terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Volta às aulas... [Here we go again!]

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É bem provável que a maioria de vocês já tenha notado que o meu sumiço da vida virtual começou assim que as aulas voltaram. Nada mais natural, afinal, eu estava acostumada com a vida boa de não ter obrigação nenhuma [além de tomar banho, comer e dormir], e, de repente não mais que de repente, tive que encarar o batente de novo...

Ando cansadíssima, cansadérrima... Peguei turmas novas de 6° ano, na disciplina de Português, o que quer dizer que preciso pensar no planejamento, criar aulas, me adaptar à realidade dos meus monstrinhos menores... Assim como para eles tudo é novidade, pra mim também...

Eu passei mais de 75% da minha vida docente lecionando para o Ensino Médio. Sabia de cor e salteado [será que alguém ainda usa essa expressão?!] todo o conteúdo, todas as manhas, as birras, as sem-vergonhices dos meus monstros adolescentes.

Dar aula para o Ensino Médio é quase como fazer um show ou uma peça por dia. Haja criatividade e desempenho pra fazer aqueles diabinhos se interessarem um cadinho que seja por Subordinadas, Sintaxe, Camões, Sermões, Parnasianismo e os milhares de "ismos" literários...

Com eles, a parada é meio que "pé na porta e soco na cara", porque a galera do Ensino Médio não gosta de professor fofinho, bonzinho e bobinho. Eles gostam é de ser ameaçados [no bom sentido, é claro!]. Gostam de professores carne de pescoço, que os desafiam e que os fazem ficar quietos só com a nossa presença.

Eu me considerava tranquila e confortável na arte de lecionar, até que há dois anos eu enfrentei minhas primeiras turmas de Ensino Fundamental II. No primeiro ano eu quase enlouqueci, mas assim, enlouquecer dicumforça! Não conseguia corresponder às expectativas da escola [uma instituição seríssima de ensino daqui da cidade], não conseguia criar vínculo com os alunos - afinal, professores de Ensino Médio não criam vínculos! -, não conseguia viver feliz em sala... Quase que eu abandono minha profissão pela segunda vez.
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Mas daí que eu tive a minha versão de fada madrinha, a senhora dona coordenadora, que me ajudou a enfrentar essa fase, que me deu força e compartilhou um cadinho de sua sabedoria comigo. Foi quando eu descobri que as diferenças entre Fundamental II e Médio são abismais!

No Fundamental II eles precisam de alguém que lhes diga o quê, quando e como fazer alguma coisa; mas tudo tem que ser dito da forma mais carinhosa e disciplinadora possível. Dá pra entender? Pois é, se é difícil entender, imagina fazer?!

No começo, eu não sabia direito como conviver com eles, afinal, não tinha sido "treinada" pra ser amorosa com as crianças. Eu ainda tinha a mentalidade de que o professor tinha que manter distância, pois, do contrário, a sala viraria uma bagunça.

Mas hoje, até o conceito de bagunça eu revi. Eu descobri que, muitas vezes, o que nós consideramos bagunça, é apenas o jeito cheio de energia que eles tem de se expressar. Confesso que há dias em que eu precisaria enfiar o dedo numa tomada 220 pra conseguir acompanhar os pestinhas, mas, ao menos, aprendi que seus abraços e beijos são naturais.

O 6° ano ainda está me ensinando muita coisa, como, por exemplo, que cinco anos no Ensino Fundamental I não são o suficiente pra eles aprenderem o que é parágrafo, letra maiúscula e todas essas outras coisas que nós usamos sem nem nos darmos conta. Eles precisam que seja dito quando se tem que "pular linha" no caderno, e quantas linhas são necessárias. Eles precisam que a gente "dê um visto" na agenda, pra não esquecerem de fazer a tarefa. Eles precisam não só de disciplina, mas de carinho também.

Não vou dizer que é fácil, mas é recompensador ver os pestinhas se desenvolvendo... E é por eles e para eles que passo tanto tempo debruçada em livros e sites, tentando criar aulas melhores, e ser uma professora melhor...

Frequentemente, eu escuto que eu estou desperdiçando meu talento no Ensino Fundamental. Inclusive, escutei isso numa entrevista que fiz recentemente, pra uma das escolas mais conceituadas da cidade, na qual, se quisesse, teria pego turmas de Ensino Médio com um salário astronômico.

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Mas já havia começado o bimestre, e, pra ganhar o salário "das estrelas" eu teria que sair da escola em que estou, e deixar a coordenadora e meus monstrinhos na mão. Confesso que fiquei tentada, afinal, trabalharia menos da metade pra ganhar o mesmo salário. Estaria no "meu ambiente" de Ensino Médio. Faria parte do time dos professores reconhecidos.

Só que não consegui. Não consegui pensar em despontar uma instituição que aposta em mim há dois anos. Não consegui não pensar na carinha de tristeza das fofuras do 6° ano ao saberem que a professora os abandonaria. Não consegui carregar essa culpa comigo.

Fico muito triste quando ouço por aí que professor de Ensino Fundamental não tem valor... Afinal, todos nós que estamos nesse barco, somos a base da educação dessas crianças. Temos um trabalho do cão pra ensiná-las não apenas Classes de Palavras e Funções de 1° grau, mas também como se comportar, como escrever corretamente no caderno, como falar com educação com o colega.

