sábado, 24 de agosto de 2013

Serás...

Ela se sentou na varanda, com um copo de café na mão e a saudade de ter todos os sonhos do mundo na outra. Seus olhos passeavam pelas nuvens que teimavam em esconder o brilho da Lua. Foi quando pensou no quanto sentimos a necessidade de ver por detrás.

Sempre procuramos significados ocultos, interpretações outras, xis linha, xis duas linhas, quando, o que importa mesmo é olhar. Olhar e enxergar ao redor. Olhar e ver o que há dentro de nós.

Ela olhava o celular, mas não via nada. Fechava os olhos e esperava pela vibração, pelo toque, pelo "Oi, estou aqui", que nunca vinha, se é que viria.

Lia as entrelinhas, que, de tantas e tamanhas, a faziam ficar perdida nos Universo dos serás... Será que ele está ocupado? Será que ele não quer falar comigo? Será que eu fui grossa? Será que fui melosa demais? Será que estou sendo idiota? Será que não é pra ser? Será...

Eram tantos serás perdidos naqueles suspiros, que ela nem percebeu quando a Lua saiu por detrás das nuvens, e iluminou o chão ao seu redor.

Quase sempre, é isso que acontece com o bicho humano. Ele fica perdido no escuro de suas dúvidas e medos, enquanto o caminho se mostra iluminado do lado de fora. Olhamos pra dentro, cavucando buracos na alma, em busca de sofrimentos que nos alimentem a angústia; em busca de lembranças; em busca de desculpas para não tentar, para deixar pra lá, para continuar andando no escuro.

Ela não percebia que o medo do presente a fazia morar num passado empoeirado, ou então num futuro que, de tão bonito, não existia. O medo de se dar, pra si mesma, era maior do que a vontade de olhar pra fora.

O medo de se encontrar, muitas vezes, é monstruoso perto da possibilidade de continuar perdida. Porque estar perdido é não ter escolhas, ou necessidades. Quando estamos perdidos, sozinhos, no escuro de nós mesmos, nos sentimos confortáveis, conhecidos.

O telefone vibrou e ela sentiu as borboletas. Ah, as borboletas... Elas mostravam que a graça da vida é essa surpresa, esse "será" que nos tira o chão, que nos faz caminhar pela corda bamba.

Não era quem ela imaginava, mas eram outros tantos presentes, que acabou por se esquecer de que ele ainda não havia lembrado dela. Ou havia? Será que ele pensou em mim? Será que, assim como eu, ele queria escrever, mas...? Será...

Pensava no quanto é difícil acreditar depois de ter passado a vida desacreditando. Acreditar exige empenho, exige fé. E que fé pode ter uma pessoa que deixou tantos pedidos não realizados perdidos pelo caminho?

Às vezes gostar parece uma aventura. Gostar de nós mesmos. Gostar do outro, seja o outro amigo, o outro amor, o outro desconhecido. Gostar é ter força o suficiente para acreditar.

Quanto mais velho, mais difícil aprender a gostar. Mais difícil querer gostar. Porque a dúvida sempre nos faz companhia. Porque os serás são parte entranhada de nosso coração. Porque estamos acostumados a não gostar, e gostar dá trabalho.

Enquanto segurava o aparelho, seus olhos já não viam ao redor. Olhavam pra dentro, encaravam o medo. Foi quando, pela primeira vez naquela noite, ela via a luz da Lua iluminando a calçada. Sorriu. Prometeu a si mesma não deixar que os serás atrapalhassem suas próprias borboletas. Sabia que seria difícil, mas ao mesmo tempo sabia que havia chegado a hora de aprender e, principalmente, viver com o presente.

Deixou o copo de café ao lado dos serás no chão, e, com as duas mãos, abraçou novamente todos os sonhos do mundo.

4 comentários:

  1. Que lindo Patrícia.
    Sério me emocionei
    E agora eu também vou abraçar todos os sonhos do mundo :)

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  2. Queeeeeee lindo! Amei, de verdade. Tu escreve muito bem ;)

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  3. Parabéns, Patrícia! Que texto lindo :)

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