sábado, 26 de janeiro de 2013

Fim.

Fonte da imagem
E mais uma vez tinha chegado ao fim. Não conseguia lembrar do começo, apesar de ter sido há tão pouco tempo. Fechava os olhos pra ajudar as lembranças, mas elas se escondiam como crianças brincando num parque de matas fechadas.

Lembrava sim das lágrimas dele. Grossas. Masculinas. Doloridas.

Alguma coisa naquelas lágrimas lhe dizia que, talvez, ela estivesse fazendo a coisa errada. Mas como voltar atrás? Como dizer "Não, péra, acho que me enganei!". Nessas horas não dá pra soltar um "Bazinga!", e fazer as coisas voltarem a ser como eram antes.

Além do que, ela sabia que estava fazendo a coisa certa. Ela sentia, como tinha sentido das outras vezes. Como já tinha feito tantas e tantas vezes.

Mais um relacionamento que escoa pelo ralo, junto com as esperanças de ter uma resposta nova pras tias nos almoços de Domingo. Sim, sim, eu estou namorando. Sim, pensamos em nos casar. Filhos? Provavelmente mais tarde, depois de um tempo.

Mas não, ela teria que continuar dando aquele velho e conhecido sorriso amarelo, e bebendo a cerveja o mais rápido possível pra fingir estar com a boca ocupada e não ter que responder a mesma pergunta, encarar os mesmos olhos de desprezo da tradição...

Ele estava com as mãos na cabeça, olhos pregados no chão, e de sua boca ecoavam as mesmas palavras. Por quê? Por quê? Por quê?

Ela não sabia responder. Só sabia que havia acabado. Tinha chegado ao fim, e era tudo o que ela podia dizer.

Olhava praquelas mãos, às quais as suas costumavam se juntar. Eram macias e fortes. Eram carinhosas. Eram as mãos que lhe levavam pelos caminhos mais doces.

Mas o que era doce se acabou. E os anéis foram quebrados. E, mais uma vez, ela encarava um futuro sozinha.

Já havia se acostumado, na verdade, embora dessa vez tivesse um 'cadinho de esperança. Mas assim como as folhas no Outono, a esperança também cai, para dar lugar a uma nova, depois que o Inverno passar...

O problema eram os olhos deles. Olhos vermelhos. De raiva. De tristeza. De tanto derramar aquele sentimento todo pra fora, pra modo de não sufocar. Eram aqueles olhos que a encaravam naquele momento, e a faziam se sentir a pior das criaturas.

Então se lembrou do diálogo da noite anterior. Dos gritos. Das acusações...

- Não é possível que seu amor possa ter acabado dessa forma!

- Ah acaba, meu bem! O café acaba, o dinheiro acaba, a minha paciência acaba e o amor também, oras! O que diabos você queria, hein?! Que eu dissesse “Ai meu bem, eu gosto de outro homem”, ou então, “Eu descobri que minha verdadeira vocação é ser freira”, ou pior ainda, “o problema sou eu, não você!”. Isso faria você aceitar? Isso faria você entender? Que saco! É uma verdade simples: eunãoteamo! Ponto. Ou você quer que eu acrescente o “mais” à frase, pra você se consolar lembrando que um dia eu te amei?! Se quiser, os opcionais são escolha do cliente senhor. Acompanha fritas?

- Você matou nosso amor! Você não o alimentou! E eu sempre fiz de tudo pra ele crescer!

- Ah pronto! E desde quando amor é planta, ou bicho, que tem que dar água e comida, criatura?! Eu disse que o amor era meu, e acabou. E posso afirmar que não morreu de fome! Oooou, se você quiser dar um final mais dramático, como você sempre faz, eu vesti o meu amor com um smoking preto, flor vermelha na lapela, botei um tango do Gardel pra tocar, e dei um tiro de 12 na cabeça dele. Pronto! Meu amor morreu de um tiro no meio da testa! Melhorou pra você?! Assim fica mais fácil de entender?

- Eu não suporto você e essas suas analogias irônicas sempre!!! Principalmente quando a gente 'tá falando de assunto sério!

- Mas um smoking não é sério pra você?!

- Já chega! Vá pro inferno! Eu vou sair e volto quando você for capaz de escutar alguma coisa além da sua loucura!


Ainda podia sentir a vibração dos gritos. Ainda podia sentir a dor no peito que veio depois. Como podia ser tão má com uma pessoa que a ama tanto? Que ela havia amado tanto...

Não! Não! Não! Ela não iria deixar as lágrimas dele a fazerem desistir. Não iria voltar atrás só porque era mais fácil. Não iria se render ao medo. Tinha acabado. Tinha chegado ao fim.

Fim.

9 comentários:

  1. Estou participando de um meme literário e indiquei seu blog para participar também.

    http://escolhiler.blogspot.com.br/2013/01/escolhi-especial-campanha-de-incentivo.html

    ResponderExcluir
  2. Adorei! Você escreve muito bem, Patrícia!
    www.analogicbea.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Tem que se ter coragem para decretar um fim. Estamos sempre adiando os fins porque os novos começos dão tanto medo... Mas por experiência própria, às vezes dão certo!
    Lindo texto!
    Beijo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você tem razão, Tati...
      O começo dá medo mesmo. ;)
      'Brigada!
      Beijo procê!

      Excluir

Entre e fique à vontade!
'Bora prosear, porque esse blog também é seu.
Obrigada por sua visita, e por sua opinião.
Seu comentário será respondido aqui, nesse espacinho, assim que possível.
Um beijo procê!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...