segunda-feira, 26 de março de 2012

Abolição e Liberdade - Machado de Assis

Fonte: Folha de São Paulo
Essa crônica é ótima pra estapear com luva de pelica aqueles que dizem que Machado nunca se importou com os problemas de seu país. O que de fato ocorreu foi que os leitores de sua época [e de tantas outras épocas, na verdade] não tinham a capacidade de abstrair de sua galhofa as críticas sociais.

Durante o Modernismo, Machado foi severamente criticado por não ter tomado partido nas discussões sobre o Abolicionismo. A verdade é que Joaquim não queria fazer parte de cotas sociais, não queria ser lido e reconhecido pela cor de sua pele, não queria que tivessem pena de suas doenças.

Penso que não é preciso gritar aos quatro ventos nossas opiniões; principalmente quando isso é feito apenas pra chamar a atenção. Especialmente quando nem se acredita naquilo que se grita.

Ter opinião crítica não é fazer balbúrdia. Ter opinião é saber colocar-se no mundo, coisa que Machado fez mais e melhor que muito representante do Pau Brasil...

Abolição e Liberdade

Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

 No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. 

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz  outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. 

Caí na cadeira e não vi mais nada. De  noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: 

- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... 

- Oh! meu senhô! fico.  - ...Um ordenado pequeno, mas que há de  crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

- Artura não qué dizê nada, não, senhô... 

- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.  

- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete. 

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.  

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio;  daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. 

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dêle teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples  suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.  (19/maio/1888)

Referência: ASSIS, Machado. Fuga do Hospício. São Paulo: Ática, 2003 p. 23-25

Que tenhamos todos uma excelente semana!
Beijo procês!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...