terça-feira, 22 de outubro de 2013

A medida das nossas dores...

Lá estava eu - numa segunda-feira velha de guerra, que explorava todas as suas possibilidades em ser insuportavelmente segunda-feira - com o coração partido.

Na verdade, não era bem o coração que estava partido, mas o cérebro que havia ficado meio desequilibrado por conta de uma decepção aqui, uma frustração ali.

De todo modo, não é isso o que importa, o que importa é que eu, embora vestida de verde, me encontrasse tão cinzenta por dentro. E me arrastava como se estivesse presa a grilhões tão pesados quanto o mundo que não é o de Drummond.

Foi quando vi um de meus alunos mais fofos, mais serelepes, mais sorridentes, todo tristinho, ele próprio arrastando seus mini grilhões.

Soube então que, naquela tarde, seu cachorrinho tão amado seria sacrificado. Ali, na minha frente, estavam as lágrimas e os sentimentos de um menino de 10 anos, cujo melhor amigo canino seria morto.

Ali estava a infância sendo manchada por um acontecimento irreversível, e eu e meu pseudosofrimento nos sentimentos pequeninos diante daquela dor tão singela.

Porque os adultos estão acostumados com as tantas bofetadas diárias. Dói um 'cadinho, choramingamos um pouco, enchemos o saco dos amigos, as timelines dos desconhecidos e logo estamos prontos pra outra frustração, outro coração que, de tão partido, já nem se importa mais em ser incompleto.

Agora, a dor daquela criança, tão desacostumada sequer a chorar por um tombo, era tão grande, mas tão grande, que não cabia nela e transbordava em lágrimas. Lágrimas pesadas, doídas, sinceras.

Talvez hoje minhas lágrimas não sejam mais tão sinceras. Digo isso porque às vezes penso que inventamos nosso próprio sofrimento. É, é isso mesmo que eu disse, nós inventamos nosso próprio sofrimento. Porque viver sempre feliz incomoda, não só a nós mesmos, mas aos outros, e, consequentemente, a nós mesmos de novo. Daí que esse ciclo vicioso acaba criando em nós, seres desumanos, essa necessidade de sofrer.

Não me venha dizer que você, em nenhum momentozinho desta malfadada vida, nunca inventou um sofrimento. 'Cê jura, bem?! Pense bem, meu bem...

Porque nós não conseguimos levar uma vida mais do mesmo pra sempre. Uma hora ou outra a gente inventa um terremoto qualquer só pra desopilar um pouco, chorar um pouco e depois sair por aí sorrindo à toa porque a vida, oras, a vida é bela assim mesmo, entre casas, bananeiras, laranjeiras e tudo indo devagar, igual à cidadezinha qualquer drummondiana.

No final do dia, escrevi um bilhetinho pro aluno fofo: "Vai ficar tudo bem, eu prometo! Essa tristeza aí vai passar, e vão ficar só as boas lembranças no lugar. Beijinho!". Ele leu, sorriu e voltou pro seu lugar ainda com os passos pesados de quem vai encarar a morte pela primeira vez.

Depois, fiquei com vergonha daquele meu tal coração partido lá do começo do texto. O que era mais uma decepção banal dessa tal de vida perto da perda irreparável de uma criança que ainda vê o mundo com os olhos da inocência?

Minha dor ficou tão pequena, que sumiu de vergonha. Afinal, ela não merecia morar nos meus pensamentos. Era uma dor tão boba, que despachei-a pra terra das dores bobocas, que inventamos pra fingir que estamos vivos.

Mas não é muito melhor estarmos vivos sem precisarmos ter pena de nós mesmos? Estarmos vivos porque sim, temos uma vida boa, casa, comida, roupa lavada e emprego pra bater o ponto todo dia? Estarmos vivos porque podemos encontrar amor em nós mesmos e ao nosso redor a todo momento? Estarmos vivos porque a vida, sem mistificações, nos basta? Estarmos vivos porque, aleluia!, o mundo está cheio de possibilidades?

Essa vida besta mesmo, meu deus, mas tão nossa, com nossas próprias pedras, que vão ficando pelo caminho, se as deixarmos... Essa vida aí, que te faz olhar pela janela e sorrir só porque daqui a pouco você vai encontrar alguém, ou a si mesmo, pra sorrir junto. Essa vida que nos faz ter esperança, por menor e mais boba que seja. Essa vida que é bonita, e é bonita e é bonita porque é nossa, tão absurdamente nossa.

