sábado, 19 de janeiro de 2013

O moço da pastinha

Fonte: Caminho Poético
Ao sentir o vento entrando pela janela, olhei pro céu. Bem na hora em que dona Iansã começava sua traquinagem... Então fui sentar na varanda...

Eu gosto de varandas... Nosso portão com grades me deixa ver o mundo que existe lá fora, alheio a mim, seguindo seu próprio caminho.

E era nessa varanda em que eu estava tomando café, observando a chuva que em segundos cobriu a cidade, quando ele passou em frente de casa...
Era um moço alto, camisa pólo, calça jeans escura, sapatos sociais daqueles que fazem com que seu último desejo de vida seja um par de Havaianas, e que explicam tão bem a teoria sobre as botas de Brás Cubas.

Descombinando com tudo isso, lá estava, na mão esquerda, uma pastinha. Daquelas de papelão com elástico, sabe? Era preta, tal qual seus cabelos.

Se era o bonito o moço? [Mas 'cês 'tão assanhadinhos, hein!] Não, o moço não era bonito, o moço era triste. Talvez, ao lado de sua mulher, no dia em que se apaixonaram, ele fosse bonito. Mas ali, na rua, roupa encharcada, sapato apertado, passo pesado, o moço era triste. Porque a tristeza de Vinícius é bonita, mas a do moço não. A tristeza do moço era feia.

E eu sinto muito lhe desapontar, leitor que já estava com corações nos olhos, imaginando beijos, mas essa não é uma história de amor. Então, salve-se enquanto ainda há tempo...

O que mais me chamou atenção no moço foi a pastinha. Eu conheço aquela pastinha. Sei bem o que aquele olhar triste carrega.

Fiquei imaginando o moço voltando de mais uma entrevista de emprego que não deu certo. Mais uma decepção. Salário desemprego acabando. Família pra sustentar. Sapato apertado. E além de tudo isso, ainda aquela chuva fina, gelada, caindo como agulha na pele e na alma.

Fiquei com pena do moço. Deu vontade de chegar perto dele e dizer: "Fica assim não, companheiro! Deixa a chuva lavar sua tristeza. Chegue em casa, descalce os sapatos apertados e sinta o chão gelado. Tome um banho. Sinta como é gostosa a água morna depois da chuva fria. Beije sua mulher. Procure nos olhos dela aquele amor da primeira vez. Afague o cabelo de seu filho. E espere mais um dia. Amanhã vai ser outro dia. Vista outra roupa. Se puder, calce outro sapato e vá enfrentar o mundo de novo. Mas veja se vai de manhã, viu, que em Janeiro as chuvas gostam de ser vespertinas. Boa sorte procê!".

Eu queria ter dito tudo isso, mas antes que eu pudesse levantar, ele foi embora rua abaixo, passos pesados, alma pesada.

Queria tê-lo chamado pra entrar, se esconder da chuva, mas sabe como são esses dias hoje. Como é que vamos confiar nas pessoas?

Além do que, cada um de nós precisa ter seus dias de tempestade. Aqueles dias em que a chuva nos faz companhia pra alma que chora.

Eu sei... Eu sei... Como é mesmo que vou saber tudo isso, se nem conheço o moço? O moço de verdade eu não conheço, mas conheço aquele que vi, por uns 30 segundos, e que veio morar nesse texto. O meu moço da pastinha vai se dar bem um dia, e espero que o moço real também.

Afinal, isso é tudo ficção [menos a parte de eu gostar de varandas. Eu realmente gosto de varandas.]. Nossas impressões são invenções nossas. Eu sou uma invenção sua e você é uma invenção minha. Só a tristeza que não...

2 comentários:

  1. Eu também sou assim, faço altas análises sobre as pessoas que passam... as melhores histórias surgem assim, uma mistura do real com o imaginário. Seu texto tem poesia. Uma prosa poética gostosa de ler. :)

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    Respostas
    1. E não é, Joyce? Parece que o fato de não as conhecermos faz com que criemos um tantão de histórias na nossa cachola. =)
      Muito obrigada! ;)

      Excluir

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