quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Do amor e outros demônios, Gabriel García Márquez [pseudoresenha]

"Do amor e outros demônios" foi a minha quarta leitura do ano, feita na primeira semana de 2012. Levei uma madrugada para devorá-lo. E até hoje (um mês depois), ainda não consegui digeri-lo...

"Vivo espantado de estar vivo..." [p. 55]

Ele me tomou avassaladoramente, assim como a raiva e a loucura tomaram Sierva Maria. A cada linha do romance, do sempre genial García Márquez, eu sentia como se algo dentro de mim estivesse sendo arrancado. Como se meu coração estivesse sendo colocado no lugar de onde nunca deveria ter saído.

Ao terminar o livro - lá pelas 3 horas da manhã - eu não conseguia me mexer. Fiquei, com o livro fechado sobre o peito, as mãos o agarrando, enquanto chorava como uma criança que perdera suas crenças inocentes.

A história de Garcia Márquez é absurdamente bem amarrada. Todas as personagens [e não são poucas, viu... Penso que ele resolveu repatriar um terço da população da China pros seus romances, porque olha... Vai ter personagem assim lá em Cem anos de Solidão, minha gente...] são bem demarcadas e bem construídas. Eu odiei praticamente todas! Mas não é odiozinho assim, pequeno... Não é raivinha. É ódio, dicumforça!

"Ela lhe perguntou num daqueles dias se era verdade, como diziam as canções, que o amor tudo podia. - É verdade - respondeu ele -, mas é melhor não acreditares." [p. 75]

Os pais de Sierva Maria são, de longe, os que mais tive vontade de matar. Mas não matar com um tirozinho bobo, não! Matar com requintes e melindres de crueldade, isso sim... #oalberguefeelings

O que mais me marcou na leitura foram as sensações que ela me despertou. Fazia muito, mas muito tempo que um livro não me estraçalhava dessa forma, como se eu fosse uma boneca de pano na boca de um cão feroz.

"A opressão do anoitecer ocupou o mundo" [p. 87]

Não vou me ater a contar o enredo do livro, pois acho que a sinopse fala por si. Penso que o mais importante é falar sobre como o livro agiu em mim...

Por isso, vou reproduzir abaixo um pedaço do rascunho que escrevi a mão logo que terminei de ler "Do amor...". Em algumas partes, mal consigo compreender minha letra, de tão fora de mim que ainda estava... Praticamente um "querido diário"...

"Tomo a liberdade de começar pelo fim... Ao terminar de ler o livro, meu peito doía como se algo o estivesse comprimindo. Minha boca estava amarga, meus olhos cansados e meus ombros pesavam muito mais que a mão de uma criança.

Ainda não sei dizer se García Márquez expurgou meus demônios ou acordou-os todos...Sinto minha alma pesada e triste. Vejo nas sombras meus medos, meus fantasmas.

Agora são 3 da manhã. Reza a lenda que é o horário dos demônios. Talvez seja. Talvez eu precisasse que a porta fosse aberta para que eles me abandonassem.

Escrevo como que para me salvar da sensação da loucura. Escrevo como que para me lavar das minhas dores. Escrevo por medo de me abandonar a mim mesma.

O livro que começou prometendo ser mais um romance latino-americano, com todas as suas cores, todos os seus cheiros e todo o seu gosto amargo, terminou sendo o meu golpe de misericórdia. Tenho vontade de andar quilômetros, só pra ver se a exaustão física sossega minha alma que sangra sua ferida em carne viva..."

Pois é... Um pouco exagerado, eu confesso. Mas foi exatamente assim que me senti logo depois de ler o livro. Agora me sinto mais calma, como se, realmente, eu tivesse expurgado meus demônios. Embora acredite que ganhei a companhia de alguns outros. Mas, no fim das contas, penso que é melhor ter amor e demônios do que ser fadado a cem anos de solidão...