E posso te contar uma coisa? Não é que, no final das contas, até eu acreditei no meu próprio recado? ;)

10 comentários:

  1. Eu, como o presidente da Real Academia dos Misantropos de Meia Hora te digo: sim, eu já criei e continuo a criar minhas "pedras no caminho". Na verdade, achei esse texto quase que uma descrição de mim! Isso mesmo! Primeiro por que minha cor favorita é o verde. Segundo por que, como disse, sou descaradamente construtor de muros que me isolam (ou ao menos de aparência) para que eu reclame de minha solidão infindável. E terceiro por que eu sempre encontro garotinhos cujos cães serão sacrificados naquela tarde! Na verdade eu até diminuí um pouco com isso - na época da faculdade era direto! - mas ainda me perco postando aqui ou ali algo relacionado a uma ou outra ocasião, obviamente criada por mim, que acaba não dando certo e me enchendo do mais "paraguaio" (desculpem-me os paraguaios, desejo apenas apropriar-me momentaneamente do dito popular sobre seu país) dos verdadeiramente profundos sentimentos. Rá.
    Beijos, querida \o

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  2. Muito bom seu texto!!!
    Uma vez encontrei duas senhorinhas no cabeleireiro e uma delas só reclamava da vida, a outra virou e disse: Fulana, vc precisa dar mais "graças à deus"!
    Sempre me lembro disso. Como a gente gosta de inventar problemas e aflições!
    Bjs!

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  3. Lindo texto! Assim como todos os outros. Muito poético. Mesmo sabendo que inventamos nossas dores, ainda me pergunto: "Por que as inventamos?". Talvez estas dores sejam frutos de outras originais. Sentimentos secretos criam novas formas de ver o mundo, tão sinceras e ingênuas quanto de uma criança inocente. Acredito que o caminho seja aceitar a existência destes e de outros sentimentos, mesmo daquilo que não estamos de acordo. As poucas vezes que trabalhei com crianças foram suficientes para compreender a afirmação de Oscar Wilde "Não sou tão jovem a ponto de saber tudo". Quando pequenos aceitamos nossos sentimentos como são, é uma pena que o mundo adulto não permite esta expressão tão simples e bela, e o mais triste ensina suas crianças - aqueles seres onde a esperança desabrocha - a guardar toda a emoção vivida, pois no mundo de "gente grande" não há espaço nem tempo para coisas tão "fúteis". Só velho Alberto Caieiro para nos ensinar "...Desencaixotar minhas emoções verdadeiras,/Desembrulhar-me e ser eu...". Seu texto ficou ótimo, levou-me a outras reflexões além das citadas! (rss)
    Beijos.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Hj liguei a Net à sua procura rs...
    Precisava de uma voz amiga, antes de enfrentar uma prova importante. Fui até seu canal no youtube, mas de repente me deu vontade de vir aqui, ler um de seus posts que tanto me encantam, embora vc não saiba disso pq quase não comento. Qdo me deparei com o post acima, eu, vestida de verde tb e com o corecebo em frangalhos, quase nem acreditei! Pensei: Eita! Patrícia externando o que tá me sufocando por dentro... Gzuisssssss!
    Lágrimas vieram rs, é clarooo! Mas mentalizei a gente se dando as mãos e uma dando força pra outra. Afinal, enqto houver fôlego pra caminhar, apesar de tudo, bora tentar ser feliz com as pequenas coisas, para treinar qdo as maiores vierem, né?! Amo vc imensamente, viu?! Bjs

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  6. Amei seu texto.
    Ficou muito, muito lindo.
    Quem dera que a gente ainda conseguisse acreditar em recadinhos como esse que você escreveu pro seu aluno.

    http://lisos-somos.blogspot.com.br/

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  7. Parabéns, gostei muito do texto.
    Abraços
    Regina Lemos

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  8. Se quiser entrar para a turminha do meu blog de reportagens, este é o link.
    www.reginalemos.blogspot.com

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  9. Descobri em sua forma de destilar uma escrita maravilhosa e gostosa de ler, a forma que você descreve cada linha torna-se linda com suas belas histórias.

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