sábado, 25 de fevereiro de 2012

Clarice, - Benjamin Moser [Desafio Literário] [Pseudoresenha]

Fonte: Cosac Naif
Eis que chegou a hora de eu me entregar à biografia de dona Clarice Lispector, apaixonadamente narrada por Benjamin Moser...

"Lendo relatos de diferentes momentos de sua vida, é difícil acreditar que se refiram à mesma pessoa" [p. 15]

Comprei o livro há algum tempo, e havia lido alguns capítulos esparsos, mas tenho que confessar que ainda não tinha tido coragem de me entregar à leitura da primeira à última página. Tinha medo de ser sugada pela vida assim como o sou pelas obras de Clarice. Felizmente o meu medo se tornou realidade, e eu me joguei nos braços do furacão clariceano...

"O leitor de Clarice Lispector vê uma alma virada pelo avesso" [p. 17]

Eu não sou a mais apaixonada por biografias. A característica que mais faz com que eu me afaste desse tipo de leitura é a ânsia por objetividade e cronologia que a maioria dos escritores desse estilo persegue.

O que percebi em grande parte das biografias que li é uma necessidade de se criar um "calendário" da vida do artista, jogando fatos e ligando as obras com alguns acontecimentos. No entanto, a obra de Benjamin Moser passa longe dessas biografias enciclopédicas. Ela exala literatura, e não cronologia.

"'Meu drama é que sou livre', ela escreveu mais tarde" [301]

É certo que tudo é exposto em ordem cronológica, mas é uma ordem quase clariceana: que subverte o tempo, mescla elementos, faz ligações entrecortadas. As palavras de Moser mostram o gigante respeito que esse estudioso tem por Clarice; e até mesmo me arrisco a dizer que ele escreve como se estivesse o tempo todo em posição de reverência ao "Monstro Sagrado".

Gostei muito da forma como ele costurou a vida e os sentimentos da mulher Clarice com as obras da escritora. Muitas vezes, saber o que se passava enquanto um autor escreveu sua obra nos ajuda a sentir melhor essa obra. Não, não quis dizer entender, mas sentir mesmo. Porque a vida não explica a Literatura. A vida apenas nos dá as sensações para que compreendamos as palavras.

"Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência em manter-se à parte" [p. 22]


Um dos momentos mais tristes do livro é o capítulo em que Moser trata da vida da família de Clarice na Europa. Deus do céu, como eu chorei. Chorava de tristeza, de medo, de revolta. Aliás, o pano de fundo histórico foi muito bem colocado. Não são apenas passagens de enciclopédia, mas sim acontecimentos que ajudam a situar a vida e a obra de Clarice dentro do resto do mundo.

Mundo esse no qual ela sempre foi uma estrangeira. É impressionante perceber como um dos maiores desejos de Clarice era o de pertencer. E embora nunca tenha tido essa sensação de pertencimento, hoje ela pertence a nós. Quero dizer, cada palavra de Clarice vive dentro de cada um de seus leitores. Hoje ela pertence ao mundo daqueles que, ao contrário do que ela queria, são monstros sagrados...


"Clarice escreveu em sua coluna: Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro" [p. 501]



Benjamin fez um trabalho lindo, permeado pela delicadeza daquele que fala de alguém a quem tem profunda admiração. E nós, que também admiramos a escritora Clarice, podemos, através das delicadas palavras de Moser, admirar a mulher Clarice...

Ps: Aproveito pra indicar os vídeos que a Ju, d'O batom de Clarice, fez sobre Clarice Lispector. São lindos, e, assim como o livro de Moser, repletos de admiração. Os vídeos são esses daqui: Enfim, Clarice e Mais Clarice.

Informações Técnicas: MOSER, Benjamin (Tradução de José Geraldo Couto) . Clarice, . São Paulo: Cosac Naif, 2011.

Sinopse disponível no site da editora: Com o título Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), a Cosac Naify publica a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. Resenhada com destaque pela imprensa estrangeira, como o jornal The New York Times e a revista The Economist, a obra revela, pela primeira vez, aspectos fundamentais na trajetória da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia – para onde o autor viajou – ao reconhecimento crítico. A partir dessa pesquisa inédita, Moser tece relações entre a vida e a obra da brasileira – assim fazia questão de ser reconhecida – numa narrativa envolvente. O livro tem aberto os olhos internacionais para a literatura de Clarice Lispector, até agora restrita a alguns meios.

