quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Machado de Assis e eu: uma história de amor.


Joaquim Maria Machado de Assis. Eis o nome do maior escritor da Língua Portuguesa. Que me perdoem Pessoa, Camões, Eça, Alencar [e todos os seus leitores amantes ;)] e tantos outros que, maravilhosamente, fotografaram o mundo em palavras, mas, na minha humilde e nada parcial opinião, Machado é o grande fotógrafo do real.

A história da vida do Bruxo do Cosme Velho, por si só, já dá um grande romance. Nascido pobre, mulato, doente; tendo enfrentado ainda tão jovem a morte da mãe, da irmã, do pai; lutado com as únicas forças das quais dispunha - o intelecto e o caráter -, sem precisar usar muletas morais, Machado de Assis é o grande vencedor de sua época.

Ainda em vida foi aclamado como gênio, e mesmo depois de cem anos de nos ter deixado para ir tomar chá com Brás Cubas, sua obra ainda ecoa, ainda retumba por aqui.


Mas por que essa minha paixão pelo escritor de Dom Casmurro e tantos outros romances imortais, você me pergunta, cansado leitor? Senta, que lá vem história...

Comecei a ler Machado ainda menina, aos 12 anos. O primeiro romance que li foi "A mão e a luva", e já naquela primeira experiência, me encantei com o fato de suas mocinhas não serem assim tão mocinhas. Me fascinei com sua Helena, tão diferente da Helena de Alencar. Me apaixonei por seu Luis Garcia, tão diferente dos mocinhos de outrora...

Porque sim, eu era uma adolescente que vivia à margem. Eu preferia os finais shakespeareanos, as Madames Bovarys, as tavernas de Azevedo.

Mas com os idos da adolescência, acabei deixando o velho Bruxo de lado. Na verdade, tivemos uma briga, ele e eu. Aos 14, tentei ler Memórias Póstumas. Não conseguia. Briguei por dias e dias com o Brás Cubas e sua ácida visão do mundo. Vejam, naquela época eu escrevia poesia inspirada em Álvares de Azevedo, já tinha, inclusive, escrito o poema da minha lápide, então dá pra entender o porquê de eu não ter me entendido com Brás, né?

Dois anos depois, entrei pra faculdade, conheci Manoel de Barros, Poe e tantos outros autores que me fizeram guardar aquele meu amor à primeira vista por Machado em um baú, junto com as lembranças [tristes] da minha adolescência.

Eis que num belo dia de férias, passeando pela livraria, resolvi comprar Memórias Póstumas. Estava me sentindo corajosa, e há muito que não conseguia escrever um sonetinho sequer... E foi numa tarde de Janeiro que eu me apaixonei por Machado novamente.

Foi ali, em plena rua [antigamente eu conseguia ler enquanto andava, hoje em dia, se eu tentar, é tombo na certa!] que eu sorri pro Brás e todo aquele seu cinismo encantador, e então me entreguei apaixonada e perdidamente a Machado de Assis.

Depois disso, veio o mestrado e O Alienista. Foi quando, pela primeira vez, mergulhei fundo na biografia machadiana. E cada pequeno detalhe que eu descobria fazia com que eu me apaixonasse mais e mais.

Lembro como se fosse hoje que, ao terminar de escrever o capítulo sobre Machado pra dissertação, ao colocar o último ponto, chorei. Chorei em frente ao computador como quem chora em frente ao corpo inerte de um ente querido.

Hoje eu sou a louca do Machado de Assis. Faço o Projeto Machado de Assis Cronológico [quer saber mais, clica AQUI]; tento completar minha coleção de suas obras; mas, principalmente, me tornei machadiana. Penso que cheguei naquele estágio em que o leitor já não consegue se desvencilhar do escritor, tão grande é minha cumplicidade com o criador de Quincas Borba.

Mas e você, por que você tem que ler Machado de Assis? Afinal de contas, dizem por aí que ele é só literatura [chata] de escola. E eu grito pra que você me escute: Machado de Assis não é literatura de escola, é literatura de vida!!!

