um hábito que todo mundo devia ter. Não se quer dizer com isso que todos leiam "coisas difíceis". Mesmo uma revista bem informada - e bem lida - pode ser uma fonte de culturazinha que pelo menos evita "cobras e lagartos".

Informações Técnicas: LISPECTOR, Clarice (Organização de Aparecida Maria Nunes). Só para mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 2008 p. 06

Um beijo procês!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Sobre a ausência...

Fonte: 10 Pãezinhos

Meus amores,

Sei que ando ausente do blog e do Youtube. Ninguém sente mais minha falta neles dois do que eu mesma... Mas as aulas começaram, e eu voltei pros braços da minha faceta workaholic de ser. Além disso, como estava acostumada com a vida boa das férias, tenho me sentido mais cansada do que nunca, de modo que não consigo encontrar coragem para atualizar meus muquifinhos.

Esse post é só pra avisar que estou viva embora em estado de cansaço terminal e que logo volto pra colocar as coisas em dia.

Quero aproveitar e agradecer aos novos leitores e também aos velhos leitores. Muito obrigada pela presença, pelos comentários e pelo carinho. Esse blog não teria a menor graça se não fossem vocês, estrupicinhos!

Espero que todos tenham uma excelente semana!

Um beijo especial procês, da Patrícia, a fantasminha camarada!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Do amor e outros demônios, Gabriel García Márquez [pseudoresenha]

"Do amor e outros demônios" foi a minha quarta leitura do ano, feita na primeira semana de 2012. Levei uma madrugada para devorá-lo. E até hoje (um mês depois), ainda não consegui digeri-lo...

"Vivo espantado de estar vivo..." [p. 55]

Ele me tomou avassaladoramente, assim como a raiva e a loucura tomaram Sierva Maria. A cada linha do romance, do sempre genial García Márquez, eu sentia como se algo dentro de mim estivesse sendo arrancado. Como se meu coração estivesse sendo colocado no lugar de onde nunca deveria ter saído.

Ao terminar o livro - lá pelas 3 horas da manhã - eu não conseguia me mexer. Fiquei, com o livro fechado sobre o peito, as mãos o agarrando, enquanto chorava como uma criança que perdera suas crenças inocentes.

A história de Garcia Márquez é absurdamente bem amarrada. Todas as personagens [e não são poucas, viu... Penso que ele resolveu repatriar um terço da população da China pros seus romances, porque olha... Vai ter personagem assim lá em Cem anos de Solidão, minha gente...] são bem demarcadas e bem construídas. Eu odiei praticamente todas! Mas não é odiozinho assim, pequeno... Não é raivinha. É ódio, dicumforça!

"Ela lhe perguntou num daqueles dias se era verdade, como diziam as canções, que o amor tudo podia. - É verdade - respondeu ele -, mas é melhor não acreditares." [p. 75]

Os pais de Sierva Maria são, de longe, os que mais tive vontade de matar. Mas não matar com um tirozinho bobo, não! Matar com requintes e melindres de crueldade, isso sim... #oalberguefeelings

O que mais me marcou na leitura foram as sensações que ela me despertou. Fazia muito, mas muito tempo que um livro não me estraçalhava dessa forma, como se eu fosse uma boneca de pano na boca de um cão feroz.

"A opressão do anoitecer ocupou o mundo" [p. 87]

Não vou me ater a contar o enredo do livro, pois acho que a sinopse fala por si. Penso que o mais importante é falar sobre como o livro agiu em mim...

Por isso, vou reproduzir abaixo um pedaço do rascunho que escrevi a mão logo que terminei de ler "Do amor...". Em algumas partes, mal consigo compreender minha letra, de tão fora de mim que ainda estava... Praticamente um "querido diário"...

"Tomo a liberdade de começar pelo fim... Ao terminar de ler o livro, meu peito doía como se algo o estivesse comprimindo. Minha boca estava amarga, meus olhos cansados e meus ombros pesavam muito mais que a mão de uma criança.