"- Como estamos longe! - suspirou ele.
- De quê?
- De nós mesmos." [p. 142]


Informações técnicas: MÁRQUEZ, Gabriel García. Do amor e outros demônios. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Sinopse da contracapa do livro [pois, por incrível que pareça, não há sinopse no site da editora]: [...] Do amor e outros demônios vem assim de uma inspiração de quase meio século. Mas sua história vai além. García Márquez viaja até fins do século XVIII, em pleno vice-reinado da Colômbia, esta ainda uma colônia da Espanha, para compor uma história de amor, cercada de sortilégio e feitiçaria, culminando num processo instaurado pela Inquisição. Mais uma vez um tema eternizado na literatura mundial - um dos desejos que elege as paixões e atinge as raízes mais profundas do ser humano: o amor.

Com um misto de religiosidade cristã e rituais africanos, a narrativa poética de García Márquez revela os laços que envolvem uma adolescente, filha única de um marquês, crescida no convívio de escravos e orixás, e um padre espanhol, incumbido de exorcizar os demônios que se acredita terem possuído a meninazinha, cujos cabelos jamais foram cortados em promessa atá a noite de seu casamento.

No cenário opressivo da sociedade colonial, do convento fantasmagórico, do manicômio de mulheres e da casa-grande em decadência, movem-se estranhas figuras dominadas por um cruel fanatismo -  o segundo marquês de Casalduero, dom Ygnacio de Alfaro y Dueñas; a marquesa, dona Olalla de Mendonza; Bernarda Cabrera; Dominga de Adviento; Abrenuncio... [...] Ao unir a jovem Sierva María de Todos los Ángeles e o padre Cayetano Delaura em momentos de terno sossego e ardente volúpia, o mestre do realismo fantástico cria uma história com a força e a pungência de um drama de nossos dias.

Ps: Eu também falei do livro nesse vídeo aqui, ó: Leituras de MininaMá #5

Um beijo procês!

7 comentários:

  1. "Do amor e outros demônios" é um livro fantástico! Também me despertou as mais diferentes emoções e no final da leitura, assim como você, me senti despedaçada, incapaz de juntar meus próprios fragmentos.

    Acho que os bons livros fazem isso com a gente mesmo, nos deixam com as emoções à flor da pele.

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  2. Gabriel Garcia Márquez tem esse dom, de nos sacudir a cada livro seu que temos o prazer - mesmo endemoniado - de ler. "Do amor..." eu ainda não li, mas compreendo seu esgotamento emocional por ter enfrentado um parecido ao terminar de ler Cem Anos de Solidão. Até hoje, quando me lembro desse livro (que ainda não tive coragem de reler, mesmo depois de tantos anos), cai sobre meus ombros o peso de toda aquela solidão.

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  3. Ui!! Que meda!! Será que eu sobrevivo?
    Ainda não li, mas tenho ele e acho que vou furar fila!
    Bom fim de semana!
    Beijus,

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  4. A primeira vez que li Gabriel Garcia Márquez nunca vou esquecer: Eu estava na quinta série do ensino fundamental, e foi meu professor de física (sim, física! e não literatura) que me recomendou... Cem anos de solidão.

    Amei. Mas passei um bom tempo sem conseguir ler Gabriel Garcia Márquez novamente...

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  5. Esse livro é maravilhoso! Aliás, Márquez é incrível, um escritor que deixa a gente sem saber o que fazer e que sabe muito bem tirar nosso fôlego. Genial!
    Bjos e bom domingo

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  6. A cada dia que passa eu tenho mais e mais vontade de ler García Marquez, mas sempre alguma coisa me atrapalha! E essa sua "pseudo-resenha" me deixou ainda mais encantada *-*

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  7. No meio de uma perturbação enorme causada por esse livro, e dessa falta de suporte em uma personagem qualquer que me trouxesse identificação e alento, fui procurar na internet outras almas como eu... foi bom ler sua resenha e, firme, deixar que o livro me expulse os demônios...

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