sábado, 2 de fevereiro de 2013

No ponto de ônibus.

Fonte da imagem: Harry Potter Wiki
Era um dia como outro qualquer... Ou seria um dia diferente de todos os outros? Ela não saberia dizer, pois ainda estava com tanto sono que se lhe perguntassem o nome, era capaz de pedir um minuto pra olhar na identidade.

Odiava acordar cedo desde sempre. Odiava pegar ônibus desde sempre. Mas ali estava ela. Tinha acordado às 5:45 e estava há 15 minutos esperando por um ônibus, porque a vida nunca pergunta o que odiamos antes de nos enviar suas traquinagens.

Estava com o fone de ouvido, e escutava Metal no volume máximo pra, quem sabe, conseguir acordar antes de chegar ao trabalho. Não lembrava como havia chegado ao ponto de ônibus. Nunca lembrava. Desconfiava que seu corpo tinha um GPS próprio, que a levava para os lugares sem que precisasse pensar.

Ao seu lado estava uma senhorinha, dessas que o tempo não pediu licença pra fazer seu trabalho. Cabelos branquinhos, costas curvadas de tanto trabalho, olhos claros, tão claros quanto aquele céu que estava sobre suas cabeças.

A senhorinha estava carregando uma sacola, dessas de supermercado. E então fez o que os estranhos adoram fazer quando você está com fone de ouvido: falou com ela. Primeiro ela sorriu, como se dissesse "Por favor! Por favor! Não quero conversar! Ainda são 6 da manhã e eu estou com sono!", mas a senhorinha continuou falando, e então ela teve que interromper Bruce Dickinson gritando no seu ouvido para dar atenção àquela mulher que nunca vira na vida. Porque gentilezas feitas para estranhos adicionam pontos no seu cartão de milhas da consciência.

Era sempre assim. Todos os dias alguém decidia que o maldito fone de ouvido era um motivo para conversar. Ou será que ela tinha cara de quem adora conversar com estranhos às 6 da manhã? Ou às 6 da tarde? Todos os dias alguém resolvia que ela seria a portadora de uma nova história...

Uma vez, quase perdeu o ônibus porque ficou entretida na história da senhorinha que estava indo fazer hidroginástica.

Olha, minha filha, eu estou velha, mas não sou velha! Faço exercício todos os dias, vou lá, encontrar meus colegas, a gente se diverte, dá risada, conversa. Eu é que não quero ficar em casa definhando e esperando a morte chegar! Credo em cruz!

Num outro dia, também era uma velhinha, e ela deixou o ponto de ônibus com lágrimas nos olhos...

Estou indo visitar minha filha no hospital. Ela 'tá com câncer, sabe. A gente não sabe mais quanto tempo ela tem... É muito difícil perder uma filha. Acho que é a dor mais difícil que a gente pode enfrentar... E eu fico pedindo pra Deus me levar primeiro, porque sou velha mesmo, não vou fazer falta. Ela não, ela é nova, devia estar aqui, vivendo, como você, mas 'tá lá, naquela cama...

E quando as lágrimas estavam pra sair dos seus olhos e passear por seu rosto, o ônibus chegou, e ela desejou que a senhorinha ficasse bem...

E então, ao entrar no ônibus, outros problemas começavam, mas ali, naquela maré de pessoas de todas as cores e, especialmente, de todos os cheiros, ninguém queria falar com estranhos. Ali, abafadas, suando pra diabo, tentando ignorar o Funk ouvido pelo moleque do fundo, a conversa entre as moças do mercado, as contas pra pagar, os filhos pra criar, o aumento da gasolina, a corrupção, a derrota do time, ali, naquele universo paralelo, as pessoas não queriam contar pros estranhos sobre suas vidas. Queriam só que o trajeto terminasse...

Algo estranho acontece nos pontos de ônibus. É como se naquele espaço os estranhos se tornassem próximos. Talvez pra matar o tempo da espera, talvez pra diminuir a tristeza de ainda ter que andar tanto antes de, enfim, chegar em casa, talvez porque haja algo de comum entre todos que ali estão. Afinal, estão todos indo pra tortura, e as pessoas tendem a ser solidárias com os companheiros de mazelas.

Nunca se ouviu falar sobre amores que começam em pontos de ônibus, no entanto... Vai ver porque o amor requer um espaço só dele, sem compartilhamentos com histórias tantas. Ou quem sabe porque não dá pra saber se aquela pessoa que fez com que seus olhos brilhassem vai pegar o mesmo ônibus que você.

Porque, mesmo que o ônibus atrase, a gente sabe que daqui a pouco ele vai chegar. Já o amor, esse a gente nunca sabe quando ou se vem...


Ps: Você deve estar se perguntado por que diabos eu coloquei a imagem do Expresso de Hogwarts num texto que fala sobre pontos de ônibus, né? Então... Vai me dizer que não é muito mais bonitinho?! ;)

8 comentários:

  1. Oi Patrícia! Adorei seu blog (descobri você por causa do blog 365 escritores e me identifiquei especialmente com os escritores sobre os quais você escreveu por enquanto. Ai, e esse post, a minha cara. Queria escrever um livro sobre minhas aventuras em ônibus e pontos de ônibus. Um beijo.

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    1. Oi Fernanda,
      Que bom que gostou! =D
      Escreva, menina! História é o que não vai faltar, né! ;)
      Beijo procê!

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  2. Eu acho que deve ter alguma fórmula matemática que explique esse fenômeno de as pessoas sempre quererem conversar com a gente quando estamos de fone. Eu acho impressionante como isso sempre acontece. Podem ter 30 pessoas "desempedidas" para a conversa mas sempre os portadores de fones são os contemplados. Regra universal, verdade absoluta.
    Bjus e bom fim de semana Patrícia ;)

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    1. É verdade, menina!
      Vai ver tem alguma maldição em cima dos fones que a gente não sabe! ;)
      Bom fim de semana!
      Beijo procê!

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  3. Lindo por demais , opss! pera aí ....nada legal o pessoal interromper nosso rock de cada dia, rs....
    Bj sua linda! :)

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  4. Meniiiiiiiiiiiina!! Adorei essa sua crônica.. Ah, é crônica sim!! E das boas... adorei!!! VC tem um humor e nos emociona também (trecho da senhorinha que vai visitar a filha com cancer no hospital). Bjs pra vc!!!

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