segunda-feira, 7 de maio de 2012

Falhas - Martha Medeiros

Imagem daqui
Eu falho, tu falhas, ele falha. Nós somos humanos... E essa é a graça de poder mudar sempre, pra melhorar sempre.

Falha

Uma das coisas que fascinam na cidade de San Francisco é ela estar localizada sobre a falha de San Andreas, que é um desnível no terreno que provoca pequenos abalos sísmicos de vez em quando e grandes terremotos de tempos em tempos. Você está muy faceiro caminhando pela cidade, apreciando a arquitetura vitoriana, a baía, a Golden Gate, e de uma hora pra outra, pode perder o chão, ver tudo sair do lugar, ficar tontinho, tontinho. É pouco provável que vá acontecer justo quando você estiver lá, mas existe a possibilidade, e isso amedronta mas ao mesmo tempo excita, vai dizer que não?

Assim são também as pessoas interessantes: têm falhas. Pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade linda, limpa, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona e você quase morre de tédio.

Pessoas, como cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. É fundamental que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize.

Pessoas, como cidades, precisam ser limpas, mas não a ponto de não possuírem máculas. É preciso suar na hra do cansaço, é preciso ter cheiro próprio, uma camiseta velha pra dormir, um jeans quase transparente de tanto que foi usado, um batom que escapou dos lábios depois de um beijo, um rímel que borrou um pouquinho quando você chorou.

Pessoas, como cidades, têm que funcionar, mas não podem ser previsíveis. De vez em quando, sem abusar muito da licença, devem ser insensatas, ligeiramente passionais, demonstrar  um certo desatino, ir contra alguns prognósticos, cometer erros de julgamento e pedir desculpas depois, pedir desculpas sempre, pra poder ter crédito e errar outra vez.

Pessoas, como cidades, devem dar vontade de visitar, devem satisfazer nossa necessidade de viver momentos sublimes, devem ser calorosas, generosas e abrir suas portas, devem nos querer fazer voltar, porém não devem nos deixar 100% seguros, nunca. Uma pequena dose de apreensão e cuidado devem provocar, nunca devem deixar os outros esquecerem que pessoas, assim como cidades, têm rachaduras internas, portanto, podem surpreender.

Falhas. Agradeça as suas, que é o que humaniza você, e nos fascina.

Ficha técnica: MEDEIROS, Martha. Montanha Russa. Porto Alegre: L&PM, 2009 p. 58-59.

Beijo procês!
Tenham todos uma excelente semana!

4 comentários:

  1. Nossa, adorei! esse texto vou até copiar aki pra ler uma vez ou outra, de tão bonito que é!

    bjuss

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  2. Oi Patricia, lindo o texto! Me fez lembrar do livro que acabei de ler: O Doador. É uma distopia, no início quase cópia de Admirável Mundo Novo, mas que depois descamba para um texto com reflexões bem bacanas, em especial, o direito e a importância de termos nossas imperfeições. São elas que dão as cores e graça da vida.

    Bj,

    Nayara.
    www.dignidadenaocabeaqui.blogspot.com.br

    ResponderExcluir

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