terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Antes de Partir [Ou sobre quando a morte leva um pedaço de nós]

Nos dois últimos meses eu chorei. Chorei litros. Chorei rios. E sim, adoro hipérboles.

Passei por inferno astral, aniversário infernal - afinal, não me venha com essa balela de dizer que chegar aos 30 é coisa fácil, porque não é! -, morte da vovó, acidente da mãe, trabalho, filme, livro, propaganda, música...

Ah! Pontequepartiu!!! Chorei até não aguentar mais chorar. Chorei até doer de tanto chorar. E, bem, eu tenho que manter a fama de coração de gengibre, por isso decidi parar com essa viadagem!

Fonte: Adoro Cinema
Sexta-feira eu assisti ao filme "Antes de Partir" [clica pra ir ver as infos do filme no Adoro Cinema], lançado em 2008, com Jack Nicholson [um dos melhores atores do Universo!] e Morgan Freeman [O cara é tão elegante, que até usando roupa de mecânico cheio de graxa ele ainda mantém o porte].

Eu não lembro de ter assistido a esse filme, de modo que essa deve ter sido a primeira vez. E já me bastou pra entender que não adianta mesmo ficar chorando.

Chorar pra desopilar o fígado? Tudo bem, afinal, infelizmente não dá pra sair espancando as pessoas por aí. Agora, chorar e se esconder debaixo das cobertas com medo da vida? Larga mão, companheiro! A vida é uma só, já cantava docemente o Poetinha...

O filme conta a história de Carter Chambers (Morgan Freeman), um homem inteligentíssimo, humilde, com um casamento estável e uma família linda. Ele trabalha como mecânico porque, sacomé, precisa sustentar a família. Um dia ele descobre que tem câncer e vai parar no hospital. Seu companheiro de quarto é nada menos que Edward Cole (Jack Nicholson), um bilionário arrogante que não suporta a si próprio. E embora tenha muito dinheiro, Edward também tem câncer, afinal, as doenças não escolhem suas vítimas pela conta bancária.

Uma das ideias mais legais do filme é a tal da "Lista de Bota", que é uma listinha [quem ama lista, levanta a mão!] de coisas que a pessoa quer fazer antes de morrer. Bom, ambos estão em estágio de câncer terminal, e se juntam pra ir fazer as coisas que gostariam antes que a luz da vida se apagasse de seus olhos.

O filme é lindo. Engraçado. Comovente. Não poderia ser diferente, por se tratar de vida e morte. Não poderia ser ruim, tendo Nicholson e Freeman.

Daí vem a minha relação com o filme...


Lá em cima eu disse que vovó morreu. Pois bem, ela morreu de câncer. Câncer no pulmão. Doença que a transformou em alguém que eu não consegui reconhecer. No seu último dia de vida, nós fomos ao hospital, e ela estava na UTI. Ficamos vendo da "janelinha", e aquela mulher que estava deitada naquela cama não era minha avó. Não, não era.

Minha avó era uma italiana brava que nem o diabo, que saracoteava por todos os cantos, e não tinha aquelas pernas imóveis. Minha avó tinha os olhos azuis mais brilhantes desse mundo, e não aqueles apagados. Minha avó tinha uma risada gostosa, e não aquela mudez. Minha avó tinha lindos cabelos brancos, e não aquela cabeça raspada. Ela estava tão irreconhecível na cama do hospital, que, quando fizemos o velório, ela, deitada quietinha e em paz no caixão, se parecia muito mais consigo mesma...

Minha avó continua viva comigo. Em mim.

Semana passada minha mãe sofreu um acidente de carro. Ela e minha irmã. Elas estavam indo numa rua preferencial, quando uma menina veio a mais de 80 por hora, numa rua de bairro, furou a placa de pare, e bateu no carro da minha mãe. Segundo ela, por pouco, muito muito pouco, o carro não capotou. Ambas estão bem, com roxos e doloridos, mas bem. A dona moça lá não teve nem arranhão.

Eu fiquei desesperada! E dá-lhe chorar! Chora menina, chora...

Nesse mês, tive que aprender a lidar com a perda e com a sensação de que somos finitos, mas tão finitos, que a qualquer minuto podemos não estar mais aqui.

E é por isso que "Antes de Partir" faz tanto sentido. Porque a gente vai morrer mesmo, disso não há dúvida, mas não precisa viver a vida como se estivesse morto.

Um cara que me ensinou a enxergar a morte de um modo mais "suave" foi o Sêneca. Li todos os seus livros publicados em Português um atrás do outro. E Sêneca me abraçou e disse "Pare de chorar, menina! Viva, viva muito, viva tudo! Porque antes uma vida curta e plena, que uma existência longa e dolorosa". [Claro que ele não falou isso com essas palavras, né!]

