sexta-feira, 27 de junho de 2014

Terapia da professora #1

"A maior das realizações é passar a vida fazendo o que importa. O ensino é importante."

Quando fui escolher minha profissão (num longínquo século XX), me vi cercada por um mar de possíveis escolhas. Havia as clássicas (Medicina, Direito, Administração), as que davam dinheiro (Engenharias), as moderninhas (Jornalismo e Publicidade) e as que causavam pena na maioria das pessoas (Licenciaturas).

Minha mãe queria que eu fizesse Medicina ("Quero minha filha realizando meu sonho!"). Meu pai, Administração ("Tem que fazer o que dá dinheiro!"). Meus parentes, Engenharia ("Você é nerd!"). Eu... Bom, eu queria mesmo era ser escritora/atriz/cantora, ter uma casa no campo e plantar meus sonhos...

Poucos dias antes da inscrição do vestibular, lembrei que, desde pequenina, as pessoas mais influentes em minha vida [depois de minha família] foram meus professores. Cada um a seu modo, me ensinaram não só sobre equações, sintaxe, briófitas e velocidades médias; eles me ensinaram sobre a vida. Aquelas pessoas, em frente ao quadro, me inspiraram e me guiaram, ainda que não soubessem exatamente o tamanho de sua influência sobre mim.

Ao marcar no quadradinho de Letras - Licenciatura, eu esperava poder um dia ser tão importante pra alguém como meus mestres foram pra mim. Afinal de contas, o ensino e a aprendizagem - estejam eles dentro da sala de aula ou não - são o que move o mundo.

Mesmo sofrendo preconceito por conta de minha escolha, e vendo o quão desvalorizados eram aqueles indivíduos que tinham a bondade de compartilhar comigo o saber que adquiriram ao longo dos anos, eu resolvi que faria parte daquele seleto grupo de pessoas que ficavam em pé sobre suas mesas, e tentavam fazer com que outros pensassem além do lugar-comum.

Sim, Mr. Keating foi um dos principais responsáveis por minha escolha. Sociedade dos poetas mortos talvez seja o filme que mais assisti nessa vida. No início, pra aprender com Mr. Keating e seus discípulos. Nos últimos anos, pra não deixar de acreditar no quanto minha profissão é importante.

É muito triste ver professores se arrastando, trabalhando como quem vai pra guerra ou qualquer coisa que lhes tire a vida. Olho meus companheiros e sinto pena por não terem feito outra escolha; ou então, por não terem abandonado o barco ainda.

Reza a lenda que os professores são desvalorizados... E eu arrisco a dizer que os primeiros a desvalorizarem os professores são eles mesmos. Vejo semanalmente dezenas de colegas rezando por um feriado prolongado, pedindo que um raio caia em suas cabeças, sentados lendo um livro em voz alta como se aquilo fosse uma aula...

Eles reclamam do salário, dos alunos, da coordenação, da direção, do sistema, das provas... Reclamam como se reclamar adiantasse alguma coisa.

Sim, eu também me canso às vezes. Eu também reclamo às vezes, mas porque sou humana e não descontente...

Eu vejo a minha profissão como a mais importante de todas, como aquela que leva aos demais caminhos. Me vejo como uma figura tão ou mais importante que um chefe de estado. Por quê? Porque eu carrego aquilo que um povo tem de mais importante: sua cultura.

Faço com que minhas aulas de História da Arte e Literatura sejam tão importantes quanto qualquer outra disciplina. Por quê? Porque elas são. Elas são tão importantes quanto eu. E ninguém vai me tirar o direito e o dever de mostrar o quão necessário e importante é o ensino.

Se você está no time dos professores que já não veem mais importância no que fazem, tem duas alternativas: pedir pra sair ou mudar sua mentalidade.

Não sei se você percebeu, mas, em uma mísera aula de cinquenta minutos, você pode mudar a vida de 30, 40 jovens de uma vez! Você, ali, em frente ao quadro, é tão importante quanto qualquer artista! Não se deixe ficar como figurante.