Vou pegar emprestadas as palavras de Ayrton Marcondes, estudioso que escreveu a que, na minha opinião, é uma das melhores biografias sobre Machado, a "Machado de Assis: Exercício de Admiração" [Editora Girafa, 2008]. Assim como eu, Marcondes também tem aquele brilho nos olhos quando fala sobre nosso escritor das Laranjeiras...

"Há muito de devoção na busca de um escritor. De fato, não se remexem velhos papéis por acaso. Estranho o caminho de um homem que aos poucos mergulha nas obras de um escritor e, para salvar-se do afogamento, decide estabelecer um pacto de intimidade com ele. Pacto esse unilateral, aliás, porque, em geral, quando isso acontece o escritor já está bem morto e a ele não é dada, nem mesmo, a recusa à parceria que lhe é imposta.
Talvez seja bem esse o caso de Machado de Assis. Ícone máximo da literatura brasileira e falecido há cem anos, talvez Machado nunca venha a descansar em paz. E, pensando bem, pode-se atribuir a Machado parte da culpa por esse fato: ele não descansará porque mais dia, menos dias, sua obra enfeitiçará alguém e o atrairá para a teia que ele mesmo, Machado, qual aranha de enormes pedipalpos, deixou bem armada antes de finar-se deste mundo". (MARCONDES 2008, p.11)

E é isso... Espero que você dê uma chance ao nosso querido Bruxo. Garanto que ele transformará sua vida em magia. ;)

[Esse post foi originalmente escrito para o blog 365 Escritores.]

4 comentários:

  1. Também gosto de Machado de Assis, embora somente tenha lido Helena, Esaú e Jacó, (contos) O alienista, A cartomante e O enfermeiro...mas já está lá em casa, me esperando pacientemente o Dom Casmurro.
    Gostei muito de Esaú e Jacó pelo fato de passar em um período histórico e mostrar as reações.
    bjs pra ti.

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  2. Li apenas um livro do Machado (e confesso que só li por ser forçada para o vestibular), mas simplesmente me apaixonei *-*
    Quero muito ler outras coisas :D

    Beijo

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  3. Há algum tempo me tornei um grande fã do Machado.
    Foi uma coisa muito estranha e repentina. A primeira coisa que li foi 'Pai contra Mãe' e gostei.
    Por indicação, resolvi comprar Ressurreição, mas antes de efetuar a compra, decidi assistir primeiro uma resenha pra saber se eu ia me interessar mesmo.
    Passeando pelo youtube, eu topo com uma vídeo de uma tal de Patrícia Pirota. Assisti e caí de amores. Assisti todos os outros vídeos e aguardava ansiosamente por um novo. Conforme o seu projeto cronológico ia sendo posto em prática, eu me atraí mais e mais pelo Machado. De repente me vi necessitando ler todas as obras dele, uma atrás da outra e deixando todas as minhas outras leituras de lado.
    Hoje não consigo começar o dia sem ler alguma do Machado, nem que seja uma frase bonita, um conto ou um poema.
    E posso afirmar que isso é quase 100% culpa sua. xD
    Só tenho a agradecer por ter inserido tão grande autor na minha vidinha simplória. Sou muito grato mesmo, e sou super fã do seu canal, do blog, dos seus textos e poesias próprias.
    Um beijo e um abraço!
    Até mais! =D

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  4. Oi Patrícia!
    Diferente da maioria das pessoas que encontraram Machado de Assis pela primeira vez na escola, eu tive o prazer de lê-lo sem a pressão por notas embora ainda fizesse o colegial.
    Tinha na biblioteca da minha cidade um monte de livros que lia entre as obrigações escolares e Machado entrou na minha vida me apresentando Bentinho e a menina com Olhos de Ressaca! É, o primeiro livro que li foi Dom Casmurro, e com então 17 anos, só podia desejar que toda aquela história não passasse de um mal entendido e que Bentinho e Capitu se acertassem pra sempre...
    Depois de alguns anos, reli o livro e como sempre acontece, meu desejo de adolescente deu lugar a admiração sobre aquele final, tão simples e por isso mesmo, tão forte...
    Li outros livros dele, mas Dom Casmurro está, ainda hoje entre os meus dez livros favoritos!
    Parabens pelo blog!
    Abraços!

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