Eu sei que, assim como eu, a maioria de vocês também não viu o ano passar. E sabe por quê? Porque andamos preocupados demais em ganhar a vida, e nos esquecemos de que a vida está em nós e não nas coisas.

A gente se preocupa tanto em ganhar dinheiro, pra depois gastar dinheiro, que se esquece de que essa maldição não é o mais importante!
E eu não estou dizendo que você faz isso, eu faço isso. Eu passo meus dias enterrada em trabalho, pra no começo do mês pagar as contas e contar as moedas pra ver se dá pra comprar algum livro ou tomar um sorvete.

Se tem uma coisa que decidi, bem decididinha, nesses últimos dias é que não quero mais viver aprisionada. Não quero mais viver aqui, dentro do quarto, sonhando com um dia deitada na rede. Vou mudar. Preciso mudar.

Não vou dizer que é fácil, porque a todo momento tenho vontade de voltar pras cobertas. Mas não deve ser impossível, não pode ser impossível!

Quanto a você, assista [se ainda não assistiu] "Antes de Partir". E me diga aqui como você faz pra driblar essa vida louca vida que te aprisiona.

Beijo procês!

6 comentários:

  1. Ainda não assiste, mas vou atrás e volto aqui pra te contar como fiquei...
    Em relação a perda sua avó, eu sinto muito. Sei o quanto é triste perder uma vó, até hoje não me recuperei, porém, a vida continua...por enquanto.
    Porque daqui a pouco passa, e nós olhamos para trás tentando lembra-se pelo menos de um minutinho. Estamos realmente atolados no trabalho para tentar sobreviver, pagar contas e mais contas( que não acabam nunca), pra quem sabe, como você mesmo disse, no fim ver se sobra pelo menos uns trocados para comprar um livro. Tenho passado muito por isso.

    Força Patricia, que nós é que mudamos o mundo e não ele a gente.
    bjos.M

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  2. Antes de Partir é genial. O filme, bem como esses perrengues que a gente passa na vida, fazem a gente se chacoalhar. Ainda bem. Ano passado acho que tive um ano assim, igual o seu. Meio punk, meio que engolindo a gente. Tentei esse ano respirar um pouco, mas não rolou. Continuo igual aquele carinha lá da gaiola, sabe? Mas bora mudar, bora mesmo.

    Adorei o texto. Tua narrativa é gostosa demais de ler! Parabéns!

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  3. Oi, Paty!!
    Bom, confesso que cairam algumas lágrimas. E também digo que a vida passa e a gente não sente por preocupações pequenas.
    Muitas vezes a cama parece o céu, mas sair de casa, respirar fundo, ver gente, ver o verde deixa a viva mais "viva". Tenho me obrigado a fazer isso. Ee digo que ajuda a cada dia!!!
    Obrigada por dividir sua história e "guenta" firme, hein... riso*
    Assisti esse filme e é muito bom mesmo.


    Força Sempre!
    Beijinhos**

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  4. Patty, que lindo texto. Também me comovi litros com esse filme. Tão intenso e alegre, triste e encantador. Amei! E é um tapa na cara de quem fica deixando as coisas pra depois poque "agora" não tem tempo. O tempo não espera, não é? O tempo não nos dá tempo pra pensar...
    Sinto muito pela sua vó. Apesar de sabermos da certeza da partida nunca estamos de fato preparados para lidar com isso. Dizem que com o tempo passa, mas acredito que o tempo, esse danadinho, nos ensina mesmo a lidar com as coisas que acontecem.
    Como driblar com essa vida louca? Eu danço! hahahahaha. Se realmente funciona eu não sei, mas até agora está sendo ótimo! Entenda "dançar" como qualquer-coisa-que-você-possa-fazer-por-você-mesma-e-mesmo-assim-ter-pelo-menos-uma-pessoa-para-apreciar. Tal qual a centopeia, se eu parar pra pensar exatamente como eu começo, vou ficar perdidinha, então eu só danço... Feliz e saltitante!

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  5. Patrícia, vc já se deu conta de quanto é bonita e inteligente? O mundo é seu mulher! ;) não deixe é de fazer vídeos ! Bjs. Este post está maravilhoso.

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  6. Bom, minha ideia pra resolver isso é só fazer coisas que eu realmente queira, coisas que me possibilitem me tornar uma pessoa melhor. E te digo que isso é a coisa mais difícil de fazer na vida, mas também a melhor.
    Beijos e te vejo no seu velório.

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