É difícil? É cansativo? MUITO! Mas você escolheu, e suas escolhas dentro de sala não afetam apenas você, mas seus alunos também. E eles são o nosso legado. São eles, cada um deles, que irão continuar nosso trabalho no mundo.

Você tem certeza de que quer passar o resto da vida "cumprindo tabela"? Há tantas ocupações por aí... Se não vê mais importância na docência, escolha uma das outras milhares de profissões que estão ao alcance das suas mãos. Tenha a coragem e a decência de desistir.

"Ah, falar é fácil!", você me diz... Uhum... Falar é fácil mesmo. E eu não só falo, eu já fiz.

Em 2007, eu completava 8 anos em sala. Estava cansada, sobrecarregada, carrancuda. Ia pra escola como quem ia pra uma reunião de condomínio: obrigada, e sem perspectivas de melhora... Era concursada do Estado, tinha estabilidade... Estava naquela zona de conforto perigosa do funcionalismo público.

Quando percebi que não dava mais importância pra minhas aulas. Quando olhei no espelho e vi que aquilo não me preenchia mais, fui lá e chutei o balde. Pedi exoneração, larguei todas as minhas aulas e fui morar a mais de mil quilômetros de distância.

Como eu tinha passado a vida dando aula, não sabia fazer mais nada... Fui então trabalhar de vendedora numa loja de camisetas. Depois, recepcionista de uma empresa de internet. Eu não conseguia ver importância no que eu fazia... Era vazio. Serviço pra cumprir tabela e salvar a grana da janta e do aluguel. Eis que encontrei o Mestrado no meio do caminho, e ele mudou minha vida. Mas isso... Isso é uma outra história...

Fiquei três anos fora da sala de aula, e quando voltei, era como se eu fosse a Dorothy voltando pra casa e alegremente dizendo "There's no place like home"... Meu afastamento me fez enxergar que aquele era meu lugar, e que era sendo professora que eu faria a diferença no mundo.

É fácil? Não! Eu fico cansada? Todos os dias! Eu estou realizada? Sim. Eu estou feliz? Sim. E sabe por quê? Porque ensinar é importante, e eu faço parte de algo importante.

Espero que você também esteja feliz, querido professor... Se não, existem milhares de outras coisas que você pode fazer pra fazer a diferença nesse mundo. É só escolher uma delas. ;)

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Esse post é o 1º de uma tag intitulada "Terapia da professora", que irá ao ar toda sexta-feira. As citações que iniciam os posts são retiradas do livro "Terapia do professor", de Karen Katafiasz (Editora Paulus). Para cada frase, eu irei escrever um texto [com minha interpretação ou com minhas histórias] que a ilustre.

Espero que possamos refletir juntos (professores ou não) sobre a docência e o ensino... E você é meu convidado para deixar suas reflexões nos comentários, viu! Beijo procê!

14 comentários:

  1. Nossa, Pati! Adorei demais seu texto! Penso muito igual a você embora eu não lecione nada.. Mas cansava de ver isso principalmente eu que vim de colégio público a minha vida toda. Acho muito bonito da sua parte (embora eu achei muito difícil pra uma pessoa) chutar o balde e querer mudar isso! E acho muito gostoso poder ter aula com quem goste de dar porque a aula fica mais divertida, mesmo ela sendo matemática kkk enfim, Pati, parabéns! VocÊ deve ser uma professora muito legal! :)

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  2. Obrigada , obrigada e obrigada... Tb exonerei e tb voltei... Bjos emocionados colega. ♥

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  3. Estimulante e emocionante ao mesmo tempo! Dá vontade de não desistir dos nossos sonhos lendo o seu texto. Você, com certeza, deve ser uma excelente professora. Parabéns pelo seu trabalho e pela coragem de não desistir dele! :D

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  4. Já gostava do seu blog e agora depois dessa postagem eu me apaixonei. Sabe por que? Porque achei mais uma alma irmã pelo mundo. Mais uma professora louca e apaixonada que acredita na profissão e sente muito orgulho dela.
    Adorei sua postagem, com certeza irei acompanhar seus bate-papos.

