segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um prato de lentilhas - Caio Fernando Abreu

Essa é minha singela participação nesse movimento lindo que anda tomando nosso país. Porque é bom demais ver as pessoas nas ruas, nas janelas, nas telas gritando e exigindo nossos direitos. Porque, infelizmente, eu não posso estar na Paulista levantando bandeira. Então, levanto minha bandeira daqui mesmo, pedindo emprestadas as palavras e a voz de um dos escritores mais libertários que nosso país teve o prazer de gerar.

Porque se Caio F. estivesse aqui, também não fugiria à luta e diria que não são só os 20 centavos, mas sim os mais de 500 anos...

Um prato de lentilhas

Queremos nossos direitos, nossos futuros, nossos sonhos. Nosso ridículo votinho...

Parem o mundo que eu quero descer. Só um pouquinho, não vai atrapalhar ninguém. Deixa eu descer, que tá duro demais. Ou pelo menos descer do Brasil, que, se o mundo tá duro assim, este país está insuportável. Ministro Celso Furtado, me arruma uma bolsa de estudos. Pode ser pra Assumpción, Paraguai - estudar culinária, por exemplo, ou botânica. Não me importo com o curso, nem com o país. Não precisa ser chique, não, nem do primeiro mundo: África, Oriente Médio, América Lat(r)ina, qualquer coisa serve. Desde que eu saia daqui. E quando digo aqui, digo São Paulo, digo Brasil, digo fevereiro de 1987. Digo agora, digo já. Para, por favor, que eu quero descer.

Seu Zé Sarney, senhores poderosos - sempre tive nojo de política, de poder, de economia. Até hoje, não tenho a menor ideia do que raios seja OTN, e me sentiria muito mais à vontade dentro de um OVNI (hmmmm, tentação!) do que diante de um formulário do imposto de renda. Mas senhores comandantes desta coisa pobre, louca, doente e suja que nem sei mais se posso chamar "Brasil", vossas excelências sabem o que anda acontecendo nesta terra? Parece que não. Os senhores nunca andam nas ruas? Não veem a cara das pessoas? Senhores donos do poder de nossos míseros destinos: apenas parem um pouquinho numa esquina qualquer, de qualquer cidade, e olhem a cara da gente que passa. Por uns cinco minutos, e basta: vai ser mais eficiente que um Ph.D em Sociologia.

Vai doer, se é que alguma coisa dói nos senhores (nem sequer a consciência?). Está escrito na cara dessas pessoas brasileiras que elas não têm um futuro, não têm onde morar. (A propósito, semana passada fui a uma imobiliária, tentar arranjar meu aluguel - não sou dado a rogar pragas, porque elas pegam, mas um dos senhores bem que merecia passar uma tarde como a que eu passei). Em qualquer país decente (eu disse decente), um ser humano já nasce com sua segurança garantida, é só viver. Aqui, a gente tem que arrancar - no braço, no dia a dia - o mínimo essencial para não morrer. Depois te roubam na esquina, no restaurante, no supermercado. E a gente ainda querendo ser feliz...

Nunca fui fiscal de Sarney, jamais acreditei naquela versão em economês de Pollyana chamada Plano Cruzado, como também não acredito nesta ou em qualquer outra que venha dos senhores. Mas suponho que alguém (alguns) deve ser responsável pelo que acontece na vida prática do povo, na vida objetiva material. São os senhores? Então eu tô cobrando meus direitos: porque não tá dando nem pra comer, nem pra vestir, nem pra morar e muito menos pra sonhar. Aí fica mais grave, porque os senhores não têm o direito de matar sonhos. E não venham nos pedir mais paciência. Estamos muito machucados, muito explorados e enganados pra ter essa coisa mansa chamada paciência. Era Brecht que dizia: "Trazei primeiro um prato de lentilhas/porque moral, somente depois de comer". Era, sim. Pois é.

Tem mais: QUERO escolher meu presidente. Exijo. Não fui eu nem ninguém quem escolheu esses senhores que estão aí em cima arrebentando com a vida da gente. Estamos zerados no banco, despejados, assaltados, e precisamos comer amanhã. E falo no plural porque sou só uma brasileirozinho igual a milhões de outros, certamente - eu sei - com muito mais privilégios do que a desgraçada maioria. Com ou sem privilégios, quero os meus direitos. Quero meu futuro. Quero meus sonhos. Quero pelo menos meu ridículo votinho. Quero, não; queremos. Quem me dá? Pra quem - desde que roubaram a minha juventude, em 1964 - eu posso reclamar?

Fico com ódio, e no meio do ódio me voltam à cabeça aqueles versos de Mário Quintana: "Eu nada entendo do questão social/eu faço parte dela, simplesmente..." Que bom que a gente ainda pode lembrar de versos. Até querer trocá-los por uma metralhadora?

O Estado de S. Paulo, 18/2/1987

Referência bibliográfica: ABREU, Caio Fernando. A vida gritando nos cantos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012 p. 80-81.


5 comentários:

  1. Olá adorei seu blog se puder de uma passada lá no meu, desde já muito obrigado.

    donskedar.blogspot.com.br

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  2. Meu Deus, Pati. Que lindo... Eu nunca tinha lido esse texto do Caio. E, no atual momento político do país, parece que se encaixa certinho, apesar de estarmos falando de um homem que viveu as tristezas da ditadura militar. E que escreve como um rei. Por isso que eu sempre digo: Caio entenderia. Força a todos nós! Um beijo procê.

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  3. Tô em crise, não consigo ler nada a uns sete dias, já aconteceu com vc ?

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  4. Olá adorei o post, bom gostaria de te convidar a dar uma passadinha lá no meu blog, ele está de cara nova, com mais novidades sobre meus livros.

    donskedar.blogspot.com.br

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