sexta-feira, 11 de julho de 2014

Terapia da professora #2

[PS: Leia ouvindo "O caderno", de Toquinho. Mas não se esqueça dos lencinhos. ;) ]

"Recorde-se dos professores que influenciaram sua vida para o bem. O que fizeram? Como lhe proporcionaram o necessário? Siga-lhes o exemplo."

Minha primeira professora foi minha mãe, dona Maria Rosa. Ela foi a primeira a me mostrar o encanto das letras e dos textos. Lia por horas, incansável, meus livrinhos de histórias da Disney. Pegava na minha mão e me guiava [o que faz até hoje, inclusive] pela folha, me mostrando que eu também podia fazer magia e do lápis fazer brotarem palavras. Graças à Dona Maria, aos quatro anos, consegui enfim formar as primeiras palavras [escritas de trás pra frente, ao contrário; mas e não é a vida toda ao contrário?], e dei os primeiros passos na alfabetização.

Aos seis anos entrei para a escola. Fui obrigada a entrar direto na primeira série [por já ter iniciado a alfabetização e por ser muito maior que as demais crianças, por incrível que pareça!] e pulei o tal do prezinho... E lá, naquela escola nos cafundós do mundo, conheci a que seria a terceira mulher mais importante e inspiradora de minha tão curta vida.

Professora Regina tinha um sorriso tão grande, mas tão grande, que parecia que o mundo todo sorria junto com ela. Era amável, carinhosa e paciente. Quando eu tinha dificuldades [e eu as tinha aos montes, porque era míope e ainda não sabia... Era disléxica e também não sabia...], ela sorria e, com uma paciência que não era deste mundo!, me ajudava.

Sua presença sempre tão querida me ajudou a superar meus problemas. Lembro-me como se fosse hoje quando meu primeiro caderninho, tão charmosamente decorado por minha mãe, acabou. Nós não tínhamos condições de comprar outro. Pode parecer pouco, um caderno, mas eu não tinha sequer sapatos, a não ser um chinelinho verde; assim, um caderno era demais pra nossa família.

Naquele dia, em que eu escrevi na última linha, da última folha de meu caderno, eu me senti envergonhada por não ser como meus colegas e poder comprar outro caderno cheio de bonitas figuras. Professora Regina pegou folhas sulfites, dobrou-as delicadamente, fez uma capa bem bonita, me entregou e disse: Pronto! Agora você tem um caderno que ninguém mais tem, feito com muito carinho.

Já se passaram 25 anos desse episódio, e ainda hoje eu me lembro do quanto eu me sentia bem perto da minha "Professora Helena". Carrossel estreava exatamente naquele ano, e eu me sentia tão feliz de ter uma professora Helena só pra mim, que me ajudou a passar por um dos períodos mais tristes da minha vida...

Na sétima série, conheci Antônia, professora de Português e responsável por eu aprender as Orações Subordinadas, a desenhar, a pintar, a escrever poesia e a prestar vestibular para Letras. Os olhos dela sorriam seja quando declamava Vinícius ou quando conjugava verbos defectivos. Ela nos incentivava a ler, a escrever nossas próprias palavras, a termos nossas próprias ideias.

Professora Antônia foi meu Mr. Keating da vida real... E foi ali, assistindo a uma aula dela, que resolvi que meu objetivo de vida seria, um dia, poder inspirar alguém como ela me inspirava. Se hoje eu escrevo e leio tanto, em grande parte devo a esta mulher que, de tão apaixonada pelo que fazia, transmitiu seu amor pelas Letras para mim.

Se nos meus primeiros anos, minha grande influência foram as professoras, na adolescência foi a vez dos professores marcarem pra sempre meu jeito de ser...

Primeiro veio o Zé Carlos [com quem depois tive o prazer de trabalhar; ele como meu diretor], professor de História, que me abriu os olhos e os ouvidos pra Filosofia. Em suas aulas eu aprendi não só os fatos, mas a pensar e ter minha própria opinião sobre os fatos. Foi ele que me apresentou Thoreau, Schopenhauer, Bacon, Voltaire, Marx... Foi sua energia contagiante que me fez aprender a olhar o mundo de cima de minha carteira.

Lembro-me de que, naquela época, o governo atrasava muito o salário dos professores. Eles ficavam meses sem receber, além de receberem muito mal. Mas todos os dias víamos o Zé chegando na escola com sua bicicleta, com o mesmo sorriso e dando a mesma aula, com o mesmo entusiasmo, ainda que não tivesse um real na carteira. Com ele eu também aprendi que as condições ruins não justificam aulas ruins, e que não é o dinheiro que faz o professor.

Naquela mesma escola [na qual tive a alegria indizível de trabalhar anos mais tarde], conheci o Edson, meu professor de Física. Ele era engenheiro de formação, e odiava dar aula, o que era muito inconsistente com o que eu pensava sobre ele. Suas aulas, pra mim, competiam lado a lado com as de Literatura. Foi com ele que aprendi a abstrair, a pensar no Universo como algo em constante movimento, a fazer cálculos com objetivo, a entender, enfim!, a utilidade de tantas fórmulas...

