segunda-feira, 12 de março de 2012

De pai para filho - Domingos Pellegrini

Fonte
Eis que Março chegou e eu ainda não havia feito um post sequer... Nesse 2012 a vida anda me cobrando muito, e por vezes demais acabo por perder a esperança.

E é por isso que hoje trago esse texto de Domingos Pellegrini, que fala exatamente desse sentimento que não podemos perder, pois se não o tivermos, a vida fica dura e pesada além da conta pra nossos ombros suportarem.

Espero que, mesmo nos sentindo como o "amigo" do texto, ainda tenhamos a capacidade de sermos como o pai...

Tenham todos uma excelente semana!

De pai para filho

- Pai, por que a gente existe?
- Pra melhorar. Aliás, perguntaram ao Dalai Lama qual a melhor religião, ele respondeu que a melhor religião é toda aquela que te melhora.
- Isso porque você é otimista, né, pai. Mas um amigo meu, que é pessimista, diz que toda religião é enganação e que a existência não tem finalidade nem sentido.
- Então não é teu amigo.
- Ele diz que a gente não melhora, não, pai, tanto que, por exemplo, sempre existiu e sempre vai existir guerra...
- ... enquanto existir gente que pensa como teu amigo. Mas Nelson Mandela foi preso porque pregava a luta armada e até o terrorismo contra o racismo, e saiu da prisão, quase trinta anos depois, falando em perdão e convivência, e com isso acabou com a guerra civil na África do Sul.
- Meu amigo também diz que sempre vai haver corrupção, e que o ser humano é corrupto por natureza.
- Também é o único ser, nesse planeta, que cuida dos feridos, e também o único que faz arte, cultiva a beleza e pratica a solidariedade.
- Mas meu amigo diz que essa história de responsabilidade social das empresas, por exemplo, é só disfarce pra ganhar simpatia do público e continuar tendo o máximo lucro possível.
- Só que as empresas solidárias sobrevivem, e as outras, mesmo com muito lucro, morrem. Solidariedade não é tática, filho, é espírito, e o espírito sempre vence. Na Segunda Guerra, os nazistas conquistaram vários países, até a França, e aí, entre eles, e a Inglaterra, havia apenas o Canal da Mancha e a aviação da Inglaterra, com muito menos aviões e armas. Mas os pilotos ingleses foram para o céu com o espírito de luta e sacrifício, não com espírito de conquista como os nazistas, e muitos morreram mas causaram tanto estrago que Hitler adiou a invasão para sempre.
- E no fim a vitória foi das democracias, mas meu amigo diz que a democracia é só disfarce para a ditadura do capital, os ricos mandando no  Governo e na Justiça.
- Não enquanto houver gente que acredita na justiça e luta por ela. Aqui no Brasil um advogado católico, Sobral Pinto, defendeu o líder comunista Luiz Carlos Prestes, usando para isso os direitos dos animais, pois até isso negavam ao prisioneiro, e ele acabou solto. E agora mesmo tem gente lutando no Brasil para melhorar a Justiça, para ser menos lenta e para promotores continuarem a investigar a corrupção.
- Mas meu amigo diz que não adianta lutar porque os corruptos ganham sempre.
- Já eu vejo que perdem sempre. Começam perdendo respeito, depois perdem o sono, perdem a saúde, perdem o poder, tudo porque começaram perdendo a alma. Corrupção é, antes de tudo, carência de inteligência.
- Mas meu amigo diz que não tem jeito porque cai um corrupto, cresce outro que estava na sombra daquele.
- Os homens honestos, ao contrário, não se reproduzem nas sombras, mas na claridade, através dos bons exemplos. Você não vê que o povo mais pobre é quem mais paga as contas em dia?
- Não será por bobeira, pai?
- É por crença, filho. Acreditam em ser bons, fazer o certo e viver bem consigo e com os outros. Mas você não tinha hora no dentista? Então vai pensando que, na Idade Média, gente enlouquecia de dor de dente, e mesmo os ricos não podiam pagar um dentista porque nem existia dentista. Hoje, temos serviço odontológico de graça pela saúde pública. Alguma coisa melhorou, não?
- Pai, você devia dar aulas no meu colégio.
- Aula do quê?
- De esperança.

Referência: PINTO, Manuel da Costa (Organização e Apresentação). Crônica Brasileira Contemporânea. São Paulo: Moderna, 2005 p. 214-216.

Beijo procês!

4 comentários:

  1. Muito bom ler esta crônica antes de pegar o trem na volta pra casa. Pois a cena que presencio nos transportes públicos e o comportamento dos humano neles é de perder todas as espernças na raça humana.
    Bjs, Patty

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  2. Patrícia, querida, parece que você tem o dom de postar alguma coisa exatamente quando eu preciso dela! :x
    Quindins virtuais procê *-*

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  3. Parabéns pelo blog! Espero também sua visita e de seus leitores a meu blog. Deixem seus comentários e suas opiniões, elas são importantes para mim. Abraços; Monique Freitas
    http://falandodeinspiracaoeaspiracao.blogspot.com/

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  4. Parabéns pelo blog eu já estou seguindo , começei agora se puder me dá uma força lá . desde já agradeço . bjus
    http://ka-star-kaah.blogspot.com.br/

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