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  5. Confissões de um adolescente, ( adorava aquela série! ). Enfim, retomando ao assunto.Gostei muito do texto acima, e de outros do blog! E, novamente, retomando ao que eu adoraria falar: eu tenho 16 (prestes a completar 17), e muitos ficam boquiabertos, quando eu conto que dou aulas de inglês ( nada muito profissional! ). Contudo, dou aulas...e agora não mudaria de opinião sobre qual carreira pretendo seguir, independentemente, de minha mãe alertar ou o meu pai apoiar ( o único! ) e muitos pensarem que eu faliria juntamente com esta instituição que, infelizmente, não é mais vangloriada: a tão assustada e libertadora educação.
    Eu comecei a acompanhar o blog e o canal, gostaria que você fosse uma de minhas leitoras. Aqui está o link:
    http://quantomaispaginasabertas.blogspot.com.br/

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  6. [resumindo... porque o outro comentário que havia escrito o browser apagou por algum motivo] Trabalhar com educação não é tarefa fácil. Receber tantas expectativas, tocar na vida de diversos jovens, pensar como esses conhecimentos podem fazer sentido na vida de outras pessoas é simplesmente um desafio do tamanho do mundo. Não sou professor, mas trabalho numa secretaria de educação e vivo uma luta diária. Sobreviver a dança de cargos, poder, autoridades etc. é às vezes sofrível, mas busco ampliar o debate sobre Educação trazendo questões sobre Direitos Humanos, Diversidade, Ética, etc. por entender que a responsabilidade diante da vida de milhões de jovens é enorme.

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  7. Boa reflexão. Percebo que centenas e milhares de docentes, ainda não conseguiram entender as dimensão no sentido transformador dessa profissão.

    Parabéns

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  8. Olá Patrícia tudo bom? Belo texto o teu, como vários outros (sem querer puxar-saco rsrs). Já lecionei no ensino fundamental e médio, dando aulas de biologia, ciências e até inglês e concordo com os teus pensamentos. É cansativo, é trabalhoso, mas naquele momento em que você está lecionando, você pode estar mudando a vida de alguns alunos. Contando uma histórinha minha, sou o tipo de professor que tento manter uma aproximação ao máximo com meus alunos, talvez pelo fato de curtir livros, séries, enfim, esse ambiente considerado nerd. Certa vez, substitui um professor durante uma semana e havia um aluno que estava na tábua para "repetir o ano". Sai daquela escola e no início do outro ano, encontrei ele em uma festa de aniversário e perguntei se ele havia conseguido passar de ano, ele me respondeu: consegui por que me inspirei em você. Ele ter falado aquilo, de forma tão espontânea, me fez soltar um Putz!!! Atualmente não leciono, por que estou fazendo mestrado em outro estado, mas quero sim voltar para o ambiente escolar posteriormente.
    Falei demais rsrs, um abraço procê, parabéns pelo canal e pela volta ^^

    Brigada Paralela

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  9. Paty sua linda! Me emocionei lendo esse texto, obrigada.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Oi, Patrícia!
    Acompanho sempre o seu blog, o da Tati e o da Juliana, e tenho as três como inspirações para mim. Esta "terapia" não poderia começar em um momento mais adequado, considerando que agora em Julho estarei deixando um emprego razoável para me iniciar como professora (já comecei as aulas há algumas semanas, paralelamente). Faço Letras (divido também o amor pelos livros), mas cheguei a me matricular em Análise de Sistemas em uma faculdade pública "e tudo", e quando voltei atrás também ouvi dos parentes que eu deveria escolher o mais rentável porque era "nerd" e já tinha um curso técnico na área de TI.