E fora da sala ele me ensinou ainda mais... Tínhamos encontros mensais, nos quais ele me ensinava a matéria que estava fora do currículo, e ouvia minhas lamúrias de adolescente. Foi nesses encontros, na grama da universidade, que aprendi sobre Física Quântica, I ching, sobre mim mesma... Fico pensando no quanto ele se importava comigo a ponto de me doar seu tempo e seu conhecimento... Hoje ele trabalha no Banco, no qual entrou logo depois que eu saí da escola. Sempre que vou lá fico olhando de longe, e agradeço com os olhos e com o coração toda a influência que seus ensinamentos ainda exercem sobre mim...

Ao entrar na faculdade, ganhei uma musa, uma deusa maior, Dra. Maria Adélia, minha professora de Teoria Literária. Foi Madé que me ensinou que o mundo da Literatura era ainda muito, muito mais vasto que o mundo das sete faces de Drummond... Ela me apresentou Poe, Manoel de Barros, Sylvia Plath, Virginia Woolf... Ela me ensinou a enxergar além das tintas dos quadros nas aulas de História da Arte. Com ela aprendi a tirar as palavras do estado de dicionário, e a levar a chave sempre que abrisse um livro.

Hoje tenho o absoluto prazer de ainda ter contato com Madé, por mais breve que seja. Ver suas postagens, ler seus textos, falar com ela de quando em quando... Pra mim, é como se ela fosse Sócrates, Aristóteles ou qualquer uma daquelas figuras que, de tão sábias, parecem estar em um universo no qual não nos é permitido pisar...

Ainda na faculdade conheci minha professora de língua inglesa, Regina Célia. Ela era uma mistura de técnica, teoria, prática e doçura. Ensinava como quem contava uma história que, de tão divertida, ninguém queria que acabasse. Era a professora perfeita: organizada, dedicada, com boa didática e, o principal, amava o que fazia. Amava tanto que, mesmo depois de sua aposentadoria, continuou dando aula pra minha turma, até nos formarmos. Ela é meu grande exemplo de que é possível ser forte sem perder a doçura, de que é possível ser teórica e prática. Hoje tenho o prazer de ainda poder conviver com ela, uma vez que é mãe de amigos meus, e, de certa forma, acabou por me adotar como da família...

Minha última grande influência é a Dra. Marilda, minha orientadora do mestrado. Eu nunca serei capaz de expressar em palavras a gratidão pela presença tão importante de Marilda em minha vida. Além de me ajudar a ser uma pesquisadora, seu sorriso sempre me confortava quando eu tinha saudades de casa. Nossas conversas me faziam ver o quanto eu era ignorante, e isso era tão bom, porque eu ainda tinha muito que aprender. Discutíamos horrores, mas eram discussões cheias de risadas, porque o fato de ela vir das Artes e eu das Letras nos fazia andar por caminhos diferentes, e que, no fim das contas, convergiram.

Marilda era a luz em pessoa. Tinha marido [meu professor do mestrado, inclusive. Outra figura incrível!], muitos filhos, mãe pra cuidar, trabalho infinito... e vivia sorrindo e buscando uma nova perspectiva sobre a vida. Eu tinha a visão de Marilda como Mr. Keating sobre a mesa, sempre tentando encontrar outros olhares possíveis.

E essas são as figuras que cravaram o contorno de suas mãos na minha calçada do pensamento... É claro que os demais professores também foram importantes, mas foram esses, cada um a sua maneira, que moldaram quem eu sou, e, principalmente, a professora que eu sou...

Sempre que reflito sobre minha prática em sala [é faço isso com bastante regularidade], fico me lembrando de como eles faziam pra ser como eram. A cada dia, eu busco ser um pouco de cada um deles, na esperança de um dia ser tão importante pra alguém quanto eles foram pra mim.

Eles foram, e continuam sendo, minha grande inspiração. Minha mãe, Regina, Antônia, Zé Carlos, Edson, Madé, Regina, Marilda... Todos eles estão aqui, gravados em mim, me ensinando que é preciso amar o que se faz pra que se possa fazer o bem.

O ingrediente principal eu tenho, que é o amor pelo que faço, o resto... vou aprendendo com a lembrança dos meus grandes mestres. ;)

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Esse post faz parte de uma tag intitulada "Terapia da professora", que será postada às sextas-feiras. As citações que iniciam os posts são retiradas do livro "Terapia do professor", de Karen Katafiasz (Editora Paulus). Para cada frase, eu irei escrever um texto [com minha interpretação ou com minhas histórias] que a ilustre.

Espero que possamos refletir juntos (professores ou não) sobre a docência e o ensino... E você é meu convidado para deixar suas reflexões nos comentários, viu! Beijo procê!


4 comentários:

  1. A Renata encaminhou para nosso grupo esse seu texto. Fico feliz por fazer parte do seu universo de formação e admiro muito o seu trabalho. Claro que chorei um pouquinho quando me vi descrita dessa maneira, mas isso vc já sabia que ia acontecer. Eu sou como aquela tia do conto O peru de natal, do Mário de Andrade. Adorei estar ao lado da Regina e dos outros. Bjs. Madé

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  2. Felicidades com a nova tag, Patrícia!
    O blogue está super mudado! :D Fazia tempo que não acessava direto. Só lendo pelo feed!
    Beijus,

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  3. Opa! Já vim espiar se tinha mais "Terapia de Professora" por aqui hehehe
    Bjs!

    http://pingoucafenomeulivro.blogspot.com.br/

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