Escritor, crítico, editor e tradutor, Benjamin Moser nasceu em Houston, em 1976. Graduado em história, fala seis línguas, entre elas o português, que aperfeiçoou durante uma estadia no Rio de Janeiro. É colunista da Harper's Magazine e colaborador do The New York Review of Books.


Beijo procês!

Ps: Para ler a Ficha de Leitura do Desafio Literário é só clicar no link abaixo.



Tema: Nome Próprio
Mês: Fevereiro

Um pouco sobre o mim
Eu sou a: Patrícia Pirota

Moro em: Campo Grande - MS 

Na net, você me encontra (Blog ou Site):

Neste mês, eu li:

Título: Clarice,
Autor do livro: Benjamin Moser

Editora: Cosac Naif

Nº de páginas: 748

Quando vi a capa do livro, o que mais chamou a minha atenção foi a necessidade de fechar os olhos e sentir a vida junto com Clarice.

O livro é sobre vida e obra de Clarice Lispector.

Eu escolhi este livro porque eu estava adiando a leitura há meses... Quando vi o tema do Desafio, achei que era a hora de, enfim, enfrentar o enigma.        

A leitura foi um misto de emoções...

O personagem que eu gostaria de me tornar era a Joana, personagem de "Perto do coração selvagem", do qual Moser faz diversas análises durante o livro.

O trecho do livro que merece destaque: "Clarice escreveu em sua coluna: Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro" [p. 501]

A nota que eu dou para o livro: 5-  Adorei.

9 comentários:

  1. Estou com ele aqui há meses e estou lendo muito devagar, talvez com medo de que acabe logo, ou que aconteça o que lhe aconteceu.
    Você conseguiu falar do livro o que eu não havia conseguido quando falo dele para as pessoas.
    Melhor biografia que já tive em mãos, mas sendo de Clarice, tinha mesmo que ser especial.

    beijos e um lindo final de semana!

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  2. Lembro que eu tinha 15 anos quando li Perto do Coração Selvagem e foi um estouro, uma ventania para dentro... Sei lá, o primeiro encontro a gente nunca esquece néh?!?!? Minha melhor amiga se tornou fã de Clarice eu nem tanto, sou mais do clube dos autores céticos como Machado de Assis! Mas, te confesso que me contorço, me irrito e me revolto quando vejo o que as redes sociais fazem a ela, as vezes fazem ela parecer autora de livro de auto-ajuda de 5ª, isso me irrita... As vezes tenho vontade de perguntar a essas pessoas se ao menos elas leram "A mulher que matou os peixes" para saírem citando Clarice assim!!!

    Enfim, amei a resenha, quem sabe um dia não me encontro com esse autor!!!

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  3. essa é minha biografia mais do que preferida =)

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  4. Uma matéria simpática sobre meu livro e Clarice Lispector - Palavras do Próprio Benjamin Moser no Twitter. Eita que tu tá ficandu importanti.

    Bj Lindona

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  5. Uma boa indicação...Obrigada.
    Bom fim de semana!

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  6. Que resenha deliciosa, Pati!
    Comprei hj o livro e aguardo ansiosamente.
    Mudando de assunto, adorei Coisas Frágeis.
    Vc só dá dica boa, hein.

    Beijão!

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  7. Oi linda, eu tenho medo de ler Clarice... Acho que fiquei traumatizada quando li o livro A Hora da Estrela quando era mais nova (bem mais nova!!!) e confesso que não consegui entender a obra... Talvez agora mais velha possa apreciar com devido prazer os livros dela, quem sabe?

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  8. Adorei sua resenha! Estou entrando nesse " mundo da Clarice ", me acostumando com suas introspecções tão características. Ano passado li " Perto do Coração Selvagem" e essa semana comprei "Um sopro de vida", mesmo porque sou apaixonada pelos seus contos. Qualquer coisa visita o meu simplório blog: http://kesia-ferreira.blogspot.com.br/

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  9. Adoro Clarice! Ainda não li essa biografia, mas tá na minha listinha de próximas leituras...hehe. Falando em biografias, Patrícia, você já leu "O Anjo Pornográfico", do Ruy Castro? É uma biografia do Nelson Rodrigues e uma das melhores que eu já li! Recomendo fortemente. =)

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