    A verdade é que, desde pequena, eu me imaginava uma professora explicando o conteúdo da escola para os alunos imaginários. Minha mãe é pedagoga, apaixonada pela sala de aula, portanto conheço os "sacrifícios" da profissão, a falta de reconhecimento e até as horas de trabalho aos fins de semana não contabilizadas.

    Sei que vou passar por bons desafios nesta minha caminhada. Mas quer saber? Pelas poucas aulas que dei já estou sentindo o gosto de que vai valer a pena ;)

    O post está maravilhoso; o filme também é.
    Ansiosa pelas próximas "sessões".
    Beijos

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  12. obrigada Patricia pelo texto me ajudou muito a confirmar aquilo que tenho certeza, que estou no lugar certo fazendo licenciatura em letras.

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  13. Não sou professora mas sou aluna há muitos anos e acredito que serei por muitos mais e em todos esses anos tive professores que me inspiraram, me motivaram e mostraram que o caminho é a educação não só pra um país melhor como também um mundo melhor, mais humano.
    Fico feliz em saber que existem pessoas como você Patricia que valorizam a profissão independente de qual seja esta, pessoas/profissionais que amam o que fazem e fazem o que amam. Deixo aqui o meu muito obrigada a este texto incrível e a todos os professores que nos ajudam a caminhar todos os dias.

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  14. Nossa, seu post ficou tão bom que a vontade que tenho é de responder com tantas palavras quanto foi escrito.

    Sou professora de educação física do Estado de SP, convivo diariamente com professores desmotivados, mas que não largam o osso.
    Você disse bem quando comentou sobre a estabilidade e conforto do funcionalismo público. Infelizmente nos deparamos com muitos colegas desmotivados, cansados, que não gostam do fazem, mas que insistem em dizer que gostam, mas que a culpa disso tudo são "dessas crianças de hoje em dia".
    Sempre bato de frente lá na escola dizendo que precisamos olhar com outros olhos para os jovens, que precisamos buscar entendê-los, que precisamos descobrir porque não prestam tanta atenção as aulas e o que escuto é "você fala isso por que é nova", "uma hora você também vai se cansar, quero ver até quando você vai falar assim", "também né, ser professor de educação física é fácil, eles amam ir para a quadra"...
    Fico chateada, as vezes me pergunto como vou sobreviver em meio a tantos lobos famintos. Parecem zumbis querendo roubar minha esperança.
    Sociedade dos Poetas mortos é um dos filmes inspiradores que uso para recuperar o gás, outro filme muito bom (que eu sempre me emociono quando vejo) é Escritores da liberdade. Eu sei que é um filme apenas, mas é baseado em fatos reais e só de saber que aquilo um dia aconteceu de verdade, me sinto mais forte para continuar.
    Daria para lista vários filmes aqui que são muito bons... Clube do imperador, Entre os Muros da Escola, Ao mestre com carinho, etc...

    Hoje eu curso pedagogia, estou indo pra o 4º semestre. Quero trabalhar com os professores também, pretendo ser coordenadora, no início, o foco é a supervisão, mas se sentir que estou longe de mais do "mãos na massa" não vou aguentar e vou querer retornar a escola.

    Acho que querer ser professor tem lá sua pitada de super herói, de querer mudar o mundo, ver as coisas diferentes, abrir os olhos dos jovens, e quem não tem mais esses objetivos quando leciona, na verdade não deveria estar mais ali.
    Eu espero estar fazendo um trabalho bom, me questiono sempre sobre isso e penso em como posso melhorar. Não é fácil, mas a vontade de fazer um trabalho bem feito e ver a mudança na vida de cada um dos jovens que passam por nossas vidas é maior do que a vontade de reclamar ou relaxar no trabalho.

    Continue com essa terapia, adorei poder refletir mais um pouquinho sobre a nossa amada profissão. =)

    Bjs!

    www.pingoucafenomeulivro.blogspot.com.br

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