Eu espero ser valorizada como profissional [embora isso ande bastante difícil...], independentemente da série em que eu esteja lecionando. Além disso, esses dois anos no Ensino Fundamental me ensinaram tanto ou mais do que meus 10 anos no Ensino Médio.

E dá pra ver que, quando o assunto é minha profissão, eu esqueço da vida, né?

O que era pra ser um post falando sobre a volta às aulas, virou uma falação sem fim sobre tantas outras coisas...

De qualquer forma, tentarei conciliar meu lado workaholic com as funções do blog e do canal no Youtube. Aleluia que os feriados estão aí, lépidos e faceiros!

Quero aproveitar, e desejar um feliz retorno às aulas tanto pros colegas professores que me leem [Ju, beijo especial procê!], quanto praqueles que ainda são alunos.

Que seja um ano especial, cheio de aprendizado pra todos nós!

Um beijo procês!

Ps: Ao clicar na palavra "fonte", abaixo das figuras, você é redirecionado para as páginas das quais retirei as imagens.

7 comentários:

  1. tão linda a maneira como vc descreve o magistério!
    =)

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  2. Oi,
    Parabéns, por que é muito difícil um professor falar dessa maneira de seu trabalho e de seus alunos.
    Gostaria muito ter tido professores como você no ensino fundamental, mas a grande maioria só reclamava do salário e de o quanto era terrível ter de suportar as crianças.
    Força e Paciência! rsrsrs
    Gosto muito do seu blog, mas nunca tinha comentado rsrs
    Bjos
    Itajara Rodrigues
    Cuiabá - MT

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  3. Como aluna, digo... se interessar por Camões é incrivelmente fácil, o problema é se interessar por subordinadas! Ah, precisa de muita criatividade do professor mesmo! :x

    Não sei se é porque estudo a muitos anos na mesma escola, mas mesmo no 3º ano do ensino médio, tenho uma proximidade muito grande com os professores (a maioria deles)... alguns deles até se tornaram meus amigos ao longo do tempo... mas é fato que no Ensino Médio nós não queremos mais professores tão carinhosos e protetores...é claro que eles também não precisam passar a comprar ferraduras... contanto que não deem vistos (não que nós não façamos os exercícios; nós fazemos, em geral; mas não gostamos do professor vigiando se fizemos ou não, e como fizemos) e nos obriguem a copiar tudo do jeito deles, a relação já tem futuro! :D

    Sinceramente, acho o trabalho do professor no ensino fundamental muito mais importante do que o do ensino médio, porque é o professor do ensino fundamental que forma o bom aluno... são poucas as pessoas que deixam de ser maus alunos no ensino médio ou na reta final do fundamental; e tem também que se você não tem a base do fundamental muito bem construída, vai acabar tendo mais dificuldade com as matérias do ensino médio! Falo ambas as coisas por experiência própria! E tem também que o aluno do ensino médio acaba se virando se o professor não dá a matéria (ou não consegue se fazer entender); a gente corre atrás de livros, grupo de estudos, e acaba aprendendo sozinho... mas no ensino fundamental, a gente não tem maturidade pra isso ainda, tem que ter alguém pra nos guiar sabe!? E não é qualquer um que consegue fazer isso bem feito!

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  4. Conheci seu blog hoje e adorei!

    Resolvi dar um alô virtual, pois me identifiquei também. é gostoso achar coisa boa nessa rede imensa.

    Queria convida-la pra tomar um chá de letras no meu blog:

    semimundo.blogspot.com

    Em tempo: conheço a bela (e quente rsrs) Campo Grande, no Mato Grosso do SUL, não passei muito tempo lá, e era nova, mas tenho uma doce memória dela: a cidade onde, pela primeira vez, provei um pastel de brigadeiro!

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  5. Adorei o relato leciono pras turmas de sexto tem uns 7 anos. Também trabalho com o fundamental II e é super diferente.
    No sexto ano eles são uma delícia e um desafio e, é muito legal ver o seu relato pois é assim mesmo.O sexto ano precisa de atenção extra, precisa de ordem e carinho ao mesmo tempo.Precisam de limite e de abraço, bronca e sorriso, brincadeira e cara séria tudo junto todo o dia. Boa sorte e se quiser trocar figurinhas é só falar

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  6. =* sigo te amando e tropeço de ternura por ti

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  7. Sexto Ano?!? 35 ou 40 "não sei se sou criança ou se sou adolescente" falando todos ao mesmo tempo e querendo atenção, atenção, atenção? Taqueospareel! Me causa arrepios só de pensar, hehehehe!

    Mas, se você gostou da experiência galvanizante e, o que pior (?), criou amor pelos pestinhas... Vá em frente e seja feliz!!

    Pelo menos a molecadinha de Sexto Ano ainda consegue ser carinhosa e respeitosa ao jeito dela, em vez da marmanjada de Ensino Médio que anda por aí, olhando para nós como se fôssemos lixo...

    Um ótimo retorno às aulas para você, moça!! o/

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