Ainda não sei dizer se García Márquez expurgou meus demônios ou acordou-os todos...Sinto minha alma pesada e triste. Vejo nas sombras meus medos, meus fantasmas.

Agora são 3 da manhã. Reza a lenda que é o horário dos demônios. Talvez seja. Talvez eu precisasse que a porta fosse aberta para que eles me abandonassem.

Escrevo como que para me salvar da sensação da loucura. Escrevo como que para me lavar das minhas dores. Escrevo por medo de me abandonar a mim mesma.

O livro que começou prometendo ser mais um romance latino-americano, com todas as suas cores, todos os seus cheiros e todo o seu gosto amargo, terminou sendo o meu golpe de misericórdia. Tenho vontade de andar quilômetros, só pra ver se a exaustão física sossega minha alma que sangra sua ferida em carne viva..."

Pois é... Um pouco exagerado, eu confesso. Mas foi exatamente assim que me senti logo depois de ler o livro. Agora me sinto mais calma, como se, realmente, eu tivesse expurgado meus demônios. Embora acredite que ganhei a companhia de alguns outros. Mas, no fim das contas, penso que é melhor ter amor e demônios do que ser fadado a cem anos de solidão...

"- Como estamos longe! - suspirou ele.
- De quê?
- De nós mesmos." [p. 142]


Informações técnicas: MÁRQUEZ, Gabriel García. Do amor e outros demônios. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Sinopse da contracapa do livro [pois, por incrível que pareça, não há sinopse no site da editora]: [...] Do amor e outros demônios vem assim de uma inspiração de quase meio século. Mas sua história vai além. García Márquez viaja até fins do século XVIII, em pleno vice-reinado da Colômbia, esta ainda uma colônia da Espanha, para compor uma história de amor, cercada de sortilégio e feitiçaria, culminando num processo instaurado pela Inquisição. Mais uma vez um tema eternizado na literatura mundial - um dos desejos que elege as paixões e atinge as raízes mais profundas do ser humano: o amor.

Com um misto de religiosidade cristã e rituais africanos, a narrativa poética de García Márquez revela os laços que envolvem uma adolescente, filha única de um marquês, crescida no convívio de escravos e orixás, e um padre espanhol, incumbido de exorcizar os demônios que se acredita terem possuído a meninazinha, cujos cabelos jamais foram cortados em promessa atá a noite de seu casamento.

No cenário opressivo da sociedade colonial, do convento fantasmagórico, do manicômio de mulheres e da casa-grande em decadência, movem-se estranhas figuras dominadas por um cruel fanatismo -  o segundo marquês de Casalduero, dom Ygnacio de Alfaro y Dueñas; a marquesa, dona Olalla de Mendonza; Bernarda Cabrera; Dominga de Adviento; Abrenuncio... [...] Ao unir a jovem Sierva María de Todos los Ángeles e o padre Cayetano Delaura em momentos de terno sossego e ardente volúpia, o mestre do realismo fantástico cria uma história com a força e a pungência de um drama de nossos dias.

Ps: Eu também falei do livro nesse vídeo aqui, ó: Leituras de MininaMá #5

Um beijo procês!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Carta para Oskar Pollak, Franz Kafka

Num dia de férias, em que eu, Aris e Super estávamos passeando pela livraria, encontrei essa citação na primeira página do livro O ano da leitura mágica, de Nina Sankovitch.

Me apaixonei! Pela citação e pelo livro... Como já estava falida, não pude trazer o livro pra morar comigo, mas guardei a citação comigo. Resolvi compartilhá-la com vocês, pois, apesar de pequena, achei de uma inspiração revigorante!

Espero que nossa semana seja também um machado para nos quebrar o congelado da alma...

"Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós."
Franz Kafka, Carta para Oskar Pollak, 27 de janeiro de 1904.

Fonte: Menos um na Estante

Informações técnicas: O ano da leitura mágica. Rio de Janeiro: Leya, 2011

Um beijo procês!
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